Palocci diz ter avisado Lula: ‘Nosso ilícito com a Odebrecht já está monstruoso’

Ex-ministro dissse a Moro ter convencido ex-presidente a desfazer compra 'escandalosa' de terreno pela empresa como forma de repassar propina e chamou negócio conduzido por pecuarista José Carlos Bumlai e advogado Roberto Teixeira de 'Operação Tabajara'

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Luiz Vassalo e Fausto Macedo

06 Setembro 2017 | 20h14

Em um jantar no apartamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, no final de 2010 – plena campanha eleitoral de Dilma Roussef – o ex-ministro Antonio Palocci diz ter convencido o petista e seus aliados a desistirem daquilo que ele chamou de “operação tabajara”, que era o recebimento de um terreno de R$ 12 milhões da Odebrecht para sede do Instituto Lula, em São Paulo. Era propina incluída em um “pacto de sangue” feito com o empresário Emílio Odebrecht. É o que narrou o ex-ministro nesta quarta-feira, 5, ao juiz federal Sérgio Moro, dos processos da Lava Jato, em Curitiba.

“No conjunto, era um ilícito grave aquilo. No conjunto, considerando a pessoa do presidente Lula, o governo, a Odebrecht. Para o Instituto Lula aquilo era uma fratura exposta, um convite a uma investigação.” (Assista aos 10min45s) Ele afirmou ter tratado “diversas” vezes com o ex-presidente sobre o negócio.

Preso desde setembro de 2016 pela Lava Jato e condenado a 12 anos e 2 meses de prisão, Palocci negocia uma acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal e decidiu colaborar espontaneamente com a Justiça – como forma de sair da cadeia. Como outros candidatos a delatores, o petista deve buscar benefícios diretamente com Moro.

Ex-ministro da Fazenda de Lula, ex-Casa Civil de Dilma e um dos homens fortes do PT em sua relação com empresas e com o sistema financeiro, Palocci confessou seus crimes e acusou Lula de ter acertado R$ 300 milhões com a Odebrecht, em propinas, naquele ano de 2010. O terreno para sede do Instituto estava no pacote de propinas.

A força-tarefa da Lava Jato descobriu a transação ao localizar o registro de pagamentos do setor de propinas da Odebrecht vinculados a rubrica “Prédio (IL)”, em uma planilha controlada por “Italiano” – que seria o codinome usado para Palocci. O empresário Marcelo Odebrecht – preso desde junho de 2015 – e outros delatores confessaram em sua delação premiada a compra para repasse de propinas.

VEJA OS VÍDEOS DO DEPOIMENTO DE PALOCCI

+ Delator confirma a Moro que R$ 12 mi de terreno do Instituto Lula saiu da conta ‘Amigo’

Segundo Palocci, “a denúncia procede, os fatos são verdadeiros. Eu diria apenas que os fatos desta denúncia dizem respeito a um capitulo de um livro um pouco maior do relacionamento da Odebrecht com o governo do ex-presidente Lula e da ex-presidente Dilma, que foi uma relação bastante intensa, bastante movida a vantagens, a propinas pagas pela Odebrecht para agentes públicos, em forma de doação de campanha, de benefícios pessoais, em forma de caixa 1 e caixa 2”.

Dona Marisa. Palocci diz que no final do governo, Lula pediu para ele atender a ex-primeira dama Marisa Letícia (morta em fevereiro).

O ex-ministro narra que ela explicou que estava pensando em uma sede para o Instituto Lula para abrigar material de presidente e pediu para que ele falasse com Eram os dois que estavam cuidando da operação de compra do imóvel. “Ela relatou que o presidente estava com pouco tempo e ela queria agilizar a busca de um local, ela tava no Alvorada para onde iriam todos esses bens que iam sair de lá caminhos, e disse que  o pecuarista José Carlos Bumlai e com o advogado Roberto Teixeira, amigos da família, “estavam cuidando do assunto.

Palocci disse que dias depois foi procurado por Bumlai, que falou da compra do imóvel e pediu ajuda para convencer a Odebrecht a comprá-lo. O ex-ministro diz ter advertido o amigo de Lula sobre o risco da operação. Foi quando soube da compra do apartamento em São Bernardo pela Odebrecht, em nome de uma sobrinho do pecuarista – outro objeto da acusação criminal.

