Operador de propinas na Diretoria de Serviços começa a falar o que sabe

Operador de propinas na Diretoria de Serviços começa a falar o que sabe

Shinko Nakandakari, sob suspeita de carregar malas de dinheiro em área controlada pelo PT na Petrobrás, iniciou depoimentos para força-tarefa da Lava Jato em sua delação premiada

Redação

21 Fevereiro 2015 | 05h00

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

O engenheiro Shinko Nakandakari, apontado como operador de propinas na Diretoria de Serviços da Petrobrás, deu início à sua delação premiada. Ele foi ouvido nesta sexta feira, 20, pela primeira vez na sede da força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba (PR). Nos próximos dias será convocado para outras audiências.

O conteúdo das declarações de Shinko – como é conhecido – é mantido sob sigilo. Os investigadores trabalham com a certeza de que o colaborador indicará nomes e fatos ainda ocultos da rotina da Diretoria de Serviços, unidade estratégica da estatal petrolífera que era controlada pelo PT via Renato Duque.

Essa diretoria teria repassado até US$ 200 milhões em propinas para o tesoureiro do PT, João Vaccari, que nega a prática de ilícitos.

Até aqui, apenas o ex-gerente Pedro Barusco fez delação premiada na Diretoria de Serviços. Seu relato atingiu a alma do esquema de propinas e corrupção na estatal – que começou a ser desbaratado em março de 2014. Barusco, ex-gerente de Engenharia da estatal, era braço direito de Duque – indicado diretor de Serviços pelo ex-ministro José Dirceu.

A Polícia Federal imputa a Shinko o papel de “carregador de malas de dinheiro na Petrobrás”.  Ele seria um dos 11 operadores de propinas no âmbito da Diretoria de Serviços, alvos do mais recente desdobramento da Lava Jato, a Operação My Way, desencadeada no início de fevereiro.

Pedro Barusco afirmou que “Shinko entregava pessoalmente o dinheiro em euros, reais ou dólares, sempre na quantia correspondente a aproximadamente R$ 100 mil, normalmente nos hotéis Everest, Sofitel e Ceasar Park, onde ‘tomavam um drink ou jantavam'”.

Ficha de qualificação de ex-diretor de Serviços Renato Duque feita pela PF - Foto: Reprodução

Ficha de qualificação de ex-diretor de Serviços Renato Duque feita pela PF – Foto: Reprodução

 

Shinko Nakandakari é considerado importante testemunha para esclarecer as relações de Duque com o esquema de propina na Petrobrás.

Além de ter sido apontado como operador de propina em nome da empreiteira Galvão Engenharia – uma das 16 empreiteiras do cartel –, Shinko trabalhou por 16 anos na construtora Norberto Odebrecht. Segundo informou a empresa, o novo delator da Lava Jato foi gerente no período de 1976 a 1992.

“Shinko operacionalizava o pagamento de propinas por conta de contratos firmados entre a Galvão Engenharia, representada por Erton Fonseca, e a EIT Engenharia”, afirmou Barusco. O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás era próximo de Shinko.

O nome do primeiro dos operadores da Diretoria de Serviços a fazer delação premiada já havia sido apontado pelo executivo da Galvão Engenharia.

Erton Medeiros de Fonseca, da Galvão Engenharia, alegou ter sido ameaçado por Shinko a pagar R$ 8,3 milhões em propinas a um ‘emissário’ da Diretoria de Serviços da Petrobrás – no caso, o próprio Shinko

“O sr. Shinko não era e nunca foi emissário (da Diretoria de Serviços)”, declarou o advogado Rogério Taffarello, em novembro de 2014, quando o executivo Erton Medeiros protocolou petição na Polícia Federal alegando que foi vítima de extorsão.

Shinko confirmou, na época, ter sido consultor da empreiteira Galvão Engenharia, segundo informou seu advogado. Mas negaou ter extorquido a Galvão.

“Ele (Shinko) foi procurado pela Galvão Engenharia com a finalidade de fazer consultoria para buscar o reequilíbrio financeiro de contratos (com a estatal). Jamais atuou como pessoa interposta da Petrobrás ou qualquer outra empresa ou órgão público, em qualquer situação”, declarou o defensor, em novembro de 2014.