Os dependentes químicos precisam de mim

Os dependentes químicos precisam de mim

Fernanda Alves*

27 Maio 2017 | 05h00

Fernanda Alves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ao menos 28 milhões de pessoas no Brasil têm algum familiar que é dependente químico, de acordo com o Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É a maior pesquisa mundial sobre dependentes químicos, de acordo com Dr. Ronaldo Laranjeira, um dos coordenadores do estudo.

Recentemente, foram divulgados dados sobre consumo de maconha, cocaína e seus derivados, além da ingestão de bebidas alcoólicas por brasileiro. A partir desses resultados, os pesquisadores estimam que 5,7% dos brasileiros sejam dependentes de drogas, índice que representa mais de 8 milhões de pessoas.

Meu nome é Fernanda Alves, sou jornalista, mãe, tenho 41 anos, e esses números que pesquisei me sensibilizaram. Deixei minha carreira de jornalista para fazer laboratório com os dependentes químicos num período de 2 anos e tentar entender esse universo tão abandonado. Eu era totalmente leiga em como tentar ajudar esses doentes, já que não me drogo, mas algo tocou o meu coração que eu deveria correr atrás.


Eu acredito que esses números não me chamaram a atenção à toa. Há dependentes químicos próximos à minha vida, já namorei um viciado na adolescência. Senti que algo estava me alertando, até que um dia resolvi me filiar a um partido e me candidatar à deputada federal. A candidatura foi indeferida por questões da minha filiação junto ao partido que estava irregular, mas a causa que eu escolhi defender permaneceu e eu luto até hoje por isso.

O laboratório era diário, ora em clínicas, ora em casas de famílias, e até mesmo com os próprios viciados. Em conversa com psiquiatras, psicoterapeutas, visitas em vários tipos de clínicas, vi que somos pobres de clínicas involuntárias públicas, já que um tratamento decente custa muito caro e um dependente químico necessita de vários profissionais os orientando para o sucesso do tratamento.

Corri alguns riscos até, já me enfiei em cada lugar que somente Deus para me amparar, até dentro da favela Paraisópolis eu já fui para resgatar um conhecido que estava há dois dias enfurnado cheirando cocaína.

O que vi na ação da Prefeitura/SP esses últimos dias com a Cracolândia, me desesperou mais uma vez em relação como as pessoas conduzem o combate às drogas, a falta de informação.

Viciado é doente, estamos falando em saúde primeiramente e não crime.

A Cracolândia era concentrada em um único lugar, dando uma certa ‘segurança’ à população em não transitar pelo local. Hoje, a Cracolândia se espalhou, pode começar numa pequena feira na esquina da sua casa, da minha, até para dispersar os policiais tratando-se dos traficantes, pois os viciados não vão largar a droga porque perderam o seu posto.

O que faltou foi planejamento com especialistas da área antes do ato. Ajudar um dependente químico não é entupi-lo de remédio, isso troca apenas uma droga pela outra.

Não é fazer uma varredura no local com policiais os deixando mais perdidos para prender os traficantes. Não é dar alternativa aos viciados de crack se eles querem se internar, é o mesmo que bater um ‘papo cabeça’ com um dos integrantes do “The Walking Dead”, eles não têm discernimento para opinar nada e já estão em uma situação à beira da morte.

A opinião de psiquiatras, psicoterapeutas, nutricionistas, peritos em clínicas especializadas, seria uma solução para combater a Cracolândia e um trabalho totalmente involuntário.

Quer combater o tráfico? Ajude primeiramente os usuários, sem este não temos como vender drogas.

Sem usuário, sem tráfico!

Busquem informações sobre as drogas, são pessoas como nós, necessitam de amor, compreensão, não são vermes, não são ‘bandidos’, apenas abalados psiquicamente por motivos particulares que os levaram a esse vício. E cada caso é um caso, o tratamento é pessoal em relação ao estado clínico de cada paciente.

*Fernanda Alves, jornalista, fundadora do projeto ‘S.O.S. dependentes químicos’

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