Léo Pinheiro admite reformas da OAS também no sítio de Atibaia ‘a pedido de Lula’

Léo Pinheiro admite reformas da OAS também no sítio de Atibaia ‘a pedido de Lula’

Empreiteiro foi interrogado sobre o triplex do Guarujá, mas incluiu em seu relato ao juiz Moro detalhes das obras no imóvel rural no interior de São Paulo cuja propriedade a Lava Jato atribui a Lula

Luiz Vassallo e Ricardo Brandt

20 Abril 2017 | 20h50

Foto: Leo Barrilari/EFE

Foto: Leo Barrilari/EFE

O ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, confessou, nesta quinta-feira, 20, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, no âmbito da ação penal que se refere ao caso triplex no Guarujá, que a OAS, a pedido do ex-presidente Lula, realizou reformas no sítio em Atibaia.

A Lava Jato sustenta que o sítio em Atibaia, no interior de São Paulo, é patrimônio oculto do ex-presidente Lula, registrado em nome de dois sócios de seus filhos. Lula nega.

O empreiteiro relatou que se encontrou inicialmente com Paulo Okamotto, na sede do Instituto Lula, onde a ele foi explicado que seria necessária uma ‘modificação’ no imóvel. Em seguida, Léo Pinheiro teria conversado com o ex-presidente, que, teria apontado problemas relacionados a uma ‘barragem’ e ‘dois lagos’.


“Ele disse: ‘olha você podia mandar alguém no sábado lá, eu vou estar lá’. Eu disse: ‘eu vou’. Fui eu e o Paulo Gordilho, que era diretor de engenharia e da OAS Empreendimentos. O presidente combinou comigo, já que eu não sabia onde ficava, que, no primeiro pedágio da Fernão Dias, eu o aguardasse. Ele passaria e eu seguiria o carro em que ele estava. Isso foi o que aconteceu. Chegando, fizemos uma visita à sede do sítio”.

Léo Pinheiro relatou ter presenciado outra reunião, desta vez no apartamento de Lula em São Bernardo do Campo, em um sábado, ao lado de Paulo Gordilho, o petista e a ex-primeira dama, onde teriam sido discutidos ‘alguns detalhes que faltavam do triplex e alguns do sítio’.

“Nessa data, ficou acordado que tudo que era pedido estava atendido e que poderíamos prosseguir no triplex e com todas as reformas que tinham sido acordadas e solicitadas por ele”, lembrou.

A defesa do ex-presidente chegou a questionar Moro sobre o fato de que Léo Pinheiro falava sobre o sítio de Atibaia em meio a um depoimento relacionado exclusivamente ao caso triplex.

O ex-presidente da OAS ainda relatou outra ida ao Instituto Lula, em meados de julho de 2014. Na ocasião, o presidente teria pedido a Léo Pinheiro que enviasse alguém, acompanhado de dona Marisa, novamente ao sítio. “Se formos tratar de outros imóveis, me parece que vossa excelência está mudando o padrão anterior e tratando de algo que não é de objeto da ação penal”.

No entanto, procuradores rebateram a questão apontando que ‘na página 122 da denúncia’, havia ‘menção expressa à aprovação junto à Dama dos projetos tanto de Guarujá quanto do sitio’.

O Ministério Público Federal entende que a “Dama”, que aparece em trocas de mensagens de responsáveis pelas reformas do triplex, seria a ex-primeira-dama Marisa Letícia, falecida em fevereiro deste ano.

“Está indeferida a questão, eu já esclareci, não é questão de ampliar objeto, estamos discutindo a prova, e se houve atos comuns e isso que ele está tentando explicar, nos temos que ouvir sobre os atos comuns, não podemos fazer cisão da prova neste sentido”, concluiu Moro.

O empresário Léo Pinheiro, presidente da OAS, foi preso pela primeira vez em novembro de 2014, oito meses após a deflagração da Operação Lava Jato. Condenado a 26 anos por prisão por corrupção lavagem de dinheiro e organização criminosa no esquema de corrupção da Petrobrás, Léo Pinheiro é amigo pessoal de Lula e, segundo testemunhas – incluindo a empresa responsável pelas reformas do imóvel paga pela OAS – ele teria visitado o apartamento com a ex-primeira dama Marisa Letícia e o filho do ex-presidente, Luís Cláudio.

O empreiteiro e o petista são réus em ação penal que investiga se Lula teria recebido propinas de R$ 3,7 milhões da OAS – parte teria sido por meio de investimentos no imóvel do condomínio Solaris. Em outro inquérito, a Polícia Federal também suspeita de que o Sítio Santa Bárbara, em Atibaia, teria sido reformado pela OAS e pela Odebrecht para benefício do ex-presidente Lula.

COM A PALAVRA, O EX-PRESIDENTE LULA

“Léo Pinheiro no lugar de se defender em seu interrogatório, hoje, na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, contou uma versão acordada com o MPF como pressuposto para aceitação de uma delação premiada que poderá tirá-lo da prisão. Ele foi claramente incumbido de criar uma narrativa que sustentasse ser Lula o proprietário do chamado triplex do Guarujá. É a palavra dele contra o depoimento de 73 testemunhas, inclusive funcionários da OAS, negando ser Lula o dono do imóvel”.

“A versão fabricada de Pinheiro foi a ponto de criar um diálogo – não presenciado por ninguém – no qual Lula teria dado a fantasiosa e absurda orientação de destruição de provas sobre contribuições de campanha, tema que o próprio depoente reconheceu não ser objeto das conversas que mantinha com o ex-Presidente. É uma tese esdrúxula que já foi veiculada até em um e-mail falso encaminhado ao Instituto Lula que, a despeito de ter sido apresentada ao Juízo, não mereceu nenhuma providência”.

“A afirmação de que o triplex do Guarujá pertenceria a Lula é também incompatível com documentos da empresa, alguns deles assinados por Léo Pinheiro. Em 3/11/2009, houve emissão de debêntures pela OAS, dando em garantia o empreendimento Solaris, incluindo a fração ideal da unidade 164A. Outras operações financeiras foram realizadas dando em garantia essa mesma unidade. Em 2013, o próprio Léo Pinheiro assinou documento para essa finalidade. O que disse o depoente é incompatível com relatórios feitos por diversas empresas de auditoria e com documentos anexados ao processo de recuperação judicial da OAS, que indicam o apartamento como ativo da empresa”.

“Léo Pinheiro negou ter entregue as chaves do apartamento a Lula ou aos seus familiares. Também reconheceu que o imóvel jamais foi usado pelo ex-Presidente”.

“Perguntado sobre diversos aspectos dos 3 contratos que foram firmados entre a OAS e a Petrobras e que teriam relação com a suposta entrega do apartamento a Lula, Pinheiro não soube responder. Deixou claro estar ali narrando uma história pré-definida com o MPF e incompatível com a verdade dos fatos”.

Cristiano Zanin Martins

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