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OPERAçãO LAVA JATO

Marcelo Odebrecht decide fazer delação premiada na Lava Jato

Maior empreiteira do País, no dia em que foi alvo de mais uma fase das investigações de corrupção na Petrobrás admitiu em nota oficial acordo de 'colaboração definitiva' de seus executivos com o Ministério Público Federal; presidente afastado está detido desde 19 de junho e foi condenado em um dos processos a 19 anos de prisão

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Pedro Venceslau, Ricardo Bandt, Valmar Hupsel Filho e Fausto Macedo

22 Março 2016 | 21h11

Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015, em Curitiba. Foto: Cassiano Rosário/Futura Press

Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015, em Curitiba. Foto: Cassiano Rosário/Futura Press

Os executivos da maior empreiteira do País decidiram buscar o acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República nos processos da Operação Lava Jato. O empreiteiro Marcelo Odebrecht, preso na Operação Erga Omnes, desde 19 de junho de 2015, está entre os que devem fazer a colaboração. O acordo depende do aval e da eventual homologação no Supremo Tribunal Federal.

Mais influente empreiteira do País, a Odebrecht mantém sólidos contatos com o universo da política brasileira. Por isso, o anúncio agitou os gabinetes de Brasília no início da noite de ontem. A expectativa é de que Marcelo Odebrecht e os demais executivos possam revelar detalhes capazes de impactar até o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A empreiteira, entre outras acusações, é investigada por ter feito reformas no sítio utilizado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Atibaia (SP) e por ter repassado valores ao marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas eleitorais do próprio Lula, em 2006, e de Dilma Rousseff, em 2010 e em 2014.

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Lula também é investigado pelo Ministério Público do Distrito Federal sob suspeita de tráfico de influência em favor da Odebrecht no exterior.

Nesta terça à noite, o Ministério Público Federal em Curitiba divulgou a seguinte nota: “O Ministério Público Federal não fez acordo com a Odebrecht ou seus executivos e qualquer acordo, neste momento, será restrito às pessoas que vierem antes e cuja colaboração se revelar mais importante ao interesse público”.

Segundo o Estado apurou, no entanto, as negociações devem evoluir para a delação premiada do grupo comandado por Marcelo Odebrecht.

Pesou na decisão da empresa, que já está negociando acordo de leniência com a Controladoria-Geral da União, a deflagração da Operação Xepa. A 26.ª etapa da Lava Jato tem base essencialmente na colaboração da ex-secretária do Grupo Odebrecht Maria Lúcia Guimarães Tavares. Presa em fevereiro na Operação Acarajé, que teve como alvo principal o marqueteiro João Santana, ela revelou os caminhos da propina paga pela empreiteira.

Estratégia. O anúncio marca uma mudança radical na estratégia de defesa da Odebrecht e de seu presidente afastado, Marcelo, filho de Emílio Odebrecht e neto de Norberto Odebrecht. Desde o início da Lava Jato, ele optou pelo confronto com a força-tarefa da operação e o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba. A defesa dele recorreu, sem sucesso, das prisões decretadas pelo magistrado e chegou a comandar uma forte reação pública às investigações de corrupção e de desvios na Petrobrás.

Na residência da ex-secretária da empreiteira, a Polícia Federal apreendeu um programa de computador com os arquivos dos pagamentos ilícitos.

Também pesou na decisão dos executivos da construtora em fazer a delação a condenação do empreiteiro Marcelo Odebrecht. Acusado de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e associação criminosa, Odebrecht, herdeiro do grupo, foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão pelo juiz federal Sérgio Moro no dia 8 de março.

Além de Marcelo Odebrecht, a intenção de firmar o acordo, que foi confirmada pelo grupo ontem, envolve outros executivos da construtora presos também desde junho de 2015.

Foram sentenciados com a mesma pena de Marcelo Odebrecht e pelos mesmos crimes no processo os executivos Márcio Faria e Rogério Araújo, ex-diretores da companhia.

‘Reflexão’. Em uma nota intitulada “Compromisso com o Brasil”, a empresa afirma que as “avaliações e reflexões” dos acionistas e executivos da empresa levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração “definitiva” com a Lava Jato.

“A empresa, que identificou a necessidade de implantar melhorias em suas práticas, vem mantendo contato com as autoridades com o objetivo de colaborar com as investigações, além da iniciativa de leniência já adotada em dezembro junto à Controladoria-Geral da União”, informa o texto.

A empresa diz esperar que os esclarecimentos da colaboração contribuam “significativamente” com a Justiça e “com a construção de um Brasil melhor”. A construtora também afirma que está em “processo avançado” de adesão ao Pacto Global, da Organização das Nações Unidas (ONU), que visa mobilizar a comunidade empresarial internacional para a adoção de “valores reconhecidos nas áreas de direitos humanos”.

“Vamos adotar novas práticas de relacionamento com a esfera pública. Apesar de todas as dificuldades e da consciência de não termos responsabilidade dominante sobre os fatos apurados na Operação Lava Jato – que revela na verdade a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do País – seguimos acreditando no Brasil”, diz o texto da empresa.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

Leia a íntegra da nota divulgada pela Odebrecht:

“Compromisso com o Brasil

As avaliações e reflexões levadas a efeito por nossos acionistas e executivos levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração definitiva com as investigações da Operação Lava Jato.

A empresa, que identificou a necessidade de implantar melhorias em suas práticas, vem mantendo contato com as autoridades com o objetivo de colaborar com as investigações, além da iniciativa de leniência já adotada em dezembro junto à Controladoria Geral da União.

Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor.

Na mesma direção, seguimos aperfeiçoando nosso sistema de conformidade e nosso modelo de governança; estamos em processo avançado de adesão ao Pacto Global, da ONU, que visa mobilizar a comunidade empresarial internacional para a adoção, em suas práticas de negócios, de valores reconhecidos nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção; estabelecemos metas de conformidade para que nossos negócios se enquadrarem como Empresa Pró-Ética (da CGU), iniciativa que incentiva as empresas a implantarem medidas de prevenção e combate à corrupção e outros tipos de fraudes. Vamos, também, adotar novas práticas de relacionamento com a esfera pública.

Apesar de todas as dificuldades e da consciência de não termos responsabilidade dominante sobre os fatos apurados na Operação Lava Jato – que revela na verdade a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do país – seguimos acreditando no Brasil.

Ao contribuir com o aprimoramento do contexto institucional, a Odebrecht olha para si e procura evoluir, mirando o futuro. Entendemos nossa responsabilidade social e econômica, e iremos cumprir nossos contratos e manter seus investimentos. Assim, poderemos preservar os empregos diretos e indiretos que geramos e prosseguir no papel de agente econômico relevante, de forma responsável e sustentável.

Em respeito aos nossos mais de 130 mil integrantes, alguns deles tantas vezes injustamente retratados, às suas famílias, aos nossos clientes, às comunidades em que atuamos, aos nossos parceiros e à sociedade em geral, manifestamos nosso compromisso com o país. São 72 anos de história e sabemos que temos que avançar por meio de ações práticas, do diálogo e da transparência.

Nosso compromisso é o de evoluir com o Brasil e para o Brasil.”

 

 

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