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O Capoteiro e a Consciência Tranquila dos Inocentes

Por Alberto Bombig

08/03/2016, 07h28

   

Jorge Washington Blanco encarou a Lava Jato de peito aberto e de cabeça erguida, sem advogados ou assessores de imprensa

 

Capoteiro foi chamado por engano para depor na Lava Jato. Foto: Reprodução

Capoteiro foi chamado por engano para depor na Lava Jato. Foto: Reprodução

“Não vou deixar de ir lá, não, porque eu não tenho nada de errado. Tenho que ir lá ver o que é isso”, relatou Jorge Washington Blanco, o Capoteiro de Belo Horizonte, à repórter Julia Affonso sobre como ele reagiu a uma intimação para depor na Lava Jato. Para além do aspecto cômico, a trapalhada da temível força-tarefa da operação, que, na verdade, estava em busca de um homônimo, de um outro J. W. Blanco, serve para tirarmos algumas lições nestes tempos de debates quentes, bancas caríssimas de advogados e de assessores de imprensa.

O Capoteiro (tapeceiro automotivo para os paulistanos) parece ser um homem simples. Conforme a conversa dele com a repórter, trabalha como capoteiro desde menino e tem dois filhos. Já tinha ouvido falar da Lava Jato mas não conhecia o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba. Conta Blanco: “Eu achei que era brincadeira. Mas depois vi que era um negócio mais sério. Falei, não vou deixar de ir lá, não, porque eu não tenho nada de errado. Tenho que ir lá ver o que é isso”. E foi.

Na sexta-feira passada, dia 4, quando o País estremecia sob impacto da luta política desencadeada pela condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para prestar depoimento, em São Paulo, o Capoteiro encarava o juiz Moro e os procuradores federais da força-tarefa de peito aberto e cabeça erguida. A cena, registrada em vídeo é hilária, a ponto de ter obrigado o próprio Moro a dar risada.

Porém, há um aspecto que tende a passar despercebido, o que seria uma injustiça com o Capoteiro e os brasileiros honestos. Trata-se da firmeza com que o homem simples, humilde até, responde aos primeiros e únicos questionamentos (de praxe, diga-se) do magistrado:

“Na condição de testemunha, o senhor tem um compromisso com a Justiça em dizer a verdade e em responder as perguntas que lhe forem feitas, certo?”

“Certo.”

“Se o senhor faltar com a verdade, o senhor ficará sujeito a um processo, certo?”

“Certo”, responde novamente o Capoteiro.

Parece pouco? Pode até parecer. Mas quantas fábulas já não foram escritas sobre um cidadão ou uma cidadã inocente que se apresenta, na condição de mera testemunha, perante a força do aparato investigativo e repressivo de um Estado qualquer e de repente se vê arrastado para dentro de um pesadelo conspiratório? Muitas. E quantos não são as “pessoas de bem” que ainda sofrem com esse pesadelo? Muitas. E quantas vezes o mundo real já não transformou essa fábula e esses pesadelos em realidade? Muitas.

Portanto, não são poucos os cidadãos e cidadãs que, de maneira legítima e perfeitamente compreensível, teriam, uma vez no lugar o Capoteiro, corrido em busca de auxílio.

Mas não ele. O Capoteiro foi até a Justiça Federal de Belo Horizonte para ficar frente a frente com Moro, erguer a cabeça e deixar claro que não tinha feito nada de errado e que não sabia o motivo de estar ali. Sem advogados e sem assessores de imprensa, sem tese de defesa ou narrativa política. O vídeo deixa claro não ter se tratado de um desafio nem de um escárnio.

O Capoteiro foi até o juiz com uma arma infalível contra a temível Lava Jato. A consciência tranquila dos inocentes. Venceu.

 

 

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