‘Os amigos sumiram’, diz Meire Poza, contadora do doleiro da Lava Jato

‘Os amigos sumiram’, diz Meire Poza, contadora do doleiro da Lava Jato

Testemunha da força-tarefa que desmontou esquema de corrupção e lavagem de dinheiro desviado da Petrobrás vai lançar livro em parceria com advogado Carlos Alberto Perreira da Costa para revelar bastidores da grande investigação

Fausto Macedo, Julia Affonso, Andreza Matais e Ricardo Brandt

11 Outubro 2015 | 06h00

Meire Poza. Foto: Ana Julia Salim

Meire Poza. Foto: Ana Julia Salim

Os amigos sumiram, os negócios minguaram, oportunidades no mercado inexistem, portas fechadas aqui e ali, vida destruída. Esta é a história que Meire Poza e Carlos Alberto Pereira da Costa, protagonistas da Operação Lava Jato, vão contar em um livro a quatro mãos que deverá ser lançado até dezembro. Anotações, rabiscos, impressões, correspondências, tudo Meire foi arquivando em uma pasta.

Agora, avalia, chegou a hora de dar publicidade a informações que preservou ao longo desse período.
O título ainda está em aberto. Uma ideia é ‘Os bastidores da Lava Jato’. Outra, ‘O crime compensa’. Mas o que seduz Meire Poza é ‘Lava Jato por amor’ – porque o texto irá revelar que ela ‘entrou nisso tudo por amor’.

Enigmática, ainda não dá pistas do homem que roubou seu coração. “Não é o Beto”, diz, em referência a Alberto Youssef, o doleiro que fez delação premiada e para quem ela trabalhou como contadora. “Não é o juiz também’, emenda, com um sorriso maroto, em alusão a Sérgio Moro, o magistrado mão-de-ferro que jogou pelos ares o sólido esquema de corrupção e propinas que se instalou na Petrobrás entre 2004 e 2014. “Vocês sõ irão saber quem é esse amor nas páginas do livro.”

Meire e Costa não fizeram delação, mas seus relatos foram importantes e abriram flancos para a força-tarefa da Lava Jato avançar. Ela é testemunha, ele ficou preso seis meses na PF em Curitiba, base da Lava Jato, entre março e setembro de 2014. O juiz Moro condenou Costa a 2 anos e 8 meses de prisão. A pena foi substituída por restrição de direitos.

Um ano e meio depois do estouro da grande operação, Meire e Costa se dizem isolados. “Não me considero bandida”, diz a contadora. Ela e Carlos Alberto Costa atuavam na GFD Investimentos, uma das empresas de Youssef, em São Paulo, usada para lavar dinheiro ilícito e encaminhar propinas a políticos, segundo os investigadores.

Um livro bombástico?, revelador? “Não diria isso, não é esse o objetivo, até porque tudo, ou quase tudo do caso, já é de domínio público, os veículos de comunicação divulgaram os documentos, inclusive o teor das delações premiadas. Nomes vou citar, claro. preciso apenas estudar com o jurídico da editora. Algumas coisas vou filtrar”, dizia Meire Poza na manhã ensolarada de quinta, 8, em seu escritório na Avenida Santo Amaro, endereço da Arbor Contábil. “Cansei, estou cansada de ficar dando explicações.”

O primeiro capítulo, ela adianta, é o que chama de ‘Dia D’. Era 17 de março de 2014, quando a Polícia Federal e o Ministério Público Federal saíram às ruas para executar as primeiras prisões do grande escândalo de malfeitos que revelou o envolvimento de cerca de cinquenta políticos, entre deputados e senadores. Um dos alvos desta manhã é o doleiro, localizado no Maranhão – três dias depois foi a vez do ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera, Paulo Roberto Costa, que também faria delação.

No ‘Dia D’,Meire se desloca de carro para mais um dia de rotina na GFD, situada no Itaim Bibi. Ela pressente algo estranho – àquela altura, os homens da PF já estavam em ação. “8h49. Minha intuição me diz que não está tudo bem. Alguma coisa dentro de mim diz que a merda é grande. Vou juntar as coisas da GFD…documentos, papeis…vou desconectar a CPU do meu computador.”

“Nove horas. O Marcelo volta, pálido, suando. ‘Meire, Polícia Federal. Cheio de Polícia lá. Nem me deixaram subir. Susto. Medo. Pavor. Tô indo embora. Não sei por onde eu começo.”

Recua quatro anos no tempo. “Agosto de 2011. Fui procurada peloxxxx. Esse cara é bom, hein? Foi candidato pelo PT há alguns anos. Veio me dizer que o deputado está com dívidas de campanha e precisa acertar isso (…) Ele sabe que é paga uma comissão na colocação de fundos. Propõe apresentar para que façam uma operação e que parte do comissionamento seja repassada para o deputado, de forma que ele possa quitar as dívidas de campanha. E, finalmente, saiu a negociação com o Instituto. O primeiro negócio. A comissão era de 10%. Parte desse comissionamento foi repassada para o Deputado.”

Em outro trecho, o livro de Meire e Carlos Alberto dirá. “A única coisa que me incomodou foi o fato de que acertaram com o Beto para que fosse levar o dinheiro em Brasília.”

Um trecho do livro Meire Poza vai dedicar à atividade que desempenha. Criou a Arbor Contábil, em 2009. Viveu um período de prosperidade, clientela de peso, sim, sociedades empresárias que lhe confiavam balancetes e garantiam boa renda para o escritório. Era um tempo em que reunia uma carteira com mais de dois mil clientes. A maldição da Lava Jato a deixou praticamente no chão. “Não tenho clientes, estou vivendo de dinheiro emprestado. Muito magoada”, desabafa Meire Poza.

VEJA TRECHOS DO LIVRO DE MEIRE POZA E CARLOS ALBERTO PEREIRA DA COSTA