Operador do Rio Grande do Sul pagou R$ 1 milhão para ‘Angorá’

Operador do Rio Grande do Sul pagou R$ 1 milhão para ‘Angorá’

Cruzamento de informações da delação de Cláudio Melo Filho com documentos apreendidos pela PF sugerem relação de pagamento para "Angorá" com ministro da Casa Civil Eliseu Padilha, que é do Rio Grande do Sul e tem escritório em Porto Alegre

Fabio Serapião, Fausto Macedo, Beatriz Bulla

15 Dezembro 2016 | 10h29

Eliseu Padilha. Foto: Brazil Photo Press

Eliseu Padilha. Foto: Brazil Photo Press

Uma planilha apreendida pela Polícia Federal na 23ª fase da Lava Jato revela pagamento de R$ 1 milhão para o codinome ‘Angorá’ na época em que o delator Cláudio Melo Filho relata ter repassado valores para o ministro da Casa Civil Eliseu Padilha. Parte da contabilidade da secretária Maria Lúcia Tavares, do departamento de propina da Odebrecht, o documento atrela ao operador Antônio Cláudio Albernaz Cordeiro, codinome Tonico, a entrega dos valores realizada no dia 18 de agosto de 2014, em Porto Alegre.

Embora ‘Angorá’ seja o codinome do peemedebista Moreira Franco, o ex-diretor da Odebrecht afirma que liberou nas mesma época o pagamento de R$ 4 milhões para Padilha armazenados no Setor de Operações Estruturadas da empreiteira sob o codinome ‘Angorá’. O ministro Eliseu Padilha é do Rio Grande do Sul e tem escritório de advocacia na capital Porto Alegre.

“No caso em concreto o codinome utilizado pelo setor de operações estruturadas para definir Eliseu Padilha nesta operação financeira foi “Angorá”. A título de informação, que reforça a relação de representação entre Eliseu Padilha e Moreira Franco, este último tem o apelido de Gato Angorá”, diz o delator na página 53 do anexo sobre o pagamento dos R$ 4 milhões para Padilha.

No anexo de sua proposta de delação premiada, Cláudio Filho relata ainda que na época do pagamento a ‘Angorá’ via o operador Albernaz Cordeiro, a Odebrehct teria efetuado o repasse de outra parte do valor acordado, dessa vez, por meio da entrega no escritório do atual assessor especial de Michel Temer, o advogado José Yunes.

“Durante a coleta de dados de corroboração, apurei que um dos pagamentos, que havia solicitado José filho fazer, ocorreu entre 10 de agosto e o final de setembro de 2014 na Rua Capitão Francisco, 90, Jardim Europa, sede do escritório de Advocacia José Yunes e Associados. José Yunes hoje é assessor especial da presidência da República”, detalha o delator.

Segundo a Polícia Federal, o operador utilizado pela Odebrecht Antonio Albernaz Cordeiro já foi foi investigado por crime de evasão de divisas, constando como o responsável por offshore constituída no Panamá.  Sobre Albernaz e a conta Tonico, Maria Lùcia Tavares, a secretária dodepartamento da propina da Odebrecht, disse que o prestador é de Porto Alegre (RS) e era utilizado com menor frequência.

Secretária do Setor de Operação Estruturadas, Maria Lúcia Tavares era quem organizava os pagamentos em espécie no Brasil. Imprimia semanalmente do sistema MywebDay a planilha das requisições dos diretores feitas por Ubiraci Santos. Somava os valores a serem entregues em cada Estado e comunicava seu superior Fernando Migliaccio, via sistema de intranet Drousys, de comunicação segura, e também os “prestadores de serviços”.

Delação:A proposta de delação de Cláudio Filho foi entregue à Procuradoria-Geral da República, o acordo entre as partes foi assinado e agora o executivo irá prestar os depoimentos e entregar as provas que serão encaminhadas para homologação do ministro Teori Zavascki. Somente após a homologação a ser decidida pelo ministro o conteúdo da delação poderá ser utilizado para dar origem a uma investigação ou solicitação de medidas cautelares, como busca e apreensão e pedido de prisão preventiva.

