‘Não admito que ninguém diga que tento obstruir a Justiça’

Lula disse a Moro nesta quarta, 13, que Palocci, que confessou seus crimes e incriminou o ex-presidente, preparou grande final esperado por procuradores ao falar de suposto plano para atrapalhar a Lava Jato

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Luiz Vassallo e Eduardo Laguna

14 Setembro 2017 | 05h00

Lula em segundo depoimento a Moro como réu. Foto: Reprodução

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira, 13, ao juiz federal Sérgio Moro que “não admite” que digam que ele tentou obstruir a Justiça e que o ex-ministro Antonio Palocci mentiu ao declarar em juízo que teria tramado com ele contra a Lava Jato.

“Eu não admito que ninguém diga que eu tento obstruir a Justiça porque eu, se não acreditasse na Justiça, não estaria fazendo política”, afirmou Lula, ouvido ontem pela segunda vez como réu da Lava Jato.

Moro interrompeu Lula e disse que no processo em que estava sendo ouvido ela não respondia ao crime de obstrução de Justiça.


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O ex-presidente – condenado em julho a 9 anos e 6 meses de prisão por Moro, no caso do triplex do Guarujá, que envolvia propinas da OAS – é réu nessa ação penal pelo acerto de R$ 12 milhões em propinas da Odebrecht, que seriam pagas de forma dissimulada na doação de um imóvel para o Instituto Lula e de um apartamento vizinho ao que ele mora em São Bernardo do Campo.

Palocci declarou, na quinta-feira, 6, que participou da operação de repasse de propinas da Odebrecht para Lula, no negócio do terreno do Instituto, e revelou que discutiu com o ex-presidente formas de obstruir as investigações.

Delação. Lula disse que ouviu “atentamente o depoimento de Palocci”. “Uma coisa cinematográfica, quase feita por um roterista da Globo.” Segundo o ex-presidente, Palocci “termina o depoimento dele da forma magistral dizendo o que o Ministério Público queria que ele dissesse”. “‘O Lula conversou comigo sobre obstrução de Justiça.'”

O ex-presidente disse que “vem ouvindo isso há tempos”. “O Delcídio (Amaral, ex-líder do governo Dilma Rousseff no Senado, que foi preso e virou delator) falou isso.” Moro completou: “José Aldemário (Pinheiro, ex-presidente da OAS que confessou crimes à Justiça no caso triplex do Guarujá) também, não é?”.

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Lula disse que era o dia “dele falar”.

“Vou lhe dizer uma coisa. Se tem um cidadão que tem coragem de olhar no seu olho e no olho dos meus acusadores e dizer que tem um cidadão nesse País, que tirou o tapete da sala para que a podridão aparecesse, esse cidadão se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto eu não admito que ninguém diga que eu tento obstruir a Justiça porque eu, se não acreditasse na Justiça, não estaria fazendo política.”

Moro interrompeu Lula e disse que no processo em que estava sendo ouvido ela não respondia ao crime de obstrução de Justiça.

Pena. Segundo Lula, Palocci se preparou para cumprir um “ritual” no interrogatório feito por Moro na semana passada, com o objetivo de reduzir sua pena e conseguir a liberação de recursos bloqueados pela Justiça. O ex-presidente disse ainda lamentar o que classificou de “serviço pequeno” prestado por Palocci, acrescentando não ter raiva, mas sim pena pela forma como o ex-ministro encerra uma “carreira tão brilhante”.

“Não tenho raiva do Palocci, eu tenho pena do Palocci”, dises Lula.