Na delação da Odebrecht, Garotinho é o ‘Bolinha’ centralizador

Na delação da Odebrecht, Garotinho é o ‘Bolinha’ centralizador

Informação consta de anexo da delação premiada de Leandro Azevedo, ex-diretor de Infraestrutura da Odebrecht no Rio

Fábio Fabrini, de Brasília

12 Dezembro 2016 | 20h37

GAROTINHOFRESTAWILTONmed

O ex-governador do Rio Anthony Garotinho. Foto: Estadão

 

O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho era identificado no esquema de propinas da Odebrecht pelos codinomes “Bolinha” e “Pescador”. A informação consta de anexo da delação premiada de Leandro Andrade Azevedo, ex-diretor de Infraestrutura da Odebrecht no Rio de Janeiro.

O executivo contou ter conhecido Garotinho em maio de 2008 numa reunião no escritório do ex-governador. Daquele ano até 2014, segundo ele, a Odebrecht pagou ao menos R$ 9,2 milhões em doações oficiais e de caixa dois para as campanhas do próprio Garotinho ao Governo do Rio de Janeiro, em 2014, e as da mulher dele, Rosinha Matheus, para a Prefeitura de Campos dos Goytacazes em 2008 e 2012.

Detalhes sobre a colaboração de Azevedo foram revelados no sábado pela coluna “Radar”, da revista Veja. O Estado teve acesso a alguns anexos. O executivo relatou também pagamentos indevidos ao governador fluminense, Luiz Fernando Pezão (PMDB), ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), e ao senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

O delator disse que parte dos pagamentos foi feita em dinheiro vivo no escritório de Garotinho. Além disso, relatou, o ex-governador também enviava um emissário para receber os recursos no endereço da Odebrecht. Como contrapartida, a empreiteira teria sido favorecida numa licitação do Programa Morar Feliz, em Campos, e conseguia liberar pagamentos com mais facilidade.

Em 2014, segundo ele, a empreiteira fez um “acerto” com Garotinho para manter “acesso direto a ele durante o seu futuro governo”, pois antevia-se que ele venceria as eleições. Isso, no entanto, não ocorreu.

“Garotinho era extremamente centralizador, o que fazia com que minha agenda para tratar de questões relativas aos projetos em andamento acontecesse diretamente com ele. Os contatos aconteciam por iniciativa minha, durante os mandatos, para tratar de questões como atrasos de pagamentos, ou dele, quando havia alguma demanda do município para alterações do projeto, providências relativas a inauguração de obras etc. Especificamente em época de campanha, os contatos aconteciam eminentemente quando havia atraso no pagamento das parcelas fixadas a pretexto de doação eleitoral”, relatou o executivo.

Azevedo disse que conversas com Garotinho para cobrar por atrasos na entrega de dinheiro ou renegociação de valores eram recorrentes. “Nas três campanhas em que houve pagamento, conforme eu relato, estas cobranças foram relativamente comuns.”

Em nota divulgada em seu blog, Garotinho alega que sempre manteve com Leandro Azevedo e outros diretores da Odebrecht “uma relação respeitosa e republicana”. Ele desafiou o delator a informar em que conta teria sido depositado dinheiro em seu nome ou da mulher. “Sinta-se à vontade para dizer os valores que teriam sido depositados nas referidas contas, que ele não dirá porque não existem. Quanto às doações legais que ele disse ter feito, existem recibos eleitorais, comprovantes de gastos da campanha e abertura e fechamento da conta eleitoral no Itaú, na cidade do Rio de Janeiro”, acrescentou.

Ele atribuiu as acusações do colaborador a ressentimento, pois a Prefeitura de Campos tem processo na Justiça rescindiu contrato Odebrecht após um longo processo administrativo no qual a empresa tenta receber mais de R$ 30 milhões.

“Delação premiada não pode nem deve servir para cobranças de faturas de obras onde existam divergência entre as partes, muito menos para vingança. Para isso existem as esferas competentes”, escreveu.

O ex-governador rejeitou quaisquer comparações com políticos de seu Estado, também citados. “Por algumas vezes em que me encontrei com o doutor Leandro ou outros diretores da Odebrecht, eles próprios diziam ter saudades do meu governo em relação ao governo Cabral, onde diziam que eram extorquidos a cada fatura que recebiam.”