Moro compara esquema de publicidade a desvios na Petrobrás

Ao decretar a prisão preventiva de executivo da agência Borghi Lowe, alvo da nova fase da Lava Jato, juiz aponta 'milionária distribuição de propina'

Redação

15 Abril 2015 | 05h00

Por Mateus Coutinho, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O juiz federal Sérgio Moro avalia que o esquema de desvios em contratos de publicidade em órgãos estatais desbaratado pela Operação ‘A Origem’, a nova fase da Lava Jato,pode ter a mesma dimensão que o escândalo de propinas e corrupção na Petrobrás. Ao decretar a prisão preventiva do publicitário Ricardo Hoffman, da agência Borghi Lowe – que estava preso em caráter temporário desde sexta feira, 10 -, o magistrado cravou. “É provável, assim como revelado no esquema criminoso da Petrobrás, que se esteja diante de um modus operandi de realização de negócios, desta feita na área de publicidade, com a administração pública federal.”

Ricardo Hoffman é investigado por supostamente pedir para as produtoras que prestavam serviços para a Borghi Lowe nos contratos de publicidade do Ministério da Saúde e da Caixa Econômica Federal que fizessem repasses de comissões de 10% às empresas de fachada do ex-deputado do PT André Vargas e seus irmãos – o ex-parlamentar também foi preso pela ‘A Origem’, ao lado de outros dois ex-deputados, Luiz Argôlo (SD/BA) e Pedro Corrêa (PP-PE).

“No que se refere a Ricardo Hoffmann, o pagamento sistemático e reiterado de propinas a agente público, no caso a parlamentar federal que chegou a Vice-Presidente da Câmara, indica risco a ordem pública caso seja mantido em liberdade”,  afirma o magistrado lembrando que, pelo que já foi revelado até agora, o executivo ajudou a repassar mais de cinco milhões em propinas para o ex-parlamentar que “ainda não foram recuperados, estando expostos a novos esquemas de lavagem de dinheiro, tornando mais remota a possibilidade de recuperação do produto do crime”, destaca Moro.

Relatório da Lava Jato com sede da Limiar, empresa de André Vargas, entre 2009 e 2010 / Reprodução

Relatório da Lava Jato com sede da Limiar, empresa de André Vargas, entre 2009 e 2010 / Reprodução

Para o juiz, “há indícios que o esquema criminoso se reproduz em outros contratos de publicidade com a administração pública, o que é extremamente grave, sendo que a maior parte das provas são de conhecimento do investigado Hoffman e ainda estão ocultas”.

O magistrado apontou ainda que “até o esclarecimento total dos fatos” é possível que outros agentes públicos tenham recebido alguma vantagem indevida. “Com efeito, não foram ainda totalmente identificados os agentes públicos que, nos três esquemas de corrupção e de advocacia administrativa referidos, inclusive no de publicidade, teriam propiciado a oportunidade e o ganho para André Vargas”, afirma Moro, em referência ao episódios de lavagem de dinheiro e propina que levaram à prisão do ex-deputado.

“Até o esclarecimento completo dos fatos, permanece Ricardo Hoffman com a oportunidade de reiteração e reprodução do esquema criminoso, por sua empresa de comunicação ou por outras”, conclui o juiz. Agora em prisão preventiva, Hoffman poderá ficar sob custódia até o final do inquérito da Polícia Federal ou de ação criminal.

Bônus de volume . Segundo as próprias produtoras que atuaram para a Borghi Lowe, Ricardo Hoffman as orientava a pagar uma parcela do bônus de volume – comissão paga pelas agências em contratos de publicidade – às empresas de fachada LSI e Limiar, de André Vargas e seus irmãos. Além disso, a própria Mônica Cunha, funcionária da Borghi Lowe e também investigada na Lava Jato, confirmou à Polícia Federal que era Hoffmann quem indicava a emissão das notas em nome da LSI e Limiar. Ela também disse que os serviços pagos pela agências às cinco produtoras investigadas na operação eram por serviços de vídeo e áudio nas campanhas publicitárias da Caixa e da Saúde.

Publicidade. Diante da descoberta do esquema envolvendo o ex-deputado, os contratos de publicidade dos órgãos do governo federal estão na mira da força-tarefa da Lava Jato. Os procuradores vão estender a todos os órgãos públicos federais as investigações sobre o pagamento de propinas para políticos e agentes públicos na área de publicidade, à partir das apurações na Caixa, Saúde e Petrobrás – já investigadas.

Para isso, produtoras de áudio e vídeo do País terceirizadas pelas agências de propaganda detentoras das contas governamentais serão incentivadas a fazer delação premiada. Os procuradores da República acreditam que elas possam ser a peça-chave para desmontar a engrenagem de um sistêmico modelo de desvios em contratos milionários de propaganda do governo federal, via pagamentos de comissão para firmas de fachada ligadas a políticos.

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