Lava Jato descobre Altair, emissário de propinas de Eduardo Cunha

Lava Jato descobre Altair, emissário de propinas de Eduardo Cunha

Apontado pelo lobista e operador do PMDB Fernando Baiano, homem de confiança do presidente da Câmara teria a missão de retirar valores em espécie destinados ao deputado no esquema de corrupção na Petrobrás

Andreza Matais, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

18 Outubro 2015 | 10h36

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A descrição de Altair nos autos. Foto: Reprodução

A força-tarefa da Operação Lava Jato acredita ter identificado o misterioso ‘sr. Altair’, suposto emissário do deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para a retirada e transporte de valores de propinas junto a lobistas do esquema de corrupção instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014. Altair Alves Pinto, de 67 anos, que se identifica como ‘comerciante’, seria o personagem a quem o presidente da Câmara confiava as missões secretas para transportar dinheiro em espécie a ele destinado.

Altair foi citado pelo delator Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano – pivô do cerco a Eduardo Cunha – , como o enviado do peemedebista nessas ocasiões. Os investigadores verificaram que Altair frequentava o gabinete 510 na Câmara, usado por Eduardo Cunha.

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Nos autos do pedido de novo inquérito contra o presidente da Câmara, autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria-Geral da República anexou uma ficha com os dados pessoais de Altair. Uma foto dele foi mostrada a Fernando Baiano – apontado como operador de propinas do PMDB – ,em audiência realizada dia 15 de setembro de 2015. Baiano o reconheceu.

“Que mostrada a fotografia em anexo, o depoente (Baiano) espontaneamente identificou como sendo a pessoa de Altair, anteriormente mencionada no Termo de Colaboração número 3. Que se trata de Altair Alves Pinto, conforme dados qualificativos em anexo. Que Altair, conforme o depoente já esclareceu, é a pessoa que trabalhava para Eduardo Cunha e para quem o depoente fez diversas entregas de valores em espécie, destinadas ao referido parlamentar.”

Baiano foi taxativo. “Que reconhece Altair sem qualquer sombra de dúvidas, até mesmo porque esteve diversas vezes pessoalmente com ele, entre cinco e seis vezes.”

Trecho do depoimento de Fernando Baiano. Foto: Reprodução

Trecho do depoimento de Fernando Baiano. Foto: Reprodução

Em 10 de setembro, Baiano havia revelado a ação do braço-direito de Eduardo Cunha. Segundo ele, em certa ocasião, o deputado lhe sugeriu que procurasse ‘uma pessoa de nome Altair, no escritório dele (Cunha), na Avenida Nilo Peçanha, Rio’.

O delator contou à Procuradoria-Geral da República que entregou entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo a Eduardo Cunha como parte de uma propina total de US$ 5 milhões – paga com atraso ao parlamentar porque outro lobista, Júlio Camargo, ficou devendo. A propina era relativa à contratação de navio-sonda da Petrobrás. “Que, então,o depoente (Baiano) foi pessoalmente ao escritório de Eduardo Cunha, levando a quantia em espécie recebida, ou seja, entre um e um milhão e meio de reais.”

Ele foi questionado sobre a descrição de Altair. Respondeu: “Deve ter em tomo de 1,75m de altura, pouco cabelo, já grisalho, com bigode, com idade de aproximadamente 60 anos.”

Trecho de depoimento de Baiano. Foto: Reprodução

Trecho de depoimento de Baiano. Foto: Reprodução

Segundo Fernando Baiano, o emissário de Eduardo Cunha ‘aparentava ser um assessor ou uma pessoa de confiança, até mesmo porque todos os valores entregues no escritório foram para Altair’. Os repasses ocorreram em outubro de 2011.

“Em todos estes casos, o depoente (Baiano) recebia os valores e em pouco tempo os repassava para Eduardo Cunha”, prosseguiu o delator, conforme registrado pela Procuradoria-Geral da República. “Que todos os valores sempre (foram entregues) no escritório de Eduardo Cunha, para a pessoa de Altair.”

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Apenas uma vez não foi Altair o homem que retirou a propina. “Em uma oportunidade, Eduardo Cunha pediu para uma pessoa retirar os valores no escritório do depoente. Esta pessoa não era Altair, era um homem que possuía um nome diferente e que também trabalhava no escritório dele, pois já o tinha visto no escritório de Eduardo Cunha em outras oportunidades. Não sabe por qual motivo Eduardo Cunha mandou esta pessoa neste caso.”

O delator anotou que se recorda que uma vez o agente da Polícia Federal Jayme Careca – apontado como carregador de malas do doleiro Alberto Youssef, personagem central da Operação Lava Jato -, levou dinheiro vivo à sua residência, destinado ao deputado. Ele relatou que mandou uma mensagem pelo celular a Eduardo Cunha ‘questionando se queria que ele entregasse o valor na residência dele, tendo em vista que ambos (Baiano e Cunha) residem na Barra’.

“(O deputado) não quis que o depoente levasse o valor na residência dele, pedindo que procurasse e entregasse o valor a Altair na segunda-feira seguinte no escritório de Eduardo Cunha”, contou Fernando Baiano.

Ele disse acreditar ‘que não tenha mais tais mensagens trocadas com Eduardo Cunha até mesmo porque trocava seus celulares regulamente e, com a deflagração da Operação Lava Jato, se desfez de muita coisa’.

Baiano ressaltou que é provável que alguns aparelhos BBM seus tenham sido apreendidos em sua residência, quando foi preso, em novembro de 2014. Ele revelou que tinha ‘um aparelho celular especifico apenas para falar com determinadas pessoas, dentre elas Eduardo Cunha, sobre temas de valores ilícitos’. “Eu não gostava de falar nos outros aparelhos que utilizava regularmente.”