Para bancar luxo, Sérgio Cabral precisaria de ao menos R$ 21,7 mi de sobra de caixa 2

Para bancar luxo, Sérgio Cabral precisaria de ao menos R$ 21,7 mi de sobra de caixa 2

Em dois interrogatórios na Lava Jato, ex-governador do Rio negou propina e jogou gastos milionários na conta de valores ilícitos de suas campanhas

Julia Affonso

30 Maio 2017 | 05h00

Sérgio Cabral. Foto: Brunno Dantas /TJRJ

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) precisaria ter disponíveis pelo menos R$ 21,7 milhões de sobra de caixa 2 de suas campanhas ao Executivo fluminense para bancar os luxos da família a partir de 2007. Em seus dois depoimentos à Operação Lava Jato – um ao juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba, e outro ao juiz federal Marcelo Bretas, no Rio -, o peemedebista assumiu a responsabilidade dos gastos milionários que fez até ser preso em novembro de 2016, eximiu a mulher Adriana Ancelmo de envolvimento nas contas do casal e jogou no colo da sobra de caixa 2 de campanha os valores que desembolsou em nove anos.

Sérgio Cabral foi governador do Rio entre janeiro de 2007 e abril de 2014. Dados da prestação oficial de contas das campanhas de Sérgio Cabral ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que, em 2006, as receitas foram de R$ 9.740.389,18 e as despesas, R$ 9.734.780,48. Em 2010, a receita alcançou R$ 20.701.771,61, e a despesa, R$ 20.696.983,63.

Desde a deflagração da Lava Jato, em março de 2013, o peemedebista foi citado como beneficiário de propinas nas delações premiadas do ex-diretor de Abastecimentos da Petrobrás Paulo Roberto Costa e de executivos da Odebrecht, da Carioca Engenharia, da Andrade Gutierrez e da JBS.

O valor de R$ 21.754.079,11 corresponde somente a um montante desembolsado pelo peemedebista em ‘joias de altíssimo valor de mercado’, um iate, móveis, blindagem de carro e roupas de grife em duas denúncias das forças-tarefas da Lava Jato, no Rio e no Paraná: uma sobre corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa na urbanização em Manguinhos (PAC Favelas), construção do Arco Metropolitano e reforma do estádio do Maracanã para a Copa de 2014 e outra sobre propina de R$ 2,7 milhões das obras do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), em Curitiba. Sérgio Cabral é réu em nove ações penais na Lava Jato.

+ ‘Seo Sérgio Cabral está arrependido das condutas que cometeu?’

+ Promotoria do Rio cobra R$ 3,17 bi de Sérgio Cabral e mais 30 acusados por desvios em obras do Metrô da Copa

Em 27 de abril, Sérgio Cabral negou em interrogatório ao juiz Sérgio Moro ter recebido propina de R$ 2,7 milhões sobre as obras do Comperj e alegou ter bancado luxos com dinheiro de sobra de campanha eleitoral e de caixa 2. Na ocasião, o peemedebista respondeu a poucas perguntas o magistrado. O ex-governador confirmou, em pergunta de seu advogado, que comprou os produtos e afirmou ter usado ‘recursos próprios e sobras de campanha’.

“Eu não posso negar que houve uso de caixa 2 e houve uso de sobra de campanha de recurso em função de eu ter sido um político sempre com um desempenho eleitoral muito forte no Estado. Financiamento acontecia e esses fatos são reais. Isso não tem nada a ver com a questão do Comperj”, afirmou na ocasião.

O peemedebista é acusado pela força-tarefa da Lava Jato, no Paraná, de lavar R$ 1.419.746,05. A Procuradoria aponta que uma parte deste valor pagou, entre 22 de outubro de 2008 a 22 de julho de 2014, dez compras e quitou duas faturas de cartão de crédito por meio de 12 pagamentos em espécie ‘de vultosas quantias’ – que somaram R$ 121.359,80. Nesta lista: tecidos para roupa sob medida, gravatas, perfume, armação de óculos e botões de punho.

Em outra frente, a força-tarefa da Lava Jato, no Rio, acusa Sérgio Cabral de lavar ou dar anuência à ocultação de ao menos R$ 20.334.333,06. Segundo a denúncia, o peemedebista ‘patrocinou farta lavagem de dinheiro obtido ilicitamente’ por meio de aquisições de joias de R$ 6,5 milhões em dinheiro, pagamento de despesas com aluguel de R$ 1 milhão de sala, compra de iate de R$ 5,3 milhões por um ‘testa de ferro’, celebração de contratos de consultoria fictícios e custeio de gastos em dinheiro de membros do esquema.

+ Operador de Sérgio Cabral ganhou poltrona de R$ 17,3 mil de ‘amigo de fora do Rio’

+ Juiz da Lava Jato, no Rio, vê ‘traição eleitoral’ de Sérgio Cabral

Em 11 de maio de 2016, aponta a acusação da força-tarefa do Rio, Sérgio Cabral usou um cadastro dissimulado para comprar um colar de R$ 21 mil em espécie. Os investigadores afirmam que entre 2000 e 2016, em apenas uma joalheria, o ex-governador adquiriu ‘a impressionante quantidade de 114 joias, totalizando R$ 3.880.822,00, sendo certo que 80% desse valor refere-se a joias adquiridas enquanto o denunciado esteve à frente do Governo do Estado do Rio de Janeiro’.

Apesar da negativa de Sérgio Cabral sobre a função de Adriana Ancelmo no esquema, a Procuradoria da República, no Rio, atribui à ex-primeira-dama ‘papel de extremo protagonismo no núcleo financeiro operacional da organização criminosa’. “Este papel certamente não se limitou à fruição da vida de luxo proporcionada pela fortuna desviada dos cofres públicos através da corrupção do marido”, afirma a denúncia.

Na quarta-feira, 24, ao juiz federal Marcelo Bretas, o ex-governador do Rio voltou a ‘culpar’ o caixa 2. O peemedebista admitiu ter comprado joias, mas afirmou ter adquiridos os bens com sobras de campanha. As compras milionárias, segundo Sérgio Cabral, ocorreram somente em datas festivas.

COM A PALAVRA, SÉRGIO CABRAL

“A defesa de Sérgio Cabral informa que se manifestará no processo em curso na Justiça.”

Mais conteúdo sobre:

operação Lava JatoSérgio Cabral