Operador de propina informa à Justiça que mora na Suíça

O doleiro Bernardo Freiburghaus, acusado de ter aberto conta no exterior para pagamentos a Paulo Roberto Costa em nome da Odebrecht, diz que demonstrará 'oportunamente que nenhuma ilegalidade praticou'

Redação

25 Fevereiro 2015 | 11h54

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

A defesa do doleiro Bernardo Freiburghaus, suspeito de ter aberto e operado contas no exterior para o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa – entre elas a que serviu para recebimento de US$ 23 milhões da construtora Norberto Odebrecht – informou à Polícia Federal que está na Suíça.

Freiburghaus foi um dos alvos da nova fase da Lava Jato, batizada de Operação My Way. Deflagrada no dia 5, o doleiro foi um dos investigados que teve mandado de condução coercitiva decretado pela Justiça Federal. A Polícia Federal esteve nos endereços indicados nos mandatos, mas não encontrou o doleiro nem sua empresa.

O doleiro é dono da empresa Diagonal Investimentos, com sede do Rio. Na petição entregue à Polícia Federal no dia 13 e anexada aos autos da Lava Jato ontem, 24, a defesa do doleiro disse que ele mora atualmente em Genebra, na Suíça, e demonstrará “oportunamente que nenhuma ilegalidade praticou”.

Na petição, a defesa do doleiro apontou ainda o novo endereço da Diagonal no Rio. “Embora esteja funcionando de forma precária, tendo em vista a expressiva diminuição de seus clientes, a empresa está regulamente constituída no endereço acima declinado”, afirma a advogada do doleiro Fernanda Silva Telles.

PAULO ROBERTO COSTA/CPMI

Paulo Roberto Costa. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Segundo a criminalista, em 13 de fevereiro, “após tomar conhecimento de que foi procurado para prestar esclarecimentos sobre os fatos” investigados, Freiburghaus “protocolizou, via internet, petição informando que é cidadão suíço” e incidou seu atual endereço, em Genebra, “onde poderá ser notificado”.

O ex-diretor de Abastecimento afirmou em sua delação premiada em setembro do ano passado que a empreiteira Odebrecht, que está na mira das novas etapas da força-tarefa da Lava Jato, fez depósitos de propinas “a cada dois ou três meses” em suas contas no exterior entre 2008 e 2013.

Os pagamentos seriam fruto de uma “política de bom relacionamento” da empresa com o ex-diretor. Costa foi um dos homens fortes dos quadros da Petrobrás até 2012, quando se aposentou. Depois disso, montou a Costa Global, empresa que usava para consultorias e recebimentos das propinas pendentes. Os repasses totalizaram ao menos US$ 31,5 milhões até 2012, segundo o delator.

Costa afirma que os pagamentos em suas contas na Suíça não tinham relação com as propinas repassadas a partidos políticos. Segundo descobriu a Lava Jato, PT, PMDB e PP cobravam de 1% a 3% do total dos contratos de empreiteiras, por meio de diretores indicados politicamente aos cargos.

Executivo. O ex-diretor de Abastecimento afirma que no os valores pagos via Freiburghaus começaram a ser realizados por sugestão do diretor da Odebrecht Plantas Industriais Rogério Araújo. O executivo teria indicado o doleiro suíço que tinha base no Rio para operar esse contato com o banco na Europa.

Costa afirmou ter ouvido de Araújo, em uma reunião que teve com ele, a seguinte frase: “Paulo, você é muito tolo, você ajuda mais os outros do que a si mesmo. E em relação aos políticos que você ajuda, a hora que você precisar de algum deles eles vão te virar as costas.”

No depoimento, o ex-diretor da estatal detalha como era a operação das contas, que ficavam a cargo de Freiburghaus, com quem Costa diz que se encontrava a cada dois meses para conferir os extratos. As reuniões aconteceram na sede da Diagonal, no Rio, ou mesmo na Costa Global, dua empresa de consultoria.

Segundo o delator, após os encontros, os extratos eram destruídos e o ex-diretor não ficava com nenhum documento. Costa relatou ainda que o operador cobrava um valor fixo pelos serviços de operador e rotineiramente alterava as contas para apagar rastros identificáveis por autoridades.

Freiburghaus considerava importante, “de tempos em tempos, haver alguma mudança” nas contas, afirmou o ex-diretor de Abastecimento.

Apesar de não entrar para a cota do partido – Costa era o indicado do PP no esquema -, a propina paga pela Odebrecht via Freiburghaus eram relativos aos contratos que a construtora obteve nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Costa disse que apenas Araújo, o operador e seus familiares sabiam das contas no exterior. Ele sequer mantinha as senhas das contas, que ficavam com Freiburghaus. O dinheiro, segundo afirmou o delator, era mantido no exterior como uma reserva “para uso futuro, quando viesse a precisar”.

O montante faz parte do dinheiro que o ex-diretor devolveu dentro do acordo de delação premiada que fez com a força-tarefa da Lava Jato, em troca de redução de pena.

Odebrecht. A Construtora Norberto Odebrecht tem negado pagamento de propina a Costa e relações ilícitas com Freiburghaus. A empreiteira negou publicamente as acusações de Costa e garantiu que não fez pagamentos ou depósitos para o ex-diretor e “nem para qualquer outro executivo ou ex-diretor da estatal”.