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‘Mercadante não faz nada sem orientação superior’

‘Mercadante não faz nada sem orientação superior’

Ex-líder do governo diz que está ‘do lado da verdade’ e disposto a uma acareação com citados em sua delação

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Alberto Bombig e Fausto Macedo

17 Março 2016 | 05h00

Na Câmara, deputados assistem ao noticiário sobre a delação de Delcídio. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Na Câmara, deputados assistem ao noticiário sobre a delação de Delcídio. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O senador Delcídio Amaral (sem partido-MS) diz estar disposto a ficar cara a cara com todos os citados em seu depoimento de delação premiada em eventual acareação. “Estou do lado da verdade”, disse ele, em entrevista exclusiva ao Estado. Delcídio deixou o PT após a delação ter sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal.

Para o senador, líder do governo Dilma Rousseff até o fim de 2015, a presidente, mesmo com a ajuda do ministro Lula na Casa Civil, tem poucas condições de afastar as ameaças de perder o cargo, seja pela via do impeachment no Congresso ou das ações de cassação no Tribunal Superior Eleitoral. “O quadro é muito complicado. Não é fácil. Outros fatos virão. E isso vai contaminando a política”, disse.

Segundo ele, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) foi apenas um emissário de Dilma na tentativa de convencê-lo a desistir da delação. “O Aloizio é um cara disciplinado. Ele não faz nada sem estar alinhado com orientações superiores. Quem o conhece sabe.”

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Estadão: O sr. se arrepende de algo?

Senador Delcídio Amaral: Não, acho que eu fiz isso pelo Brasil. Fiz isso pelo Brasil e com convicção. Eu não tenho nenhum tipo de arrependimento.

Estadão: A sua colaboração é apartidária?

Delcídio: É apartidária, pensando no País mesmo. Tanto é que eu trouxe à baila uma série de temas que eu tinha domínio, tenho domínio. E as investigações vão provar o que eu falei. É abrangente. Ela não é tendenciosa, ela é isenta.

Estadão: Senador, qual a motivação que o sr imagina que levou o ministro Aloízio Mercadante ao procurar seu assessor (José Eduardo Marzagão)?

Delcídio: Preocupação que eu tomasse essa decisão de colaborar (comas investigações da Operação Lava Jato).

Estadão: Por quê?

Delcídio: Porque eu era um líder de Governo, era uma pessoa com conhecimento de questões importante. Então, esse foi o motivo principal e, fundamentalmente, quem chamou o Marzagão, meu assessor, para conversar foi o ministro Aloísio.

Estadão: Não foi o sr?

Delcídio: Não, de forma nenhuma. Aliás, eu vim a saber depois que essas conversas tinham sido gravadas. Sob o ponto de vista jurídico (as conversas gravadas) são absolutamente defensáveis porque e o Supremo já tem jurisprudência sobre isso. Quer dizer, uma pessoa conversa com outra para se proteger. Ela pode gravar e (a gravação) tem validade jurídica.

Estadão: O ministro isentou completamente o Palácio do Planalto, a presidente Dilma e o governo de qualquer orientação a ele nesse sentido. O sr. acha que Mercadante foi (para o encontro com Marzagão) por livre e espontânea vontade mesmo?

Delcídio: Não. Quem ouve a conversa entende muito bem. E todo mundo sabe das ligações do senador Aloízio Mercadante com a presidente Dilma. Não tem dúvida nenhuma. Isso aí ele não faria jamais. O Aloízio é um cara disciplinado. Ele não faz nada sem estar alinhado aí com as orientações superiores. Quem o conhece sabe.

Estadão: A discussão hoje é porque não foi pedida a prisão dele, da mesma forma que ocorreu com o sr. São atos semelhantes, o sr. foi pego numa gravação, em tese, segundo a acusação tentando barrar a Lava Jato. Da mesma forma, a abordagem dele ao sr., via Marzagão…

Delcídio: Aliás, acho que a dele (Mercadante) é mais grave que a minha. A dele é uma conversa entre duas pessoas. A minha é uma gravação de terceiros. Então, o caso dele, do meu ponto de vista, é um caso que merece uma atenção especial. Acho que esse é um debate que o Brasil inteiro está fazendo. Aparentemente, são coisas semelhantes com tratamentos diferentes.

Estadão: O sr. tem batido muito nessa linha de que o governo diz uma coisa publicamente, que deixa as investigações seguirem, que nunca interferiu, mas reservadamente, nos bastidores, agia de forma totalmente contrária, para não deixar que a Lava Jato prosseguisse. O sr tem essa leitura?

Delcídio: O Mercadante é a maior prova disso aí. E os fatos mesmos que eu citei ao longo da colaboração que não deixam dúvida. O discurso é um, mas a prática é outra.

Estadão: Senador, e o partido. O sr. mandou carta de desfiliação. O que fica dessa intensa relação que o sr. manteve com o partido ao longo dessas últimas décadas? Tem mágoa?

Delcídio: Não, eu não tenho mágoa. É que há uma incompatibilidade. Quando há incompatibilidade a gente tem que ter coragem de compreender a situação. A vida continua.

