Odebrecht pagou US$ 31,5 milhões em propinas por ‘bom relacionamento’, diz Costa

Ex-diretor da Petrobrás detalha pagamentos e relata ter ouvido de executivo de empreiteira que políticos poderiam virar as costas para ele

Redação

12 Fevereiro 2015 | 15h55

Por Mateus Coutinho, Ricardo Brandt e Julia Affonso

Atualizado às 23h00

O ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou em sua delação premiada ao Ministério Público Federal no ano passado que a empreiteira Odebrecht, que está na mira da força-tarefa da Lava Jato, fez depósitos de propinas “a cada dois ou três meses” em suas contas no exterior entre 2008 e 2013 a título de “política de bom relacionamento” da empresa com ele. Os repasses totalizaram ao menos US$ 31,5 milhões até 2012.

Segundo Costa, os pagamentos em suas contas na Suíça não tinham relação com as propinas repassadas a partidos políticos e começaram a ser realizados por sugestão do próprio diretor da Odebrecht Plantas Industriais Rogério Araújo, que por volta de 2008 ou 2009 lhe disse: “Paulo, você é muito tolo,você ajuda mais os outros que a si mesmo. E em relação aos políticos que você ajuda, a hora que você precisar de algum deles eles vão te virar as costas”, relatou Costa na delação. O executivo da Odebrecht teria indicado, então, o operador Bernardo Freiburghaus, dono da empresa Diagonal Investimentos e que foi intimado a prestar depoimentos na nona fase da Lava Jato, mas ainda não foi encontrado pela Justiça. Freiburghaus era o responsável por abrir e operar as contas do ex-diretor de Abastecimento no exterior. A suspeita das autoridades é de que atualmente ele esteja na Suíça.

PAULO ROBERTO COSTA/CPMI

Em sua delação, Costa admitiu que possuía cerca de US$ 26 milhões em contas na Suíça vindos da Odebrecht, valor que o Ministério Público Federal está negociando a repatriação com as autoridades suíças. No depoimento, o ex-diretor da estatal detalha como era a operação das contas, que ficavam a cargo de Freiburghaus, com quem Paulo Roberto se encontrava a cada dois meses para conferir os extratos na sede da Diagonal, ou mesmo na Costa Global, empresa de consultoria aberta por Costa.

Após o encontro, os extratos eram destruídos e o ex-diretor não ficava com nenhum documento, apesar disso, ele confirmou que anotou em sua agenda apreendida pela PF que, em outubro de 2012, possuía US$ 31,5 milhões em quatro contas de offshores mantidas em diferentes bancos no exterior.

O ex-diretor relatou ainda que o operador cobrava um valor fixo para operar as contas e que Freiburghaus considerava importante, “de tempos em tempos, haver alguma mudança” nas contas mantidas no exterior, isto é, movimentar os recursos entre as contas para não deixar rastros para as autoridades. Nesse sentido, o operador transferiu recursos mantidos nas contas de Costa no HSBC (no Julius Bank Suíça) e no Deuscthe Bank para as contas na Suíça das quais as autoridades brasileiras conseguiram repatriar. Costa relata ainda que, após as transferências, ele foi pessoalmente nas agências das quatro contas abertas na Suíça conferir os valores.

Costa admite que pode ter recebido quantias nestas contas também em 2014, mesmo após deixar a Petrobrás, “como forma de acertar valores de contratos firmado à época em que o declarante era diretor de Abastecimento”. Segundo o ex-diretor, os valores repassados pela empreiteira eram relativos aos contratos da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Ainda de acordo com Costa, apenas o diretor da Odebrecht Rogério Araújo, o operador e seus familiares sabiam das contas no exterior. Costa  sequer mantinha as senhas das contas, que ficavam com Freiburghaus, e que , segundo o delator, eram mantidas no exterior “para uso futuro, quando viesse a precisar” .

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT:

A empreiteira nega as acusações de Costa e vem reiterando que não fez pagamentos ou depósitos para Costa e nem para qualquer outro executivo ou ex-diretor da estatal. Veja a íntegra da nota abaixo:

“A Odebrecht nega as alegações caluniosas feitas pelo ex-diretor da Petrobras e por doleiro igualmente réu confesso em investigação em curso na Justiça Federal do Estado do Paraná. A Odebrecht nega em especial ter feito qualquer pagamento ou depósito em suposta conta de qualquer político, executivo ou ex-executivo da estatal.”