Lava Jato ‘traduz’ anotações de Marcelo Odebrecht

Lava Jato ‘traduz’ anotações de Marcelo Odebrecht

No celular do maior empreiteiro do País, preso há 121 dias, investigadores encontraram mensagens que podem indicar 'risco à investigação pelo emprego de métodos ilícitos, como destruição de provas'

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

20 Outubro 2015 | 05h00

Marcelo Odebrecht. Foto: Enrique Castro/Reuters

Marcelo Odebrecht. Foto: Enrique Castro/Reuters

Os procuradores da República ‘traduziram’, na nova denúncia contra a cúpula da Odebrecht, as anotações do presidente da maior empreiteira do País, Marcelo Bahia Odebrecht, feitas em seu celular pessoal. O telefone do executivo foi apreendido na deflagração da Operação Erga Omnes, 14ª fase da Lava Jato, em 19 de junho, quando ele foi preso.

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No aparelho, os investigadores descobriram mensagens cifradas com supostas estratégias de Marcelo Odebrecht contra a Lava Jato. Para o Ministério Público Federal, as anotações apontam que o executivo tinha ‘conhecimento, controle e gestão’ sobre ‘as operações de lavagem de dinheiro da Odebrecht por intermédio de pagamentos efetuados em contas bancárias abertas em paraísos fiscais’.


“Embora ao efetuar tais anotações em seu aparelho de celular Marcelo Odebrecht tenha lançado mão a acrônimos, siglas e também palavras cifradas, é possível delas depreender, com uma larga margem de segurança, sobretudo diante do contexto geral em que tais escritos foram feitos (Lava Jato ou LJ), que Marcio Faria, Rogério Araújo e Marcelo Odebrecht detinham pleno conhecimento e controle sobre as operações de lavagem de dinheiro da Odebrecht no exterior, em larga medida por intermédio de contas situadas na Suíça”, aponta a denúncia.

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Nesta segunda-feira, 19, o juiz federal Sérgio Moro decretou nova prisão preventiva de Marcelo Odebrecht e dos executivos Rogério Araújo e Márcio Faria, ligados à empreiteira. O magistrado citou as anotações do presidente da empreiteira em sua decisão. “O risco à investigação e à instrução pelo emprego de métodos ilícitos, como destruição de provas e interferência na investigação, é, diante dessas mensagens, evidente.”

Os procuradores da República atribuem, nesta nova acusação contra o empresário e os executivos Rogério Araújo, Marcio Faria, César Ramos Rocha, ligados à Odebrecht, suposto pagamento de R$ 137 milhões em propinas em oito contratos com a Petrobrás, entre 2004 e 2011. A força-tarefa imputa a eles a prática de 64 crimes.

A nova denúncia montou uma tabela com as expressões usadas por Marcelo Odebrecht em uma coluna e a interpretação do Ministério Público Federal em outra, ‘diante do significado mais razoável’. Para a anotação ‘Swiss: Pic (declarar ctas já) RA, PKB…)’, a força-tarefa ‘traduziu’ como ‘Swiss = Suíça (Contas bancárias na Suiça)’.

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“Em outro comentário feito por Marcelo Odebrecht em seu celular, mais especificamente na anotação de número 9970, extrai-se a seguinte expressão: “PRC/Suíça. PV?”. Conforme bem apontado no Relatório de Análise Policial nº 417, possivelmente se trata de alusão a conta bancária mantida pela Odebrecht, em favor de Paulo Roberto Costa (PRC), no Banco Pictet & Cie Banquiers, na Suíça, onde Patrick Valiton (PV) trabalha”, destaca a denúncia. “Os dados extraídos da memória deste aparelho de celular, pertencente e utilizado por Marcelo Odebrecht, revelam a sua total responsabilidade sobre as operações de lavagem ora descritas, assim como de Rogério Araújo e Márcio Faria.”

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Segundo os procuradores, a Odebrecht pagou propina aos ex-diretores da Petrobrás Paulo Roberto Costa (Abastecimento) e Renato Duque (Serviços) e ao ex-gerente de Engenharia da estatal Pedro Barusco no exterior. O doleiro Bernardo Freiburghaus, apontado pela investigação como operador de propinas da Odebrecht, teria atuado na lavagem da propina.

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“A lavagem internacional de parte do dinheiro sujo auferido pela Construtora Norberto Odebrecht S.A e pela Braskem, em detrimento da Petrobrás, desenvolvida por Rogério Araújo, Márcio Faria, Marcelo Odebrecht e Bernardo Freiburghaus ao menos entre 18 de dezembro de 2006 a 6 de junho de 2014 deu-se mediante a realização de depósitos em contas titularizadas por offshores no exterior, mas controladas de fato ou pela própria Odebrecht, ou por operadores financeiros ou, ainda, pelos beneficiários finais das propinas oferecidas e efetivamente pagas pela Odebrecht, dentre os quais Paulo Roberto, Renato Duque e Pedro Barusco”, aponta o Ministério Público Federal.

Os procuradores da República que subscrevem a denúncia pedem que seja decretado o perdimento ‘do proveito e produto dos crimes’, em valor mínimo de cerca de R$ 137 milhões, além do pagamento de danos mínimos de R$ 275 milhões em favor da estatal referentes aos oito contratos.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“As defesas do executivo e dos ex-executivos da Odebrecht se pronunciarão na Justiça. Chama a atenção, no entanto, que essa nova denúncia do MPF tenha sido oferecida e aceita pela Justiça Federal horas após o Supremo Tribunal Federal conceder habeas corpus a um dos ex-executivos da empresa – e sem que tenham sido apresentados fatos novos em relação à denúncia anterior. Sobre a decretação de novas prisões preventivas, causa estranheza que a decisão, sem trazer novos elementos, insista em pontos já decididos pela corte suprema do país.”