“Falei para ele, ‘olha estou preocupado, eu não gostaria de fazer desse jeito. O senhor está fazendo um instituto para receber doações e fazer suas atividades, não sei porque procurar agora um terreno. Por que não esperar… não tem problema nenhum receber uma doação da Odebrecht, mas que seja formal ou pelo menos revestida de formalidade”, disse Palocci a Moro.

“Eu disse para ele (Lula), ‘nosso ilícito com a Odebrecht já está monstruoso. Se nós fizermos esse tipo de operação vamos criar uma fratura exposta desnecessária.”

Dias depois, Palocci afirmou que Marcelo Odebrecht o procurou e disse estar preocupado com repasse do imóvel. Mas disse que já estava em curso a compra por Bumlai e Teixeira e teriam cobrado pagamento.

O terreno da Rua Doutor Haberbeck Brandão, 178, São Paulo, foi comprado da ASA ­ Agência Sul Americana de Publicidade e Administração pela DAG Construtora, de um amigo de Odebrecht. Escritura de 24 de novembro de 2010 registra o negócio pelo valor de R$ 6.875.686,27.

Palocci diz ter buscado Lula para tentar que ele não recebesse o imóvel. O ex-ministro narra que o ex-presidente solicitou então que ele fosse até sua casa para “convencer Dona Marisa”.

“Fui em uma reunião com ele (Lula), a dona Marisa, o doutor Roberto Teixeira, o Bumlai e o Paulo Okamotto” Ele afirmou que ele pediu que convencesse Dona Marisa a convencê-la a não efetivar o recebimento do imóvel que já estava comprado. Palocci diz que no local viu que a briga eram com Teixeira e Bumlai, que montaram a operação.”

Os envolvidos então concordaram que seria anulada a negociação. Segundo Palocci, ele avisou Odebrecht que não aceitariam mais o imóvel, que segundo o empresário estava “bichado”.

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O imóvel nunca serviu de sede para o Instituto Lula. Oficialmente, a Lava Jato considerava que o motivo do negócio não ter dado certo foram problemas de liberação de uso do terreno, na Prefeitura de São Paulo. Desde 2011, quando ele deixou a Presidência, a sede o instituto funciona em um imóvel no bairro Ipiranga, onde funcionava o Instituto Cidadania.

Em 28 de setembro de 2012 o terreno foi transferido para a Odebrecht Realizações­ Empreendimentos Imobiliários por R$ 15 milhões de reais, segundo o registro, e sucessivamente vendido por R$ 12.602.230,16 à empresa Mix Empreendimentos e Participações Ltda. –  escritura de 5 de junho de 2013.

Nas investigações da Lava Jato, a Polícia Federal colheu provas do negócios, antes mesmo da confissão dos réus. Encontrou, por exemplo, minuta de contrato de compra e venda, com data de 5 de março de 2010, do terreno tendo como adquirente José Carlos Costa Marques Bumlai, no ato representado por Roberto Teixeira. O contrato foi apreendido no Sítio Santa Bárbara, em em Atibaia (SP) – imóvel que a Lava Jato diz ser de Lula, em nome de “laranjas”. Ele nega.

O preço solicitado para o imóvel era de R$ 10 milhões, havendo ainda dívidas junto à Prefeitura de São Paulo em torno de R$ 2,3 milhões. O que atinge um valor próximo ao lançado na planilha Posição Italiano, R$ 12.422 milhões.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DE LULA

O advogado Cristiano Zanin Martins, defensor do ex-presidente Lula, declarou em nota.
“Palocci muda depoimento em busca de delação. O depoimento de Palocci é contraditório com outros depoimentos de testemunhas, réus, delatores da Odebrecht e com as provas apresentadas.

Preso e sob pressão, Palocci negocia com o MP acordo de delação que exige que se justifiquem acusações falsas e sem provas contra Lula.

Como Léo Pinheiro e Delcídio, Palocci repete papel de validar, sem provas, as acusações do MP para obter redução de pena.

Palocci compareceu ato pronto para emitir frases e expressões de efeito, como “pacto de sangue”, esta última anotada em papéis por ele usados na audiência.

Após cumprirem este papel, delações informais de Delcídio e Léo Pinheiro foram desacreditadas, inclusive pelo MP.”
Cristiano Zanin Martins