Miller teve passagens pagas por escritório antes de deixar Procuradoria

Miller teve passagens pagas por escritório antes de deixar Procuradoria

E-mails revelam que o escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe não apenas tratava sobre o acordo de leniência da J&F como chegou a pagar voos ao advogado Marcelo Miller quando ele ainda era procurador

Rafael Moraes Moura e Breno Pires

12 Setembro 2017 | 05h00

O ex-procurador Marcello Miller chega para depor na Procuradoria na sexta-feira, 8, no Rio. FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

E-mails revelam que o escritório de advocacia Trench, Rossi, Watanabe não apenas tratava sobre o acordo de leniência da J&F como chegou a pagar passagens aéreas ao advogado Marcelo Miller quando ele ainda era procurador. O próprio escritório entregou as conversas por mensagens eletrônicas à Procuradoria-Geral da República. Nos e-mails, são identificadas conversas entre Miller e uma ex-sócia do escritório, Esther Flesch, na qual é tratado o acordo de leniência da J&F.

O advogado teve sua casa vasculhada pela Polícia Federal nesta segunda-feira, 10, com autorização do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação mira possíveis mentiras na delação dos executivos da J&F.

Marcelo é o pivô da investigação que pode culminar com a rescisão da delação da JBS, embasada em áudio enviado pela defesa dos colaboradores em anexo complementar sobre o senador Ciro Nogueira (PP).

Ele integrou a força-tarefa da Operação Lava Jato e atuou nas delações do ex-senador Delcídio do Amaral e do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Após deixar o Ministério Público Federal, ele passou a integrar o escritório de advocacia Trench, Rossi e Watanabe, e integrou o time de advogados que negociaram o acordo de leniência da J&F.

O ex-procurador ainda fazia parte do Ministério Público quando começou a conversar com os executivos, no final de fevereiro. Ele pediu exoneração da Procuradoria no mesmo mês, mas a deixou de fato apenas em abril.

No áudio dos delatores, alvo de investigação, ele é mencionado por Joesley como um procurador da República que estaria atuando em benefício do grupo.

“Não é que não tem. Nós vamos, eu já falei pro Francisco: tem que resolver isso,nós vamos ajeitar. Fernandinha, você vai ajeitar o Marcelo, que nós já estamos ajeitando. Nós vamos conhecer o Janot, nós vamos conhecer não sei quem, e quem precisa do que?”, afirmou o empresário.

Em 8 de março, Miller, antes de deixar o cargo na Procuradoria, aparece pedindo a uma funcionária do escritório para emitir uma passagem aérea do Rio de Janeiro para São Paulo, para o dia 9 de março, com retorno marcado para o dia seguinte. “As despesas devem ser reviradas do Projeto Ametista. Esther sabe o que é”, escreveu a funcionária.

COM A PALAVRA, MILLER

A defesa de Miller informou à reportagem que só teve acesso ao pedido de prisão da PGR nesta segunda-feira e “está preparando as medidas cabíveis”.

COM A PALAVRA, ESTER FLESCH

Por meio de sua assessoria, a advogada Esther Flesch informou que o documento em questão é uma minuta, como se nota pelos campos em aberto no próprio documento. Sua versão final, assinada pelo escritório de advocacia, é bastante diferente.

COM A PALAVRA, TRENCH ROSSI WATANABE

A assessoria de imprensa do escritório Trench Rossi Watanabe não respondeu à pergunta feita pela reportagem sobre se firmou contrato também relacionado a acordo de colaboração, para além da leniência. Em nota, o escritório diz que “está entregando todos os documentos solicitados pela Procuradoria-Geral da República, e os profissionais mencionados nas investigações não fazem mais parte de seu quadro de advogados”.

Confira abaixo a íntegra da nota do escritório:

“Trench Rossi Watanabe confirma que está auxiliando as autoridades competentes e continua à disposição das mesmas, a exemplo de como tem se portado ao longo de seus mais de 50 anos de trajetória no mercado brasileiro de serviços jurídicos, sempre pautados pela ética e transparência. O escritório está entregando todos os documentos solicitados pela Procuradoria-Geral da República. Reitera ainda e que os profissionais mencionados nas investigações não fazem mais parte de seu quadro de advogados”.

 

 

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