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Engevix

‘Malinha de rodinha’ levou propina ao Diretório Nacional do PT, diz delator

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

21/01/2016, 20h11

   

Lobista Milton Pascowitch, um dos delatores da Lava Jato, afirmou que 'cabia R$ 500 mil' na bagagem; ele afirmou que dinheiro saiu de um total de R$ 14 milhões de 'comissão' sobre um contrato de US$ 3 bi de cascos replicantes da Engevix na Petrobrás

João Vaccari estava preso na PF, em Curitiba. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

João Vaccari estava preso na PF, em Curitiba. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

Em interrogatório na Justiça Federal do Paraná, o lobista Milton Pascowitch, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou que entregou propinas em ‘uma malinha de rodinha’ ao ex-tesoureiro João Vaccari Neto, no Diretório Nacional do PT, em São Paulo. O dinheiro, relatou Pascowitch, saiu de um total de R$ 14 milhões de ‘comissão ao grupo político’ sobre um contrato de US$ 3 bilhões de cascos replicantes da Engevix na Petrobrás.

Faziam parte do ‘grupo político’, segundo Pascowitch, Vaccari, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (Governo Lula), seu assessor Roberto ‘Bob’ Marques, o irmão do ex-ministro Luiz Eduardo de Oliveira e Silva e o empresário Fernando Moura, ligado ao PT.

Milton Pascowitch em fevereiro de 2015, quando prestou depoimento à PF. Foto: Sérgio Castro/AE

Milton Pascowitch em fevereiro de 2015, quando prestou depoimento à PF. Foto: Sérgio Castro/AE

Milton Pascowitch é pivô da deflagração da Operação Pixuleco que levou Dirceu à prisão. O lobista é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

“(As entregas), fazia através de uma malinha que eu tenho, com rodinha. R$ 500 mil cabia. (Entregava) dentro do diretório nacional do PT, na sala dele”, declarou.

Pascowitch contou que, no fim de 2009, foi apresentado a João Vaccari pelo então diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque. Segundo o delator, nesta época, se deu a assinatura do contrato de US$ 3 bilhões dos cascos replicantes da Engevix com a estatal.

O lobista afirmou que naquele ano o grupo político influente no setor não era mais representado por Dirceu, ‘apesar de poder indiretamente ter participação, mas não é de meu conhecimento’. Pascowitch disse que o grupo passou a ser representado por João Vaccari.

“A liquidação das comissões do contrato dos cascos se deu exclusivamente com o João Vaccari”, relatou. “Isso coincide com as eleições de 2010 e com a necessidade de recursos na data zero. O contrato dos cascos se desenvolveria em sete anos. Foi feito um acordo e se diminuiu esse porcentual para que ele pudesse ser liquidado durante o ano de 2010. Não foi bem assim, porque ultrapassou, passou 2011 também. Mas foi fechado um valor de R$ 14 milhões como comissões a serem pagas em referência ao contrato dos cascos.”

No depoimento, Pascowitch declarou que os valores da propina seriam repassados ‘conforme a disponibilidade ou mais ou menos o faturamento do contrato dos cascos’. De acordo com o lobista, foram feitas, ‘contribuições políticas da Engevix no montante de R$ 4 milhões’. Os R$ 10 milhões restantes foram repassados em dinheiro entre o fim de 2009 e o meio de 2011.

“Essas doações eleitorais eram abatidas do montante da propina”, sustentou.

Em sua delação premiada, Milton Pascowitch declarou que também intermediou propinas a José Dirceu com dinheiro que ele tinha das empresas Hope Recursos Humanos e Personal. Nesta quarta-feira, 20, na Justiça Federal, ele afirmou que recebia montantes de ‘R$ 700 mil, R$ 800 mil, mas que na média era perto de R$ 600 mil’, provenientes de ‘contratos de serviços terceirizados no compartilhado da Petrobrás’.

“A Hope me pagava em São Paulo, na maioria das vezes, e muitas vezes eu saía do escritório da Hope e ia entrar ao João Vaccari. Algumas vezes eu trazia até um complemento desses valores que eu tinha no Rio de Janeiro”, contou. “(João Vaccari) necessitava de recursos livres, de dinheiro, de pagamento em dinheiro. Eu fazia essa transferência para ele, então, dos recursos que eu recebia, que não eram de minha propriedade, mas que seriam uma parte do Duque, uma parte do Fernando (Moura, lobista e também delator da Lava Jato), uma parte do José Dirceu. E depois me ressarcia em contratos específicos junto ao grupo Engevix.”

O juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato na 1ª instância, questionou Pascowitch sobre a ciência de um dos donos da Engevix acerca da propina paga a políticos e dirigentes da Petrobrás. “Lógico, sabia. Esse valor era sabido, eu informava ao Gérson que tinha entregue X mil reais para o João Vaccari, ele passava, então, uma autorização para o Cristiano Kok (outro dono da empreiteira) elaborar um contrato de prestação de serviços. O José Adolfo, meu irmão, sentava com o Cristiano Kok e assinava esses contratos e nós éramos ressarcidos desses valores pagos”, relatou.

Segundo ele, esses contratos não estavam vinculados a nenhuma obra.

“Eles têm uma característica, que é a rubrica 4000, da Engevix, vinculada à vice-presidência da empresa e tem escopos completamente diferentes da nossa atuação e tem uma característica principal, que é a do pagamento à vista. Toda nossa remuneração, por exemplo, Cacimbas, começou 2007 e terminou em 2011. Nesse caso de reposição de valores pagos de propina, eles têm vencimento à vista, eles sempre foram pagos em uma parcela só”, disse.

Para o criminalista Roberto Podval, que defende Dirceu, o depoimento do delator ‘foi confuso’. Podval nega taxativamente que o ex-ministro tenha recebido recursos ilícitos.

O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende João Vaccari Neto, tem reiterado que o ex-tesoureiro do PT, jamais arrecadou valores ilícitos para o partido. “Todas as captações foram absolutamente legais e repassados ao PT, com declaração à Justiça eleitoral”, afirma D’Urso.

COM A PALAVRA, O PT

“Todas as doações recebidas pelo PT foram realizadas estritamente dentro da legalidade e posteriormente declaradas à Justiça.”

 

 

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