Lula X Moro parte II tem clima tranquilo nas ruas e tensão pós-Palocci na audiência

Mobilização de petistas em Curitiba nesta quarta, 13, é menor do que a de maio no primeiro interrogatório do ex-presidente ao juiz da Lava Jato, mas novo depoimento - marcado para às 14h - deve ser quente e dominado por revelações de 'pacto de sangue' de R$ 300 milhões em propinas ao PT

Ricardo Brandt, Ricardo Galhardo, Elisa Clavery e Francisco Carlos de Assis, enviados especiais a Curitiba

13 Setembro 2017 | 12h42

Lula. Foto: Nacho Doce/Reuters

Se do lado de fora do prédio com vidros negros espelhados da Justiça Federal, no aprazível bairro Ahú, em Curitiba, a quarta-feira, 13, iniciou tranquila, do lado de dentro, na sala de audiências da 13ª Vara Federal, em que Luiz Inácio Lula da Silva será interrogado pela segunda vez como réu da Lava Jato pelo juiz federal Sérgio Moro, a tarde deve ser de tensão e muito bate-boca.

O ex-presidente será interrogado em ação penal em que é acusado de crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo recebimento de propinas da Odebrecht, de forma dissimulada, com a doação de um terreno de R$ 12 milhões para o Instituto Lula e de um apartamento de R$ 500 mil vizinho ao que ele mora, em São Bernardo do Campo (SP). O Ministério Público Federal sustenta que era contrapartida por contratos na Petrobrás.

Lula, o herói do povo brasileiro, chega à capital da Lava Jato pela segunda vez – em 10 de maio, ele foi interrogado pela primeira vez por Moro – embalado por sua caravana pelo Nordeste, em que colocou nas ruas sua pré-campanha de candidato a presidente em 2018, mas no calor do impacto causado pela confissão de Palocci.


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O principal fator que eleva a expectativa de uma audiência tensa, é a confissão e as revelações de seu ex-braço direto Palocci. O ex-ministro da Fazenda e ex-Casa Civil incriminou Lula ao ser interrogado por Moro na quarta-feira, 6, no mesmo processo. O encontro marcado com Moro começa às 14h – os vídeos da audiência devem ser tornados públicos ainda hoje à noite.

Palocci falou de um suposto “pacto de sangue” entre o ex-presidente e o empresário Emílio Odebrecht – o patriarca da maior delação da Lava Jato – feito em 2010 em que foi disponibilizado “R$ 300 milhões para os projetos políticos” do PT e Lula, em troca da garantia de “relações fluídas” da empresa com o governo Dilma Rousseff, de acertos para repasse do terreno do Instituto, do apartamento de São Bernardo e confirmou o envolvimento direto do petista com a corrupção na Petrobrás.

“Eu disse para ele (Lula), ‘nosso ilícito com a Odebrecht já está monstruoso. Se nós fizermos esse tipo de operação vamos criar uma fratura exposta desnecessária”, afirmou Palocci a Moro.

Também réu no processo contra Lula e em tratativas com o Ministério Público Federal para uma delação premiada, o ex-ministro afirmou que decidiu colaborar com a Justiça para buscar benefícios de redução de pena – Palocci está preso desde outubro em Curitiba e condenado a 12 anos de prisão, além de ser réu e investigado em outros procedimentos criminais da Lava Jato.

Moro chega á Justiça. FOTO WERTHER SANTANA/ESTADAO

Confronto. O juiz federal Sérgio Moro está no prédio da Justiça Federal desde às 10h – horário que costuma chegar para o trabalho. Entrou em um carro blindado com seguranças da Justiça.

A audiência deve ser gravada em dois planos de imagem, como foi feito no primeiro interrogatório de Lula em maio, no processo do tríplex do Guarujá (SP), em que o ex-presidente foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão – ele recorre em liberdade – por receber propinas da OAS.

Advogados e investigadores da Lava Jato ouvidos pela reportagem disseram esperar clima tenso e muito bate-boca entre o advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins, e Moro. Na primeira audiência em maio, muitas interrupções, tons elevados de vozes e troca de acusações dominaram o interrogarório.

Moro vai confrontar Lula com as revelações de Palocci e também dos empresários Marcelo Odebrecht e seu pai, Emílio Odebrecht – em maio, quando foi ouvido pela primeira vez, o foco era a corrupção ligada à OAS.

Dessa vez, Lula vem com a experiência da primeira audiência, embalado por sua pré-campanha e com a condenação dada por Moro no processo de tríplex. O ex-presidente viajou para Curitiba de carro – em maio, usou um avião e estava com a ex-presidente Dilma – e dormiu na residência de um amigo.

O PT espera 5 mil pessoas para um ato em defesa do ex-presidente marcado para as 19h, em uma praça na região central de Curitiba. Desde cedo, os cerca de 40 ônibus com manifestantes chegam à cidade. Os apoiadores concentram-se no local do evento e no entorno do prédio da Justiça Federal, que está bloqueado.

Cerca de 1 mil policiais fecharam as ruas de acessos às 19h30 e só moradores, imprensa e quem trabalha ou precisa ir ao fórum pode entrar no perímetro. Em maio, no primeiro depoimento de Lula, cerca de 10 mil pessoas invadiram Curitiba, para manifestações.

Minimizou. O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, vice-presidente do PT, disse hoje em entrevista coletiva na sede do PT do Paraná que o momento político é diferente do primeiro depoimento, em maio, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o PT agora tem uma agenda ofensiva iniciada pela caravana do Nordeste.

“Além disso, hoje quem tem que se explicar é o Judiciário. Moro teve que explicar sobre recursos de um advogado para o escritório da mulher dele. O Ministério Público Federal em Brasília teve que se explicar sobre o mau uso do instrumento da delação premiada e outros partidos estão tendo que se explicar sobre malas de dinheiro”, disse Padilha.

Segundo o ex-ministro, o Judiciário tem tentado politizar o processo contra Lula e, se for o caso, o PT vai responder na mesma moeda. “Quem conduz o depoimento é o magistrado. Se ele continuar fazendo palco político, se tentar politizar, vamos politizar também”, afirmou o ex-ministro.

Padilha minimizou o depoimento de Palocci. “Se alguém pensou que Palocci tinha bala de prata ele tinha só uma bala de festim.”