“Não recebi”

“Não recebi”

Em interrogatório, em 6 de setembro, engenheiro Glaucos da Costa Marques afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que a família não o pagou pelo aluguel do apartamento anexo ao do petista em São Bernardo do Campo

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

26 Setembro 2017 | 13h04

Glaucos da Costamarques. Foto: Reprodução

O engenheiro Glaucos da Costamarques afirmou em interrogatório perante o juiz federal Sérgio Moro, em 6 de setembro, que não recebeu alugueis pelo apartamento 121 do edifício Hill House, em São Bernardo do Campo (SP), ocupado pelo ex-presidente Lula. Nesta segunda-feira, 25, o petista apresentou recibos que comprovariam o pagamento. O imóvel teria sido adquirido pela empreiteira Odebrecht, por meio de Glaucos – suposto laranja do ex-presidente no negócio -, como forma de propina a Lula, réu nesta ação penal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A Lava Jato afirma que não houve pagamento de aluguel entre fevereiro de 2011 e novembro de 2015.

“Não recebi”, disse Glaucos, taxativamente em interrogatório. O engenheiro declarou que não houve pagamento de atrasados.

Os recibos entregues pela defesa do ex-presidente contestam a versão dos procuradores. Segundo a documentação de Lula, os alugueis foram pagos em nome da ex-primeira-dama Marisa Leticia – morta em fevereiro deste ano vítima de um AVC.

Documento

O engenheiro disse que é primo distante do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula. O avô do engenheiro é primo do bisavô de Bumlai. “Sou um primo distante, mas eu sou considerado mais que primo, porque muito amigo, né? Muito próximos”, afirmou.

Segundo o engenheiro, Bumlai e o advogado Roberto Teixeira – compadre de Lula e réu nesta ação – contaram a ele que o apartamento 121 ‘era alugado pelo PT antes de o Lula ser presidente’.

“Depois que ele virou presidente, o apartamento foi alugado pela secretaria da Presidência da República, com contrato. O apartamento entrou em espólio, morreu o dono do apartamento. O espólio ofereceu esse apartamento à venda pela preferência de quem aluga, ofereceu pra… Como eles não iam comprar, a Presidência não ia comprar o apartamento, então eles sabiam que o apartamento ia passar para alguém. O Zé Carlos me falou: ‘esse apartamento você pode comprar pra mim? Porque eu tô sem dinheiro agora e nós estamos com, não queremos que alguém estranho compre o apartamento e mude pra lá. Esse apartamento tem que continuar alugado’”, narrou o engenheiro.

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O ‘primo’ de Bumlai declarou que o pedido foi feito em julho de 2010. Glaucos contou que foi conversar com Roberto Teixeira e providenciou a documentação para a aquisição do imóvel.

De acordo com o engenheiro, ele fez três cheques administrativos. Um de R$ 390 mil, um de R$ 94 mil e um de R$ 20 mil, totalizando R$ 504 mil.

“Esses cheques eu fiz no dia 11 de agosto de 2010. Fui lá no Banco do Brasil, pedi os cheques e entreguei pro Roberto Teixeira”, disse o engenheiro.

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A escritura, declarou, foi passada em 20 de setembro de 2010.

“Eles pediram que queria ficar alugado pro Lula. Então, eu fiz um contrato, Roberto Teixeira que me trouxe, fiz um contrato com a dona Marisa Letícia. O contrato com a Presidência ia até 31 de janeiro de 2011. O meu contrato começava dia 1 de fevereiro de 2011. Tudo bem. Aguardei, não me pagaram o primeiro mês, não me pagaram o segundo mês, eu fui lá falar com o Zé Carlos. ‘Zé Carlos, o que está acontecendo que eles não estão pagando aluguel? Será que eles esqueceram? Porque eu passei os dados pro Roberto, da minha conta’. Ele falou: ‘olha, Glauco, não esquenta com isso aí. Isso aí, mais pra frente a gente acerta. Não fica preocupado’.”

A Moro, o engenheiro afirmou que passou a receber o aluguel em 2015. Glaucos disse que Roberto Teixeira o procurou em novembro daquele ano quando ele estava hospitalizado.

“O Roberto Teixeira esteve lá no hospital me falando: ‘olha, nós vamos pagar. De hoje em diante, nós vamos pagar o aluguel pra você’. Começaram a pagar. Começaram a pagar com um depósito na conta que eu passei, depósito no Santander. Mas não identificado. Eu acho que eles depositavam naqueles envelopes e aquele envelope tem um limite pra depósito. Acho que eles faziam em três. Então, aparecia lá, era, vamos supor, três mil, vamos por, não lembro quanto era o aluguel naquela época, três mil e trezentos, vamos supor. Eles punham um envelope de dois, um de mil e outro de oitocentos”, narrou.

O juiz da Lava Jato questionou Glaucos se Roberto Teixeira deu alguma explicação para começar a pagar.

“Eu não me recordo. Mas eu lembro que o José Carlos foi preso. Eu entrei no dia 22 de novembro no hospital. Dia 23 ele foi preso. Eu lembro da data por causa do hospital. E ele esteve lá no hospital no fim do mês de novembro”, contou.

Sérgio Moro perguntou a Glaucos por que ele estava dando informações diferentes daquelas que havia dito quando foi ouvido na Polícia Federal e na Receita. Na ocasião, afirmou o magistrado, Glaucos declarou que ‘havia uma espécie de compensação de débitos que ele tinha com Roberto Teixeira e por isso o escritório recebia o aluguel’.

“Eu dei a explicação pelo seguinte. Primeiro, que eu tinha um laço de amizade muito grande com o Zé Carlos, eu sou padrinho de um dos filhos dele. E se eu falasse alguma coisa, ele não me pagava, o sr entendeu? Ia virar um tumulto. Então, eu pensei o seguinte: eu vou esperar a hora certa, que é essa hora aqui e eu refazendo”, afirmou.

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