Estadão: Em que momento o sr. decidiu fazer a delação?

Delcídio: Logo no início, quando eu fiquei muito chocado, quando descobri que a razão da minha prisão era prejudicar as investigações. Eu sempre fui alguém de construção. Eu sempre fui uma pessoa que estabeleceu pontes. Naquele momento mesmo, quando eu soube a verdadeira razão, eu já me convenci que não…Já que eu estava prejudicando, era esse o entendimento, então resolvi ajudar.

Estadão: E o único pedido que o sr. teve ali, está documentado, foi do Mercadante? A única pressão que o sr. recebeu na linha para não falar, pensar bem?

Delcídio: Não, não, as pessoas eram muito suaves, me visitavam, pra prestar solidariedade e tal. Mas sondavam, não é? Não estou dizendo todas, algumas pessoas, mas a gente entendia o porquê. Essa aproximação a gente compreende bem os objetivos.

Estadão: E o futuro?

Delcídio: O futuro agora, nós vamos…

(O senador interrompe a entrevista para atender uma ligação. Seu interlocutor informa que a Revista Época ‘soltou a matéria daquela fundação do Aécio em Licheinstein agora, a puta matéria’)

Estadão: O sr. fala do grande esquema de Furnas..

Delcídio: Eu estava respondendo o quê? Ah, o futuro…Então, agora vai ser uma batalha difícil no Conselho de Ética, entendendo as dificuldades, são naturais.

Estadão: O sr vai lutar pelo mandato?

Delcídio: Vou lutar, claro, até pra honrar os quase um milhão de votos que eu tive no meu Estado. Foi a maior votação que um político teve em Mato Grosso do Sul. Vou lutar pra honrar os meus eleitores, né? Vou lutar até o fim. eu tô do lado da verdade. Eu não tô do outro lado não.

Estadão: O sr falou, em um dos anexos sobre Furnas, o esquema Furnas…

Delcídio: Esse é um esquema que já na CPI dos Correios apareceu. Só que aquilo era uma lista fraudada. Nós inclusive colocamos a perícia. Um perito analisou a lista e atestou que era falsa, mas no mérito não, no mérito tinha procedência.

Estadão: A montagem da lista era uma coisa, o conteúdo outro.

Delcídio: O conteúdo, o mérito é que existia uma operação em Furnas comandada pelo Dimas, inegavelmente. E vocês não se surpreendam. Nas investigações isso vai aparecer. Atende pelo nome de Fabitol.

Estadão: O que é?

Delcídio: É a empresa que o Dimas tem.

Estadão: Esse é o caminho para a investigação?

Delcídio: É um dos caminhos. Eu não conheço todos, mas esse é um deles.

Estadão: O sr. diz também que na CPI dos Correios, em um dos anexos, que o Lula e o filho dele foram salvos, excluídos do relatório final. Como foi essa trama?

Delcídio: Foi uma discussão, nós tínhamos que concluir um trabalho de uma CPI que durou onze meses, e claro, CPI é um foro político. Não é naquele momento, e também foi um momento difícil, eu como presidente da CPI dos Correios tinha que administrar os dois lados. E ela funcionou bem também porque ela foi isenta, ela pegou os dois lados. Então, quando ninguém gosta é sinal que foi bom. Porque valeu pra um lado e valeu pro outro. E, naquele momento, nós tínhamos que terminar os trabalhos, aprovar o relatório. Então, isso foi motivo de uma grande discussão sobre as pessoas que fizeram parte das investigações. E acho que nós tivemos um grande mérito na CPI dos Correios. O País numa crise política forte e a economia andava; Ao contrário do momento que estamos vivendo hoje. Hoje nós temos uma investigação forte com a economia indo muito mal. Ou seja, o político contaminando a economia. E a economia o político. Então, o cenário hoje é muito mais grave. E nós conseguimos separar. Uma das coisas que nos levou numa negociação, inclusive com a oposição, foi fechar o relatório, aprovar o relatório. E o relatório surtiu os efeitos que todos nós que trabalhamos onze meses esperávamos.

Estadão: E porque Lula e o filho poderiam ser incluídos no relatório final?

Delcídio: Por causa de investigações que estavam sendo feitas à época envolvendo a Gamecorp, entre outras razões. E aí nós fizemos, conversamos com a oposição também e fizemos esse encaminhamento. Quero dizer que não é só esse caso. Outros casos ocorreram também ao longo das investigações que levaram à discussão entre oposição e base e aí tudo isso acabou fluindo e levou a esse relatório que o Supremo cumpriu o papel fundamental.

Estadão: Dentro do meio político e do PT como era tratado o sítio de Atibaia?

Delcídio: Todo mundo sabia, todo mundo dizia que era do Lula. Eu nunca fui lá, mas todo mundo dizia que era do Lula, sempre, isso era conhecido. Era uma coisa de uma clareza solar. Não tem, inegável isso. Todos nós ouvíamos isso.

Estadão: O que o sr. acha que sai desse processo todo para o País? Lava Jato, mudanças, qual o saldo que vai ficar desse momento?

