Os robôs e o futuro da profissão de advogado

Thomas Eckschmidt*

13 Maio 2018 | 05h40

A atuação de robôs e o uso da inteligência artificial irão trazer mais justiça ao mundo através de processos mais eficientes e mais baratos. A tecnologia já mudou fortemente a área industrial. Quando no passado se empregavam milhares de trabalhadores para produzir um carro, hoje as máquinas fazem grande parte do trabalho repetitivo, de risco e de baixo valor agregado. Os serviços de logística e varejo também avançam a largos passos na automação e eliminação de trabalhos de pouco valor, repetitivos e sem valorização do ser humano.

Mas a intenção de nosso artigo é falar da área jurídica. O risco que os advogados estão expostos com a criação de soluções eletrônicas para resolução de conflitos, buscas inteligentes que não necessitam mais pessoas para preparar a argumentação e assim por diante. Tudo isso pode estar colocando em risco a profissão do advogado em um futuro próximo.

Essa é a ideia imediata de qualquer um desatento ao que está acontecendo no mundo. As profissões com menores salários estão sendo substituídas por algoritmos, inteligência artificial e robôs. Mas, por outro lado, isso abre a oportunidade do verdadeiro trabalho intelectual de um advogado, podendo esse agora tirar maior proveito de seu talento explorando não o passado, mas como as leis devem nortear o mercado no futuro que está emergindo.

A tecnologia traz novas relações de trabalho, consumo, tributação e, ainda, de estruturas corporativas. Essas são as grandes áreas que o Direito e seus profissionais precisam endereçar. Precisamos parar de usar o passado para nos nortear e pensar como o futuro vai configurar as nossas vidas e as relações.

Hoje, já é possível ler documentos com o uso da tecnologia e para fazer isso na área jurídica é apenas um piscar de olhos. Quando menos esperarmos isso estará acontecendo. A transformação de um escritório de advocacia é natural. A maioria começa processando casos e depois com a experiência e conhecimento passa a definir rumos legais através de interpretações e redesenho das soluções.

Todo trabalho repetitivo é absolutamente entediante, principalmente na área jurídica. O que a maioria dos advogados chama de “pegar o jeito”, nada mais é do que saber o que precisa fazer dependendo da “petição inicial”. Isso não é trabalho de uma pessoa formada, inteligente e capacitada. Isso é o trabalho de um robô.

Nesse trabalho é muito fácil “deixar algo passar”. Isso nunca passaria com um robô. Uma busca por palavras-chave de forma sistemática (sistema de computador) é sempre muito mais completa do que uma busca realizada por um profissional da área jurídica. Aí está o risco de ficarmos achando que nosso futuro é realizar tarefas repetitivas. A confiança de saber algo é fator crítico de risco, de acidente ou de erro.

O ROSS, que é o “advogado digital” baseado na plataforma de Inteligência Artificial da IBM, já tem gerado muito resultado para os escritórios de advocacia que o utilizam.

No futuro próximo os advogados acabarão usando seus talentos em paralelo às ferramentas de inteligência artificial e dos robôs para resolver casos mais complexos, de múltiplas dimensões e múltiplos stakeholders e com elementos de avaliação subjetiva ou ainda para discutir disputas entre o setor privado e o setor público.

As demais relações comerciais voluntárias, que são em sua maioria transacionais, têm uma grande chance de serem resolvidas por meios alternativos para solução de conflitos, garantindo confidencialidade, eficiência e conveniência para as partes envolvidas e nesses casos nem advogados serão necessários. O mais interessante ainda é que podemos esperar que os conflitos comerciais transacionais tendam a desaparecer, pois as empresas que ainda operarem em altos níveis de frustração de expectativas com seus clientes e consumidores certamente perderão mercado.

Algumas Lawtechs, que promovem a resolução de conflitos oriundos de uma expectativa não realizada de uma transação comercial, conhecida como uma reclamação, já têm avançado com muito sucesso com seus clientes e parceiros resolvendo reclamações através de três níveis: negociação direta entre cliente e fornecedor; mediação, com a participação de um terceiro para definir uma solução conjunta; ou ainda através de uma arbitragem onde um terceiro é selecionado para definir a solução para o caso.

Tudo isso é disponível em ambiente digital, garantindo o que as empresas mais querem: eficiência, conveniência e confidencialidade, além de também atender as necessidades da geração do milênio de comunicação e solução de conflitos.

Também já existem outras Lawtechs que trabalham com casos já judicializados, propondo acordo entre as partes em ambiente digital, com ajuda de um algoritmo de propostas e contrapropostas e as partes interagindo em ambiente digital o tempo todo na conveniência de cada um.

Esse caminho é certamente mais ameaçador para os advogados que passam de protagonistas na direção e delineamento de um caso para meros coadjuvantes que, em sua maioria, não são nem convidados para a “conversa”.

As oportunidades são inúmeras, mas certamente não para o trabalho rotineiro, repetitivo de alto índice de erros e falhas. No entanto, a oportunidade é enorme para desenhar as novas regras entre as relações dos negócios que ainda estão por vir. É a chance dos advogados utilizarem seu verdadeiro talento a favor do desenho de uma sociedade futura mais justa.

*Sócio da LawTech Melhor Acordo. Co-autor do livro Do Conflito ao Acordo na Era Digital

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