Num futuro não muito distante, você só morrerá se quiser

As pesquisas indicam que logo seremos jovens e imortais

José Luis Cordeiro*

29 Setembro 2017 | 04h00

Nas próximas décadas, a inteligência artificial alcançará a inteligência humana. Isso significa que não haverá mais nada que uma máquina não fará tão bem – ou, em muitos casos, melhor – do que nós. Isto é, chegaremos à chamada singularidade tecnológica. A partir desse momento, os seres humanos conseguirão rejuvenescer e projetar a fisionomia dos seus filhos. Todos os homens serão capazes de se prevenir contra as doenças que possam ter por predisposição genética. Em 2045, aproximadamente, também teremos alcançado a imortalidade (biológica e cibernética). Por mais improvável que possa parecer, os resultados das pesquisas sobre longevidade e rejuvenescimento realizadas até hoje apontam na direção destas hipóteses.

Alguns dos indicadores que sustentam essa tendência estão no presente, como expliquei no primeiro Inniti Day em São Paulo. Por exemplo: você sabia que as células cancerígenas são imortais? Esta descoberta é de 1951, quando uma mulher americana morreu de câncer. Até aí, nada de novo. As células causadoras da doença, por sua vez, continuaram vivas. Cientistas, então, descobriram que as células cancerígenas, assim como as células-tronco e as germinativas (responsáveis pela reposição e regeneração celular e por originar os gametas, respectivamente), não envelhecem e são biologicamente imortais. O mesmo ocorre com alguns organismos, como hidras e medusas. Ou seja, a imortalidade biológica existe já naturalmente, sem a intervenção da ciência.

Os ratos, inclusive, passaram a servir de cobaia a experimentos contra o envelhecimento humano na última década. Alguns cientistas conseguiram aumentar a expectativa de vida dos roedores de dois para cinco anos. A Fundação Matusalém, criada pelo biogerontologista inglês Aubrey De Grey, é a responsável por incentivar estas pesquisas e distribuir prêmios aos que alcançam tais feitos. Em breve, acredito que conseguiremos aplicar a mesma técnica aos seres humanos.

Apesar de a medicina ter conhecimento sobre a imortalidade destas células desde o século passado, ainda não foi descoberta a cura para muitas doenças. Alguns projetos e empreendimentos visionários – fora da área da medicina convencional – tendem a mudar a situação. O Projeto Genoma Humano, criado em 1990 e finalizado em 2003, é um deles. Um de seus resultados foi o desenvolvimento de aparelhos tecnológicos capazes de identificar o sequenciamento do genoma humano e, assim, permitir que saibamos quais doenças somos propensos a ter no futuro. Essas ferramentas também possibilitam que seja feito um estudo dos nossos ancestrais mais longínquos e do genótipo de seus descendentes. O problema da aplicação dessa tecnologia era o seu alto custo. Na época de seu lançamento, uma pessoa precisaria desembolsar mais de US$ 1 bilhão e 13 anos de espera para obter tais informações. Hoje, o sequenciamento pode ser feito por US$ 800 e em apenas três dias. Com a maior frequência de sua aplicação, a previsão é de que, em 2025, aproximadamente US$ 10 e um minuto sejam suficientes para a realização do teste. Com essas mudanças exponenciais, o principal objetivo da medicina não será mais a cura, mas a prevenção.

Casos como esse ilustram como medicina tradicional e tecnologia estão inevitavelmente caminhando juntas. Um exemplo é a Calico, empresa subsidiária do Google, que atua na área de pesquisas para acabar com doenças, combater o envelhecimento e a morte. Por meio do sequenciamento dos genomas, a Microsoft também pretende encontrar as mutações do câncer e descobrir a sua cura em dez anos. Mark Zuckerberg, criador do Facebook, anunciou que ele e sua esposa doarão toda a sua fortuna para acabar com todas as enfermidades.

Estas empresas também estão trabalhando para aumentar e melhorar o cérebro humano. Esquisito? Mas é isso mesmo. Geralmente falamos que nossos cérebros são compostos por três regiões: o sistema reptiliano, que controla os nossos instintos; o sistema límbico, responsável pelo gerenciamento das emoções; e o neocórtex, pela inteligência. Tudo indica que, no futuro, companhias tecnológicas poderão criar uma área externa para complementar nossos cérebros biológicos: um novo exocórtex. Será um sistema artificial conectado aos nossos cérebros que aumentará nossas capacidades cognitivas naturais. No Google falam de ser essa a quarta região cerebral. Assim como Elon Musk, CEO das empresas americanas Tesla Motors e SpaceX, que recentemente fundou a companhia Neuralink, com o objetivo de conectar nosso cérebro à internet. Ou seja, estaríamos o tempo todo conectados pela nossa mente e receberíamos novas informações externas a cada segundo. A tendência é que, nas próximas duas ou três décadas, a ciência e a tecnologia consigam desvendar a complexidade dos seres humanos. Assim serão desenvolvidos os primeiros cérebros artificiais.

Da mesma forma que muitos não acreditam na possibilidade da imortalidade, nem biológica nem cibernética, a criopreservação também já foi questionada. A técnica, que consiste em conservar tecidos biológicos por meio do congelamento, começou há 50 anos e já foi utilizada milhões de vezes para diferentes tipos de células humanas. Foram criados grandes centros de criopreservação humana, como o Alcor, no Arizona, e o Cryonics Institute, no Michigan. Um amigo meu, falecido no ano passado, foi o primeiro espanhol a ser criopreservado na Península Ibérica. Embriões e óvulos humanos também podem ser congelados, e depois utilizados por meio da fertilização in vitro. Esta é uma ciência revolucionária e em constante mudança.

Em meio a tantas transformações, é natural que tenhamos dificuldades para imaginar o que está por vir. Nossos cérebros pensam linearmente, mas a tecnologia muda exponencialmente. Eu estou convencido que uma das próximas revoluções tecnológicas será o rejuvenescimento humano. Pela primeira vez, uma paciente está sendo cobaia de um teste experimental para rejuvenescer. Isto não é ficção nem magia. É fato. Está acontecendo. Além desta, temos outras perspectivas positivas para os próximos tempos. Em cinco anos, curaremos os paraplégicos. Em 15 anos, não teremos mais a doença de Parkinson. O Alzheimer talvez acabará em 20 anos. E, em até 30 anos, o envelhecimento não existirá mais.

Apesar de todas as conquistas proporcionadas pela tecnologia, ainda não conseguimos acabar com problemas como a fome, a desigualdade social, as guerras e outras tragédias. Pensar que o mundo está cada vez mais tecnológico pode ser um pouco assustador. O que garante que os governos não controlarão as populações ou desenvolverão aparelhos destrutivos à humanidade? De fato, não temos todas as respostas e nada pode ser garantido. Mas eu escolho ser otimista. Ver o copo meio cheio, e não meio vazio. A massificação da tecnologia fará com que se crie abundância e que todos tenham acesso ao conhecimento. Os produtos serão mais baratos e acessíveis a toda a população mundial. Estamos vivendo os melhores tempos da história humana. Este é o melhor momento para estar vivo. Principalmente, para viver para sempre. A “morte da morte” está cada vez mais próxima.

*Professor fundador da Singularity University, criada em parceria entre o Google e a NASA. É também diretor do HumanityPlus e do Millennuim Project na Venezuela

Mais conteúdo sobre:

Artigo