Malafaia chega à PF para depor

Malafaia chega à PF para depor

Pastor é alvo de mandado de condução na Operação Timóteo por suspeita de lavar dinheiro para esquema de fraudes de royalties

Fausto Macedo, Julia Affonso e Mateus Coutinho

16 Dezembro 2016 | 16h47

O pastor Silas Malafaia chega para depor na sede da Polícia Federal da Lapa onde é alvo de investigação na Operação Timóteo, deflagrada em 16 de dezembro. Foto: JF Diorio/Estadão

O pastor Silas Malafaia chega para depor na sede da Polícia Federal da Lapa onde é alvo de investigação na Operação Timóteo, deflagrada em 16 de dezembro. Foto: JF Diorio/Estadão

O pastor Silas Malafaia chegou à Polícia Federal em São Paulo na tarde desta sexta-feira, 16, para depor sobre as suspeitas que pesam contra ele de lavar dinheiro de um esquema de fraudes de royalties.
Alvo da Operação Timóteo, o pastor tem contra si um mandado de condução coercitiva, expedido pela Justiça Federal em Brasília. Ele é investigado por supostamente receber valores do principal escritório de advocacia investigado no caso.

Mafalaia está em São Paulo, onde inaugurou uma igreja no último fim de semana, segundo informou a área de comunicação da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que preside.

A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que Malafaia teria emprestado contas correntes de uma instituição religiosa sob sua influência com a intenção de ocultar a origem ilícita de valores.

À entrada da PF, Malafaia afirmou que recebeu uma ‘doação pessoal’ no valor de R$ 100 mil. Ele negou envolvimento com o esquema desmontado pela Timóteo.

Segundo o pastor, um empresário foi apresentado a ele por um outro pastor. Ele disse que ‘orou’ pelo empresário que, depois, fez a doação de R$ 100 mil por meio de um depósito em sua conta pessoal. Malafaia afirma ter recolhido os impostos referentes à ‘doação’.

Pastor Silas Malafaia. Foto: JF Diorio/Estadão

Pastor Silas Malafaia. Foto: JF Diorio/Estadão

Antes de entrar no prédio da PF, no bairro da Lapa, o pastor declarou que sofre uma ‘perseguição’ da Justiça. Alegou que em várias ocasiões defendeu responsabilização dos exageros do Judiciário.

Possesso, Malafaia disse que é alvo de ‘uma safadeza, uma molecagem’. Ele esbravejou. “Estou desafiando a provarem que eu estou envolvido com esses canalhas, meta eles na cadeia.”

O pastor declarou apoio à maior investigação já desfechada no País contra a corrupção. “Sou a favor da Lava Jato, sou a favor de uma Justiça forte, mas não prá isso, prá pegar um cidadão que não tem nenhuma acusação e tentar denegrir a sua imagem diante da opinião pública. Essa é que é a verdade.”

Sobre a Operação Timóteo, que o envolve em suposta lavagem de dinheiro, o pastor foi enfático. “Eu recebo cheque de várias pessoas, pessoal, cheque prá igreja, prá minha associação. Quer dizer que um pastor ou um padre que recebe uma oferta depositada em conta de um traficante quer dizer, então, que o pastor ou o padre é traficante? Onde é que vamos parar?”

Ele se queixou do fato de a Justiça não o intimar para depor. “É uma tentativa de me denegrir porque têm interesses por trás, porque eu me posiciono, porque eu me coloco.”

O diretor do Departamento Nacional de Produção Mineral, Marco Antonio Valadares Moreira, e a mulher dele foram presos pela PF. A Timóteo envolve ainda Alberto Jatene, filho do governador do Pará, Simão Jatene (PSDB).

Os policiais fizeram buscas e apreensões em 52 diferentes endereços relacionados a um esquema de corrupção em cobranças judiciais de royalties da exploração mineral (65% da chamada Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais – CFEM – tem como destino os municípios). Em 2015, os valores recolhidos a título de CFEM chegaram a quase R$ 1,6 Bilhão.

A Timóteo investiga se o diretor do Departamento Nacional de Produção Mineral, detentor de informações privilegiadas a respeito de dívidas de royalties, oferecia os serviços de dois escritórios de advocacia e uma empresa de consultoria a municípios com créditos de CFEM junto a empresas de exploração mineral.

O juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da Justiça Federal de Brasília, determinou ainda que os municípios se abstenham de realizar quaisquer atos de contratação ou pagamento aos três escritórios de advocacia e consultoria sob investigação.

De acordo com a Polícia Federal, o esquema se dividia em ao menos 4 grandes núcleos: o núcleo captador, formado por um Diretor do DNPM e sua mulher, realizava a captação de prefeitos interessados em ingressar no esquema; o núcleo operacional, composto por escritórios de advocacia e uma empresa de consultoria em nome da esposa do Diretor do DNPM, que repassava valores indevidos a agentes públicos; o núcleo político, formado por agentes políticos e servidores públicos responsáveis pela contratação dos escritórios de advocacia integrantes do esquema; e o núcleo colaborador, que se responsabilizava por auxiliar na ocultação e dissimulação do dinheiro.

A Operação Timóteo começou ainda em 2015, quando a então Controladoria-Geral da União enviou à PF uma sindicância que apontava incompatibilidade na evolução patrimonial de um dos diretores do DNPM. Apenas esta autoridade pública pode ter recebido valores que ultrapassam os R$ 7 milhões.

O nome da operação é referência a uma passagem do livro Timóteo, integrante da Bíblia Cristã: 9 Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição.

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