Delcídio: Acho que o Brasil sai melhor disso tudo. Não tem dúvida, um País com potencial extraordinário, com um povo espetacular, com bons empresários, não é? Um País que hoje sem dúvida nenhuma se tornou uma referência, inegavelmente, sob o ponto de vista de geopolítica, sob ponto de vista de um grande player internacional. Isso é fruto de conquistas de todos os governos que passaram, cada um cumprindo o seu papel, sob o ponto de vista econômico, sob o ponto de vista diplomático, sob o ponto de vista social. Acho que, evidentemente, depois de tudo isso vamos ter um novo país e um país que vai no bojo de tudo isso trazer reformas importantes, entre elas a reforma política para eliminar esses vícios que lamentavelmente foram.

Estadão: O sr. acha que o impeachment avançou? A presidente Dilma termina esse mandato mesmo com Lula ministro ou não?

Delcídio: Acho que o quadro é muito difícil. O quadro é muito complicado. Não é fácil. Outros fatos virão e isso vai contaminando a política e 170 votos na Câmara não é uma coisa simples, não. E o PMDB também tem um papel muito relevante nesse processo. O PMDB já sinalizou no final de semana que vai assumir uma posição muito mais pragmática. E depois houve uma mobilização extraordinária nas ruas do Brasil no domingo. Isso exige uma atenção especial, é um olho no gato e outro no peixe.
Estadão: Sobre a Petrobrás, que o sr. conhece bem, qual é o futuro da Petrobrás?

Delcídio: A Petrobrás é uma grande empresa, gente muito qualificada, gente que pode trabalhar em qualquer petroleira do mundo. Tem tecnologia, tem amor, as pessoas que trabalham na Petrobrás têm amor pela companhia. Não tem dúvida, a Petrobrás vai sair dessa e vai continuar aí tendo um papel de grande protagonista.

Estadão: A crise vai sanear os desvios e a corrupção e vai ser tratada como algo quase histórico

Delcídio: Isso é importante, é histórico, não é de agora não. E, sem dúvida nenhuma, esse processo não vai ser bom só para a Petrobrás, vai ser bom para o Brasil, vai ser bom para a população, vai ser bom para o governo. Não é só o caso Petrobrás. Pode verificar que, nessas investigações, aparecem outros setores também. Então acho que é sadio para o Brasil, nós vamos sair melhor do que nós entramos.

Estadão: O sr. fica sem partido ou pretende se filiar a algum?

Delcídio: Vamos esperar agora. Eu vou aguardar a definição para que partido eu vou, se eu vou ou não, aí o tempo vai dizer.

Estadão: O sr. volta como para o Senado? Cabeça erguida?

Delcídio: Eu não tenho nenhuma preocupação com isso. Eu estou do lado da verdade. Quem está do lado da verdade não teme nada.

Estadão: O sr. fala numa reunião no próprio Palácio do Planalto com o ministro Ribeiro Dantas (Superior Tribunal de Justiça). O sr.relatou isso na colaboração…

Delcídio: Foi lá no Palácio, inclusive no andar térreo.

Estadão: E o que foi discutido ali?

Delcídio: Não, foi essa questão das indicações para o STJ mesmo.

Estadão: O objetivo era livrar os principais empreiteiros?

Delcídio: Na verdade era uma visão, naquele momento, era um intuito de tentar trazer o mínimo de controle da Lava Jato pelo governo. Isso está na minha agenda. Minhas agendas todas são claras nesse sentido, os contatos, as conversas. E não deu certo. Mais uma tentativa que não deu certo. O caso Mercadante enfatiza essas intervenções todas que foram negadas.

Estadão: O sr. faria uma acareação com essas pessoas todas que o sr. cita?

Delcídio: Eu não tenho nenhuma preocupação com isso. Eu não sei se essas pessoas aceitariam uma acareação comigo (o senador sorri).

Estadão: Conte aquela passagem do voo para Campinas, senador, que Lula falava de Dimas Toledo, segundo o sr. o ex-presidente disse ‘deve estar roubando muito’, como foi?

Delcídio: Ele (Lula) me perguntou, eu sou oriundo do setor elétrico, aí ele me pergunta se eu conhecia um cara chamado Dimas Toledo. Eu falei, conheço, claro, é um engenheiraço mesmo, muito bom engenheiro, conhece muito, competente. ele falou ‘pô Delcídio eu não entendo, quando eu tomei posse veio o Janene (José Janene, mensaleiro que morreu em 2010) me pedir, depois veio o Aécio me pedir, e o PT que era contra agora resolveu apoiá-lo. Então, esse cara deve estar roubando muito. Porque pra atender tanta gente não é possível, não é?’ Eu tive essa conversa quando fui a Campinas numa inauguração num terminal ferroviário com o prefeito Dr. Hélio (PDT). Eu me lembro de uma frase do Zé Dirceu pra mim que eu nunca esqueci. Ele dizia assim: ‘se o Dimas fosse colocado como ascensorista de Furnas ele mandava no presidente de Furnas.’

Estadão: Para a presidente Dilma algum recado?

Delcídio: Não, deixa ela tocar o barco aí que ela tem muitos problemas.

Estadão: Ela termina o governo?

Delcídio: Os sinais não são bons.

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