Mulheres escravas, um drama cultural

Mulheres escravas, um drama cultural

Redação

25 Fevereiro 2015 | 05h00

Por Valéria Diez Scarance Fernandes*

A escravização de mulheres yazidis e outras práticas hediondas do grupo extremista Estado Islâmico – tais como estupro e mutilação genital para evitar a “expansão da libertinagem e da imoralidade” – são algumas das notícias que circularam recentemente, abalando consciências no mundo todo. Os relatos levam a uma reflexão sobre um cenário bem mais próximo, aqui do Brasil: por que, na raiz da violência, está o sentimento de “propriedade” sobre a mulher? 

No Brasil, mulheres também são seviciadas e mortas pelo mesmo sentimento de posse e propriedade: 92,1 mil assassinatos entre 1980 e 2010 (Mapa da Violência 2012: homicídio de mulheres no Brasil). Atualmente, estima-se que ocorram 472 mortes por mês – são 15,52 por dia ou 1 a cada 90 minutos (Pesquisa do IPEA Violência contra a Mulher).

O aprendizado cultural e familiar ensina padrões de respeito ou violência. Até os “singelos” ditados populares, aparentemente inofensivos, perpetuam esse tipo de violência. Até quando aceitaremos essa situação passivamente?

A violência de gênero, prevista na Lei Maria da Penha, tem como alvo a mulher, simplesmente porque é mulher. Um comportamento aprendido e naturalizado. Masculino e feminino são conceitos construídos e incorporados ao longo da vida. Aprende-se a ser homem “com H” – gostar de futebol, ser másculo, viril – e a ser mulher “para casar” – recatada, boa mãe, esposa e fiel.

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Essas diferenças não são naturais, mas construídas. “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, já dizia Simone de Beauvoir no século passado. E uma das formas de perpetuar a diferença de gênero está em mensagens ocultas dos ditados populares. Seguem alguns exemplos:

“Homem com fala de mulher, nem o diabo quer”. Significado: o homem é superior e a opinião da mulher não tem valor. Na verdade, há aproximadamente 80 anos, as mulheres conquistaram direitos de votar, trabalhar e estudar.

“Em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Significado: a violência é um problema privado e familiar. Na verdade, a violência atinge um terço das mulheres do mundo e ensina um padrão comportamental para os filhos: 64% dos jovens que praticaram violência, presenciaram atos violentos contra a sua mãe (Pesquisa Violência contra a mulher: o jovem está ligado?, Instituto Avon e Data Popular).

“Ela gosta de apanhar”. Significado: a vítima está na relação violenta “porque gosta”. Na verdade, a vítima não consegue reagir. A repetição da violência diminui a possibilidade de resistência e de decisão. Essa vulnerabilidade ocorre no âmbito pessoal, independentemente da condição econômica ou intelectual da mulher.

“Ele não sabe por que bate, ela sabe por que apanha”. Significado: a culpa da violência é da vítima. É um ditado perigoso, porque naturaliza a inversão da culpa nas relações violentas. O homem dominador seduz a vítima e depois a controla. Estabelece regras, submetendo-a aos poucos. Assim, justifica a agressão com base em um “deslize” da mulher ou fatores externos, como uso de álcool.

“Um tapa não dói”. Significado: não é uma violência séria. Na verdade, o tapa dói no corpo e destrói a alma. Revela um padrão perigoso e não há como se antever a ocorrência de um fato mais grave.

Refletir sobre o sentido de ditados, frases e até brincadeiras já representa um primeiro passo no combate a esse tipo de crime que tanto nos choca. A principal causa desse mal reside no sentimento de “propriedade” da mulher pelo homem. Assim, não aceitar justificativas para a violência e não se omitir são bons começos para soltar as amarras das mulheres que vivem a escravidão de gênero, do distante Oriente Médio aos lares do Brasil.

* Valéria Diez Scarance Fernandes é Promotora de Justiça no Estado de São Paulo, Vice-Coordenadora da Comissão Permanente de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (Copevid), do Grupo Nacional de Direitos Humanos (GNDH), e Professora de Processo Penal da PUC-SP. Autora da tese de doutorado: “Lei Maria da Penha: o Processo Penal no caminho da efetividade”