“O que eu queria não é R$ 50 mil nem R$ 1 milhão, eu queria meu filho’, diz mãe de rapaz morto por policiais

“O que eu queria não é R$ 50 mil nem R$ 1 milhão, eu queria meu filho’, diz mãe de rapaz morto por policiais

Vera Hilda dos Reis Santos diz que 'nunca passou pela cabeça' receber indenização pelo assassinato do filho Ricardo, em 2009, executado com 15 tiros em São Paulo

Thales Schmidt, especial para o Blog

03 Outubro 2015 | 12h00

Foto: JB Neto/Estadão

Foto: JB Neto/Estadão

Na manhã de 14 de outubro de 2009, Ricardo dos Reis Santos, de 25 anos, foi assassinado com 15 tiros na Avenida Carlos Liviero, São Paulo, em um suposto flagrante de tentativa de roubo. Os policiais militares responsáveis pelos disparos foram absolvidos após alegarem legítima defesa. Agora, quase 6 anos após a morte, o Estado de São Paulo foi condenado a indenizar Vera Hilda dos Reis Santos pela morte de seu filho.

“Nunca passou pela minha cabeça essa história de indenização. Foi a Defensoria Pública que me procurou”, afirma Vera. Na sentença do caso, a juíza Lais Helena Bresser Lang, da 2.ª Vara da Fazenda Pública, afirmou que houve “violência exarcebada” e descaso em prestar informações sobre o ocorrido. “O que eu queria não é 50 mil, nem 100 mil ou 1 milhão. Eu queria meu filho aqui comigo”, aponta Vera sobre a indenização estipulada em R$ 50 mil pela Justiça.

Os policiais atiraram 22 vezes, Ricardo foi atingido por 15 balas. No processo criminal aberto após o homícidio, os PMs envolvidos no caso afirmaram que estavam se defendendo de disparos efetuados por Ricardo quando entraram no estabelecimento onde ocorria o suposto roubo. O exame residuográfico mostrou que Ricardo não tinha resquícios de pólvora na mão. Os policiais foram absolvidos.

O desfecho não surpreende a defensora pública Daniela Skromov. Para ela, ‘se dá pouca importância às perícias’. Integrante do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública, Daniela Skromov aponta semelhanças entre o ocorrido na Avenida Carlos Liviero e o tiroteio na escadaria da Catedral da Sé no começo de setembro: “A prática habitual é matar, não imobilizar e prender. É isso que essa sequência de fatos prova. Pode até existir uma norma, a Constituição, o procedimento padrão da PM, mas a rua traz outro hábito à polícia”.

“Meu filho tinha 1,80 m, pesava 85 kilos, não precisava ir ao médico, só ia quando era menor de idade e eu o levava”, lembra Vera Hilda, mão de Ricardo.

Fã de rap, ele trabalhava como cobrador de lotação e entregador de pizza. Um dos seus passatempos preferidos era passear de bicicleta e jogar videogame com o sobrinho.

“Tudo mudou pra mim. Eu me sinto só, falo sozinha, tenho umas fotos do meu filho em casa e não saio sem me despedir dele. Não sei se isso é sinônimo de loucura, mas é assim que vivo” diz Vera. Ela conta que seu filho tinha uma passagem pela polícia por roubar um celular: “Os policiais que pegaram ele disseram dentro da viatura ‘200 reais e a gente te libera aqui’, ele não tinha e foi preso e condenado a 5 anos e 4 meses”.

“Ninguém está dizendo que o trabalho é fácil, mas em termos de política pública é necessário que os PMs sejam bem treinados”, avalia a defensa pública Daniela Skromov. Ela aponta semelhança entre o caso de Ricardo e o de Eric Garner, em Nova York: “Esse caso (de Ricardo) é um avanço, mas está aquém da indignação pública do Eric – imobilizado e sufocado pelo policial Daniel Pantaleo enquanto gritava ‘eu não posso respirar’, Pantaleo foi absolvido.