O pacto de sangue e a teoria da Dádiva

O pacto de sangue e a teoria da Dádiva

Renato Almeida dos Santos*

08 Setembro 2017 | 05h00

No dia 6 de setembro de 2017, em um novo episódio da Operação Lava Jato, o Brasil e o mundo assistiram a mais uma declaração citando atos de corrupção praticados por grandes empresários e pela alta cúpula do Governo. Desta vez, o que chamou a atenção foi a ênfase que Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, deu ao relatar que houve um ‘pacto de sangue’ entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a empreiteira Odebrecht, que consistia em presentes pessoais ao líder petista, como o sítio de Atibaia (SP), a doação do prédio de um museu dedicado a seu legado, palestras no valor de R$ 200 mil e uma reserva de R$ 300 milhões.

De forma apartidária e sem entrar no mérito da veracidade ou não das declarações, a proposta deste pequeno ensaio é compreender a correlação deste ‘pacto de sangue’ com a teoria da Dádiva.

Uma das formas usualmente aplicada na corrupção é a DÁDIVA, conceito teorizado pelo antropólogo Marcel Mauss (1925), o qual entende a dádiva como um sistema geral de obrigações coletivas, imbuído de um elemento de incerteza estrutural na regra tripartida do dar-receber-retribuir.


Para ele, a dádiva é algo inalienável, uma vez que representa o próprio doador. Logo, se esse não for devolvido, será humilhado e indigno, gerando assim uma dependência social.

A dádiva se manifesta em diversos lugares e a escolha e delimitação das formas de intercâmbio social são preeminentes diante dos limites desse estudo. Dar, receber e retribuir é fazer circular presentes, favores, serviços, gentilezas, palavras, discursos, objetos, entre outros.

Considerando que a dádiva tem como objetivo principal criar, consolidar e reproduzir os laços sociais entre os parceiros da troca de dádivas, privilegiando interesses instrumentais e utilitários como, por exemplo, o interesse da aliança, sendo, portanto, um ato político por excelência.

Como a “arte imita a vida”, convido você a relembrar ou assistir a primeira cena do primeiro capítulo do clássico do cinema ‘O Poderoso Chefão’, quando o personagem Amerigo Bonasera vai até o poderoso e temido Don Vito Corleone pedir que matasse os agressores de sua filha em troca de dinheiro.

Don Corleone se recusa, diz se sentir ofendido com a proposta e afirma que se pedisse como amigo, esses malfeitores já estariam mortos. O que Don Corleone queria de Bonasera? Dinheiro? Amizade? Não! Ele queria lealdade firmada em um ‘pacto de sangue’. Isso porque a lealdade gera uma obrigação tácita de retribuição.

Ou seja, mais relevante do que os R$ 300 milhões, o que esse ‘pacto de sangue’ implica é a dádiva envolvida, pois o real objeto não pode ser mensurado economicamente. Para alguns credos, o sangue é símbolo da parte emocional da alma humana, em outras palavras, o “pacto de sangue” representa a ‘compra da alma’!

*Sócio da S2 Consultoria, especializada em prevenir e tratar atos de fraude nas organizações. É PhD em Fraude e Assédio, idealizador do Pentágono da Fraude. Advogado com MBA em Gestão de Pessoas, Mestre e Doutor em Administração pela PUC-SP, professor, colunista da Endeavor, da B3 e autor do livro Compliance Mitigando Fraudes Corporativas, premiado pelo Instituto Ethos e CGU

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