Marco Aurélio põe no inquérito de Aécio relatório sobre dissimulação de doação

Marco Aurélio põe no inquérito de Aécio relatório sobre dissimulação de doação

PF encontrou em um HD apreendido na construtora Wanmix, de propriedade de um amigo de Aécio, extratos bancários que, para os investigadores, sugerem a dissimulação de doação de campanha

Amanda Pupo e Rafael Moraes Moura/BRASÍLIA

04 Maio 2018 | 18h23

Aécio Neves. Foto: Dida Sampaio/Estadão

BRASÍLIA – O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou, nesta quarta-feira, 02, que sejam anexados em uma segunda investigação contra senador Aécio Neves (PSDB-MG), em que o ministro é relator, dados entregues pela Polícia Federal que sugerem a dissimulação de doação de campanha ao PSDB, em 2014, de acordo com a Procuradoria-geral da República (PGR). O pedido de juntada dos documentos foi feito pela PGR no mês passado.

Em busca e apreensão vinculada a investigação do suposto repasse de R$ 2 milhões de Joesley Batista, da J&F, ao senador, a PF encontrou em um HD apreendido na construtora Wanmix, de propriedade de um amigo de Aécio, extratos bancários que, para os investigadores, sugerem a dissimulação de doação de campanha, como informou o Broadcast Político/Estadão em 17 de abril.

Os documentos mostram que no dia 24 de junho de 2014 a empresa Conserva de Estradas recebeu um depósito de R$ 1,5 milhão do Consórcio Cowan Conserva. No mesmo dia, a empresa repassou a mesma quantia para o diretório nacional do PSDB.

A procuradoria pedia para que os extratos fossem anexados em quatro inquéritos em que o senador é investigado. Sob relatoria de Marco Aurélio, um deles apura suposto crime de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, aberto com base da delação da JBS. O outro, com relatoria ministro Gilmar Mendes, é destinado à verificação de pagamento de valores indevidos pela Odebrecht à campanha do senador à presidência, em 2014.

O terceiro, cujo relator é o ministro Alexandre de Moraes, apura fatos ilícitos envolvendo a construção da Cidade Administrativa de Minas Gerais. Relatado por Edson Fachin, um quarto inquérito é direcionado a investigação de suposto pagamento, por parte da Odebrecht e Andrade Gutierrez, de valores a Aécio em razão de sua atuação em favor dos interesses das construtoras nos projetos das usinas hidroelétricas de Santo Antônio e Jiral, no Rio Madeira, em Rondônia.

Em resposta a PGR, Marco Aurélio determinou que a documentação seja anexada ao inquérito que relata, e pediu que os dados sejam encaminhados aos demais ministros, que comandam os outros inquéritos.

Na investigação sobre o suposto repasse de R$2 milhões, Aécio, sua irmã e o primo, Andrea Neves e Frederico Pacheco, e o ex-assessor do senador Zezé Perrella (MDB-MG), Mendherson Souza Lima, se tornaram réus pelo crime de corrupção passiva. Aécio também é acusado pelo crime de obstrução à Justiça nesse processo. Marco Aurélio é relator do inquérito em que essa denúncia foi recebida.

Além dessa investigação e das quatro citadas acima, Aécio é alvo de mais quatro inquéritos no Supremo Tribunal Federal.

SUSPEITAS. Para a PGR, a “movimentação financeira realizada entre a Conserva de Estradas e Consórcio Cowan Conserva pode indicar que esta última empresa estava dissimulando doação oficial ao PSDB em 2014 se valendo da primeira”.

Tanto a Conserva Estradas como o Consórcio Cowan Conserva pertencem à família Wanderley. O dono da Wanmix, onde foram encontrados os extratos, é Eduardo Wanderley, também integrante da família. Amigo próximo de Aécio, Eduardo é sobrinho de Saulo Wanderley, dono da Cowan.

A Wanmix, por sua vez, é uma construtora mineira que forneceu concreto para a construção da Cidade Administrativa, obra mais cara da gestão de Aécio no governo de Minas Gerais. A obra custou R$ 2,1 bilhões e foi citada em delações premiadas como origem de repasses de propina para o tucano. A obra também forneceu concreto para as usinas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte.

O dono da empresa, Eduardo Wanderley, é amigo de Aécio e foi flagrado em conversa com o senador interceptada pela PF no âmbito da Operação Patmos – desdobramento do acordo de colaboração dos executivos do Grupo J&F.

“O Consórcio Cowan Conserva (que repassou o valor de R$ 1,5 milhão para a empresa Conserva Estrada, posteriormente depositado por esta em favor do PSDB) é formada pelas empresas Construtora Cowan e pela Conserva de Estradas. Todas as empresas mencionadas são pertencentes à mesma família”, afirma a PGR.

De acordo com a PF, o Relatório de Análise de Material Apreendido, feito com base nos extratos, “mostra também engajamento colaborativo do conglomerado da Wanmix para com o partido político de Aécio Neves”.

Em nota divulgada na ocasião em que a PGR fez o pedido, a defesa do senador Aécio Neves afirmou que desconhece o assunto e que não identificou irregularidade nos dados apresentados, “uma vez que a doação está devidamente declarada no TSE, como todas as outras doações feitas às campanhas do PSDB”. A assessoria de comunicação do PSDB informou que o partido não tem conhecimento do assunto. (Amanda Pupo e Rafael Moraes Moura)

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