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Operador do PMDB diz que começou negócios na Petrobrás no governo FHC

Fernando Baiano disse à PF que em 2000 firmou contrato com estatal para manutenção de termelétricas

Redação

21 Novembro 2014 | 18h29

Por Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

Fernando Baiano faz exame de corpo de delito em Curitiba

O empresário Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema de propinas e corrupção na Petrobrás, afirmou à Polícia Federal nesta sexta feira, 21, que começou a fazer negócios com a Petrobrás ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, em 2000. “Por volta do ano de 2000, ainda durante a gestão Fernando Henrique celebrou um contrato com uma empresa espanhola, de nome Union Fenosa, visando a gestão de manutenção de termelétricas”, afirmou. Segundo ele a empresa acabou sendo contratada.

A PF suspeita que o reduto de ação de Fernando Baiano na Petrobrás era a Área Internacional, que foi comandada por Nestor Cerveró, personagem emblemático da compra da Refinaria de Pasadena, nos EUA. Fernando Baiano disse que conheceu Cerveró “ainda no governo Fernando Henrique”. Na ocasião, segundo ele, Cerveró era gerente da Petrobrás.

Ele disse que “soube recentemente” que Cerveró foi “indicação política” do PMDB, mas que achava que o ex-diretor de Internacional “sempre fosse vinculado ao PT”. Fernando Baiano disse que “soube que o diretor que assumiu o cargo no lugar de Cerveró era indicação do PMDB”.

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‘Doações’. Baiano também falou sobre o doleiro Alberto Youssef – alvo central da Operação Lava Jato – e disse que ele lhe pediu que “fizesse doações para campanhas políticas”. O doleiro, segundo Fernando Baiano, teria sugerido que “alguma empresa” por ele representada também fizesse doações. O suposto operador do PMDB negou que tivesse repassado valores para Youssef.

Ele negou também que tenha sido operador de “qualquer partido político”. Admitiu que mantém duas contas no paraíso fiscal de Linchenstein, uma em seu nome e outra em nome de sua empresa, Tecnhis Engenharia e Consultoria, ambas as contas “declaradas”.

Fernando Baiano teve prisão decretada pela Justiça Federal no dia 10. Apresentou-se esta semana. Ele declarou que recebeu Youssef no Rio “a pedido” do então diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa. O encontro, segundo Fernando Baiano, ocorreu “logo após a morte do deputado José Janene”.

Líder do PP na Câmara, Janene foi réu do mensalão e morreu em 2010. A PF atribui a Janene o papel de mentor do esquema da Lava Jato, em parceria com Youssef.

Ele disse que o empresário Júlio Camargo, ligado à Toyo Setal Empreendimentos, lhe deve US$ 20 milhões por negócios relacionados a sondas de perfuração. Camargo é um dos delatores da Lava Jato. Ele revelou o esquema de propinas envolvendo o cartel de empreiteiras na Petrobrás.

Segundo Fernando Baiano, Júlio Camargo só pagou R$ 3 milhões e o “enrolou”.

Lancha. Fernando Baiano disse à PF que comprou uma lancha por R$ 1,5 milhão de Otávio Marques Azevedo, que foi presidente da Andrade Gutierrez e “pelo que sabe é hoje membro do conselho da empresa”.

A embarcação, segundo o suposto operador do PMDB, está em nome de uma de suas empresas a Hawk Eye e que o pagamento foi feito de forma parcelada em cheques e transferências bancárias.

Espontaneamente, Fernando Baiano afirmou que as viagens internacionais que fez após a deflagração da Lava Jato foram feitas para negócios.

E disse ainda que “coincidentemente” no dia da operação pegou o mesmo voo do Rio a São Paulo em que estava o atual diretor de Abastecimento José Carlos Cosenza, sucessor de Paulo Roberto Costa, mas que “não chegaram a conversar”.

Questionado pela PF se ele conhecia Cosenza, respondeu. “Sim no período em que ele era gerente subordinado a (Paulo Roberto) Costa para apresentação de um projeto de geração de energia através da queima do gás que não é aproveitado no refino do petróleo.

Declarou que “teve reuniões com ele (Cosenza), mas que depois que virou diretor nunca mais teria se encontrado com Cosenza”.

A reportagem tentou contato com a assessoria de Fernando Henrique Cardoso e com o Instituto Fernando Henrique Cardoso, mas ninguém atendeu.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

“A Andrade Gutierrez informa que não enfrenta ou enfrentou qualquer tipo de dificuldade nos contratos firmados com a Petrobrás. E que mantém o cumprimento dos mesmos nos prazos e níveis de qualidade exigidos pela contratante. A empresa informa ainda que o executivo Otávio Marques de Azevedo ocupa o cargo de presidente do Grupo Andrade Gutierrez e acumula a presidência da AG Telecom, sua origem no Grupo. Nunca tendo exercido nenhuma função na Construtora Andrade Gutierrez. Em relação ao tema da lancha, cabe esclarecer que a mesma, que já estava posta à venda, teve como interessado o Sr. Fernando Soares. A transação comercial bem como os devidos pagamentos foram concluídos, sendo toda a operação registrada nos órgãos competentes e os valores devidamente declarados à Receita Federal.

Cabe esclarecer ainda que o Sr. Fernando Soares procurou algumas vezes a Andrade Gutierrez para apresentar propostas de associação com grupos estrangeiros que representava no Brasil. No entanto, nenhum tipo de consórcio nesse sentido foi efetivado.”

 

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