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José Dirceu

‘Os seus pecados Zé Dirceu admitiu’, diz advogado sobre depoimento a Moro

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

29/01/2016, 20h05

   

Ex-ministro chefe da Casa Civil admitiu a juiz da Lava Jato que usou avião do lobista Julio Camargo e que delator Milton Pascowitch bancou a reforma de sua casa e do apartamento, mas negou ter indicado Renato Duque para a Diretoria de Serviços da Petrobrás

José Dirceu chega para seu interrogatório na Lava Jato - 29/01/2016 - Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

José Dirceu chega para seu interrogatório na Lava Jato – 29/01/2016 – Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

Atualizado às 20h31

O ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu ‘admitiu suas culpas’ em depoimento na tarde desta sexta-feira, 29, ao juiz federal Sérgio Moro. Réu em ação penal por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Dirceu está preso desde 3 de agosto. Nesta sexta ficou frente a frente com o juiz que mandou prende-lo. Respondeu a todas as perguntas na audiência. “Esclareceu tudo, disse que é verdade que o Milton Pascowitch (lobista e delator) pagou a reforma do seu apartamento e da sua casa”, contou o advogado Roberto Podval, defensor de Dirceu, após o depoimento.

Dirceu negou ter indicado o engenheiro Renato Duque para a Diretoria de Serviços da Petrobrás. Duque, apontado como cota do PT na Petrobrás, também é réu da Lava Jato porque sob seu controle teria operado um dos principais focos de corrupção na estatal petrolífera.

Roberto Podval falou após a audiência de Dirceu. Foto: Ricardo Brandt/Estadão

Roberto Podval falou após a audiência de Dirceu. Foto: Ricardo Brandt/Estadão

José Dirceu disse assim, segundo seu advogado. “Não indiquei Renato Duque, eu não o conhecia, não o conhecia antes desses fatos (investigação da Lava Jato). Havia um pedido do PSDB (para uma diretoria da estatal), uma indicação absolutamente legítima. Eu já tinha uma indicação do PSDB por conta de Furnas e havia uma outra pessoa indicada pelo PT. Eu preferi indicar porque já tinha PSDB para Furnas. Eu não tinha nenhum interesse pessoal com Renato Duque. Como ministro da Casa Civil assinei. A última palavra era minha para todas as pessoas, todos os ministérios. Eu não tiro a minha responsabilidade.”

Dirceu admitiu ter usado um jatinho de outro lobista e delator, Julio Camargo. Segundo Podval, ele falou: ‘os aviões me foram cedidos. A vida inteira me foram cedidos. Foram cedidos por ele (Júlio Camargo), foram cedidos por outros. Eu sempre voei e sempre me deram.’

Podval disse. “Ou seja, nunca ninguém escondeu isso. Até então era bacana ser amigo do Zé Dirceu. Era bacana oferecer o avião para o Zé Dirceu. Claro, nas costas dele estavam ganhando dinheiro em cima disso.”

“Os seus pecados o Zé Dirceu admitiu”, afirmou o criminalista, referindo-se ao relato do ex-ministro ao juiz Moro. “Tentou ser o mais claro possível, o mais correto possível. É só olhar as propriedades, o dinheiro que ele (Dirceu) tem para saber qual é a verdade disso. Muitos delatores devolveram muito dinheiro, 80 milhões, ficaram com 40, estão soltos e dando risada por aí. O Zé está preso.”

O ex-ministro declarou na audiência, segundo o relato de seu advogado. “O que me chegou é que havia uma disputa entre duas pessoas, uma apoiada legitimamente pelo PSDB e a outra pelo PT. Minha escolha foi a indicada pelo PT. Tinha duas pessoas. Eu vou optar por escolher o do PT porque alguém já havia sido indicado pelo PSDB. A demanda chegou para mim e eu decidi assim. Renato Duque não era amigo meu, eu nunca tinha visto, não sabia quem era.”

Roberto Podval disse. “O Zé Dirceu admitiu que fez negócio, que permitiu que o Milton Pascowitch pagasse a reforma do apartamento e da casa. Ele disse. ‘Isso era uma coisa minha com MIlton, eu iria pagar o Milton.’ Imagino que o Pascowitch se aproveitou da situação e ‘vendeu’ o Zé. O Zé sempre permitiu ser usado por terceiros que ganharam milhões às custas do Zé. Estão rindo aí, andando por aí, e o Zé Dirceu preso. É ridículo.”

Segundo Podval, o ex-ministro negou recebimento de propinas do esquema na Petrobrás por meio de sua empresa, a JD Assessoria e Consultoria. “Tudo o que (recebeu) está contabilmente ali, não tem nada oculto. O que não está declarado são as reformas do apartamento e da casa. Ele (Dirceu) falou das reformas, do imóvel do Ibirapuera. Ele disse que fez financiamento bancário, mas que não está pagando porque não tem dinheiro. Essa é a realidade dele.”

O advogado disse. “É só olhar as propriedades, o dinheiro que o Zé tem para saber qual é a verdade disso. Corrupção na Petrobrás? As acusações (contra Dirceu) não se sustentam. Se ele é o mentor do esquema porque precisa de alguém (para reformar seus imóveis)? Todos os diretores (da Petrobrás) com milhões e milhões. Não tô dizendo ninguém aqui é santo. O Zé está assumindo suas culpas. Mas todo mundo aqui fez delação jogando nas costas dele que é mais fácil. Devolveram 80 milhões, ficaram com 40, estão rindo, todos soltos. A gente pode gostar e pode não gostar do PT, mas a questão política é uma. Não é defender o PT, mas defender as coisas como elas são. Pessoas injustamente vão ficar presas. Ele (Dirceu) preso e pessoas com milhões soltas. Vejam quanto os delatores pagaram e com quanto ficaram. E quem não delatou é ruim e está preso.”

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