Marcelo Miller tentou ‘justificar’ Carne Fraca à JBS, diz Janot

Marcelo Miller tentou ‘justificar’ Carne Fraca à JBS, diz Janot

Ex-procurador da República foi citado em novo áudio entre Joesley Batista e Ricardo Saud que motivou pedido de investigação do procurador-geral da República

Beatriz Bulla e Fábio Serapião, de Brasília, e Julia Affonso

04 Setembro 2017 | 21h17

Operação Carne Fraca. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O áudio da conversa entre o empresário Joesley Batista e o executivo Ricardo Saud que motivou o pedido de investigação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, cita a Operação Carne Fraca – investigação deflagrada em março que pegou os maiores frigoríficos do País, entre eles a JBS.

O procurador-geral assinou nesta segunda-feira, 4, portaria em que instaura procedimento de revisão de colaboração premiada de três dos sete executivos do Grupo J&F. A apuração se dá após entrega de documentos, provas e áudios pela própria defesa dos colaboradores em 31 de agosto.

Conversa gravada ‘acidentalmente’ de Joesley e Ricardo Saud leva Janot a abrir investigação

Em um áudio, de quatro horas de duração, possivelmente gravado em 17 de março, afirma o procurador-geral, Ricardo Saud e Joesley Batista ‘mencionam supostos ilícitos envolvendo a participação de um procurador da República, que estaria auxiliando os interlocutores, inclusive a pretexto de influenciar a decisão do procurador-geral da República, em futura aproximação para negociação de acordo de colaboração premiada com o Ministério Público’.

Janot se refere ao ex-procurador da República Marcelo Miller.

O chefe do Ministério Público Federal destaca que naquele dia ‘nenhum dos atuais colaboradores, direta ou indiretamente, haviam buscado tratativas com a Procuradoria-Geral da República para iniciar negociação de acordo penal, fato esse que só veio a acontecer por volta de 27 de março deste ano’.

“Em alguns trechos, Ricardo Saud afirma que já estaria “ajeitando” a situação do grupo empresarial J&F com o então procurador da República Marcelo Miller, bem como que Marcelo Miller estaria “afinado” com eles. Em determinada passagem, os interlocutores afirmam que, quando da deflagração da operação “Carne Fraca”, Marcelo Miller teria enviado extensa mensagem para Francisco de Assis e Silva tentando justificar a situação”, destaca Janot.

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Apuração. A delação dos executivos da J&F previa prazo de 120 dias, a partir da homologação, para que os colaboradores reunissem e entregassem elementos de provas sobre os depoimentos prestados em abril perante a Procuradoria-Geral da República para que não fossem acusados de omissão.

O Ministério Público Federal informou que consta ‘do vasto material entregue à PGR diversos áudios, um dos quais possui cerca de quatro horas de duração, aparentemente gravado em 17 de março deste ano, e traz uma conversa entre os colaboradores Joesley Batista e Ricardo Saud’.

“Apesar de partes do diálogo trazerem meras elucubrações, sem qualquer respaldo fático, inclusive envolvendo o Supremo Tribunal Federal e a própria Procuradoria-Geral da República, há elementos que necessitam ser esclarecidos”, diz nota da Procuradoria-Geral da República.

“Exemplo disso é o diálogo no qual falam sobre suposta atuação do então procurador da República Marcello Miller, dando a entender que ele estaria auxiliando na confecção de propostas de colaboração para serem fechadas com a Procuradoria-Geral da República. Tal conduta configuraria, em tese, crime e ato de improbidade administrativa.”

Rodrigo Janot determinou na data de hoje a abertura de investigação ‘devido a essa omissão de fatos possivelmente criminosos nos depoimentos tomados na colaboração em abril’.

“Pelo acordo, o colaborador está obrigado a falar sobre todas as condutas criminosas de que tem conhecimento”, afirma o Ministério Público Federal. “Eventual revisão do acordo não implica nulidade de provas já produzidas em investigações, mas pode ter reflexos na premiação, inclusive com a perda total dos benefícios.”

COM A PALAVRA, MARCELO MILLER

A reportagem não conseguiu localizar o ex-procurador Marcelo Miller. O espaço está aberto para manifestação.

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