‘Não me cabe responder pela construtora’, diz Marcelo Odebrecht sobre ação da empresa na Suíça

‘Não me cabe responder pela construtora’, diz Marcelo Odebrecht sobre ação da empresa na Suíça

Em audiência que durou 22 mins e 50 segundos, procurador da República questiona maior empreiteiro do País se ele abriria mão de qualquer questionamento ao envio de extratos bancários apreendidos por investigadores daquele país ao Brasil

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

30 Outubro 2015 | 18h37

odebrechtjustica

Diante do juiz da Lava Jato, o maior empreiteiro do País, Marcelo Bahia Odebrecht, afirmou nesta sexta-feira, 30, que não cabe a ele “responder pela construtora (Norberto Odebrecht)” ao ser questionado se abriria mão da ação movida por advogados contratados pelo grupo na Suíça para evitar o envio de extratos bancários obtidos pelos investigadores daquele país ao Brasil e que poderiam implicar a empreiteira no esquema de pagamento de propinas instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014.

Inicialmente, na audiência, Marcelo Odebrecht fez um esclarecimento ao juiz Sérgio Moro sobre pontos que considera importantes da sua defesa. Mas, quando o juiz fez perguntas, o empresário limitou-se a dizer que tudo o que tinha a dizer já estava no documento escrito que sua defesa entregou à Justiça Federal antes da audiência – uma sequência de 60 perguntas e respostas que aborda a essência da acusação formulada pelo Ministério Público Federal. Os procuradores atribuem ao empresário crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

“Meu questionamento é o seguinte, se o sr disse que essas contas (na Suíça) não são suas, o senhor autoriza aqui, nessa audiência, o juízo a encaminhar um ofício às autoridades suíças informando que o senhor abre mão de qualquer questionamento (na Justiça suíça) em relação a essas contas?”, questionou o procurador da República.


“Não me cabe responder pela construtora”, disse o empreiteiro. “Eu nem posso responder pela construtora.”

O procrador insistiu. “Então o sr não autoriza o juízo a…”

Odebrecht interrompeu. “Não é questão de autorização, eu não tenho competência para isso.”

Na abertura da audiência, que durou 22 minutos e 50 segundos, frente a frente com o juiz que decretou sua prisão em 19 de junho de 2015, Odebrecht pediu a palavra e, por mais de dez minutos, reiterou que sempre colaborou com as investigações e esteve à disposição da Justiça. Ele fez críticas à força-tarefa da Operação Lava Jato e à publicação de suas anotações pessoais apreendidas pela Polícia Federal.
Reiterou vários pontos da carta encaminhada a Moro. O documento foi amplamente divulgado pela imprensa.

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“As perguntas que forem feitas ele já as terá respondido”, reiterou o advogado Nabor Bulhões, que defende o executivo, durante a audiência da tarde desta sexta-feira, 30. Apesar da estratégia, o juiz Sérgio Moro questionou Odebrecht especificamente sobre contas atribuídas a empreiteira na Suíça que foram identificadas pelo Ministério Público daquele país, e a transação de dinheiro entre elas. O empreiteiro indicou que não tem conhecimento das contas.

O juiz questionou sobre contas na Suíça que seriam controladas pela Construtora Norberto Odebrecht. O empresário disse. “Tudo o que eu sei sobre essas contas está em detalhes respondido nas perguntas escritas.”

“Mas tem alguma resposta para que elas serviam?”, prosseguiu o juiz.

“Já encaminhei para Vossa Excelência.”

Moro foi adiante, citou conta no Citibank em Nova York que recebeu US$ 21,8 milhões da conta da Construtora Norberto Odebrecht, entre 18 de dezembro e 21 de dezembro de 2006. “Sua resposta (por escrito) não reconhece essas contas, mas pode explicar por que a conta da Construtora Norberto Odebrecht transferiu esse valor?”, indagou o juiz da Lava Jato.

“Tudo o que eu conheço sobre as denúncias estão nas minhas respostas”, reiterou o empresário.

“Essas transações, não respondeu”, disse Sérgio Moro. “Tudo que é do meu conhecimento está nas respostas, eu fiz isso de maneira bastante precisa, bastante detalhada, para evitar inclusive esse processo de publicidade opressiva que estou sofrendo. A melhor maneira de evitar mal entendimento, e dar ampla divulgação às minhas respostas, era fazer por escrito. Tudo o que conheço sobre esse tema está nas minhas respostas. Já respondi a tudo.”

“Minha intenção é e sempre foi de colaborar com as investigações”, disse o empresário no início da audiência. “Absolutamente nada ficou comprovado contra mim. Hoje completa 133 dias que eu estou preso, com efeitos à minha imagem, sobre a minha família, sobre a Odebrecht como um todo. Não bastasse a restrição à minha liberdade e à falta de acesso que estou tendo, inclusive, à integralidade dos documentos.”

Marcelo Odebrecht fez um desabafo. “As atitudes recorrentes que estou vendo nesse processo evidenciam um perigoso e preocupante quadro de prejulgamento a que eu estou sendo submetido. Temo que esse processo acabe conduzindo para um desfecho que sirva, eu diria, que sirva para justificar a prisão preventiva injusta e desnecessária que me foi imposta”, afirmou Odebrecht ao justificar o silêncio que adotou diante dos questionamentos.

“Para melhor expor minha defesa eu estou encaminhando por escrito e de forma detalhada resposta a todos, absolutamente todos os fatos que me são imputados”, disse ele. “Para que não fique nenhuma dúvida sobre a minha inocência.”