Veja quem são os prestadores ser serviços do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht:

Alváro José Galliez Novis – contas Paulistinha e Carioquinha
Anotações da secretária Maria Lúcia, a conta “Carioquinha” é gerida pela Hoya Corretora de Valores. O contato era feito diretamente com Álvaro Novis, diretor da corretora. Ele é sobrinho de Álvaro Pereira Novis, ex-dirigente da Odebrecht

Antonio Cláudio Albernaz Cordeiro – conta “Tonico”
Foi mencionado em julgamento de crime de evasão de divisas, constando como o responsável por offshore constituída no Panamá. Era, segundo Maria Lúcia, fornecedor de dinheiro em Porto Alegre (RS)

Mônaco Câmbio e Turismo – conta “Madeira”
Anotação no caderno da secretária Maria Lúcia vincula os nomes “Madeira”, “Carlos” e “Leite”, bem como nome da Mônaco Câmbio e Turismo, localizada em Recife (PE)

Rodrigo Tacla Duran
Advogado responsável por operar empresas de fachada que vendiam notas fiscais no Brasil e operador de uma das camadas de offshore utilizadas pela Odebrecht no exterior. Era o elo entre os operadores da Odebrecht e os doleiros e prestadores do Brasil

Wu Yu Sheng – Operação Dragão
Segundo delator Vinicius Borin, do banco da propina da Odebrecht, Wu Yu era um operador ligado a Rodrigo Tacla Duran. Quando a empresa precisava de dinheiro em espécie no Brasil, Tacla Duran repassava valores para as contas de Wu Yu que, por sua vez, providenciava as quantias no Brasil. Ligado aos comerciantes da Rua 25 de Março, em São Paulo

Adir Assad e Samir Assad – Operação Kibe e Esfirra
Prestadores de serviço responsável por vender notas frias para “fazer dinheiro” em espécie no Brasil. Estão relacionados as operações Kibe e Esfirra, segundo o delator Vinicius Borin. Suas empresas movimentaram cerca de R$ 1,4 bilhão para várias empreiteiras alvos da Lava Jato.

Juca – Vinicius
Brasileiro residente em Montevidéu, no Uruguai, e que recebia repasses de Rodrigo Tacla Duran com o objetivo de “fazer dinheiro” no Brasil. Segundo Vinicius Borin, utilizava as contas Meriwther Trading, Westside Consulting e Chama Leon.

COM A PALAVRA, MOREIRA FRANCO

O secretário-executivo de Parcerias Públicos Privadas, Moreira Franco, afirmou que é mentira a delação de Claudio Melo Filho.

“É mentira. Reitero que jamais falei de política ou de recursos para o PMDB com o senhor Claudio Melo Filho.”

COM A PALAVRA, MICHEL TEMER

O presidente Michel Temer divulgou uma nota à imprensa há pouco para rechaçar as supostas informações da delação do ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, que teria afirmado que Temer pediu R$ 10 milhões ao empreiteiro Marcelo Odebrecht em 2014.

“O presidente Michel Temer repudia com veemência as falsas acusações do senhor Cláudio Melo Filho”, diz a nota. “As doações feitas pela Construtora Odebrecht ao PMDB foram todas por transferência bancária e declaradas ao TSE. Não houve caixa 2, nem entrega em dinheiro a pedido do presidente” completa.

COM A PALAVRA, ELISEU PADILHA

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, também divulgou uma nota negando as afirmações do executivo. “Não fui candidato em 2014! Nunca tratei de arrecadação para deputados ou para quem quer que seja. A acusação é uma mentira! Tenho certeza que no final isto restará comprovado”, limitou-se a explicar Padilha.