‘Os partidos apoiavam por algum retorno financeiro’, diz delator

‘Os partidos apoiavam por algum retorno financeiro’, diz delator

Paulo Roberto Costa afirmou que ninguém chegava a cargo de diretor da Petrobrás sem respaldo do PP, PMDB e PT e que esquema 'também funcionava em outros órgãos do governo'

Redação

15 Setembro 2015 | 03h00

Paulo Roberto Costa falou à Justiça Federal. Foto: Reprodução

Paulo Roberto Costa falou à Justiça Federal. Foto: Reprodução

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou nesta segunda-feira, 14, à Justiça Federal no Paraná, base da Operação Lava Jato, que não se chegava a ocupar cargo de direção na estatal ‘sem apoio político’. Ele contou que entrou na Petrobrás em 2004 (Governo Lula), apoiado pelo PP. “Eu sabia que os diretores que entraram em janeiro de 2003 (início do primeiro governo do petista) também tinham apoio de partidos, principalmente do PT e do PMDB. Para chegar a diretor tinha que ter apoio político. Não se chegava por méritos próprios. Assim funcionava a Petrobrás.”

Na audiência desta segunda-feira, um procurador questionou o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa em que consistia o apoio político dos partidos. “Os partidos apoiavam visando algum interesse em relação a algum retorno financeiro. Isso não era apenas na Petrobrás, isso também funcionava em outros órgãos de governo, outras estatais. O apoio político não era simplesmente pela capacitação da pessoa como técnico. Eu tinha 27 anos de Petrobrás, sem nenhuma mácula no meu currículo, quando fui indicado para diretor. Aceitei esse apoio político. Por esse apoio sempre tinha que dar algum retorno para o partido.”


“Esse apoio consistiria em pagamento de vantagens indevidas, desvios?”, insistiu o represente do Ministério Público Federal.

“Sim”, respondeu Paulo Roberto Costa.

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O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, primeiro delator da Lava Jato, depôs como testemunha arrolada pela acusação no processo contra o ex-diretor de Internacional da Petrobrás, Jorge Luiz, denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas – a força-tarefa da Lava Jato identificou quase onze milhões de euros em conta secreta de Zelada no Principado de Mônaco. Também são réus neste processo o lobista do PMDB João Henriques e outros quatro investigados.

Jorge Zelada após ser preso no início de julho. Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

Jorge Zelada foi preso no início de julho. Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

A Procuradoria da República sustenta que houve pagamento de propinas que somaram US$ 20,8 milhões sobre um contrato de afretamento do navio sonda Titanium Explorer. O acordo foi celebrado entre a sociedade americana Vantage Drilling com a Petrobrás no valor de US$ 1,816 bilhão.

Da propina, US$ 10,8 milhões teriam sido destinados ao PMDB, segundo o Ministério Público Federal. Zelada, preso desde julho, sucedeu Nestor Cerveró no comando da Diretoria da Área Internacional da Petrobrás. Cerveró também está preso.

Paulo Roberto Costa disse que Cerveró tinha apoio do PMDB e do PT. Zelada, do PMDB. O ex-diretor afirmou que o mesmo esquema de corrupção que vigorava em sua área predominava na Diretoria de Internacional. “Falava-se que tinha esse pedágio, tinha que pagar algum valor em relação a apoio político especificamente na área Internacional.”

Na audiência, Paulo Roberto foi questionado sobre João Augusto Henriques, apontado pela Procuradoria como lobista do PMDB. “Eu o conheci quando ele era diretor da Petrobrás Distribuidora. Tivemos um almoço no escritório de um advogado, de quem não me recordo o nome, perto da Petrobrás, onde também estava presente o Zelada. Foi em 2010 ou 2011. Falamos sobre futuros empreendimentos, mas não lembro de termos falado sobre valores ou porcentuais.”

Ele disse que João Augusto era uma pessoa próxima da área Internacional da estatal. “Ele tinha um bom contato lá, era uma pessoa próxima a Zelada, tanto que participou desse almoço com o advogado.” Paulo Roberto disse ‘era de conhecimento público’ que João Henriques teve apoio do PMDB de Minas Gerais, ‘de um parlamentar de sobrenome Diniz’.

O ex-diretor de Abastecimento disse que ‘não se lembra’ de ter tido negócios com João Henriques. “Que eu me lembre, não. Se eu tivesse com certeza esclareceria.”