Lava Jato apura elos de offshores com Odebrecht e Andrade Gutierrez

Lava Jato apura elos de offshores com Odebrecht e Andrade Gutierrez

Empresas do Panamá e Uruguai seriam usadas para controlar contas que pagaram propina para ex-diretores e ex-gerente da Petrobrás, suspeitam investigadores

Redação

20 Junho 2015 | 18h22

Os presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, respectivamente, foram presos na nova fase da Lava Jato. Foto: Reuters e Estadão

Os presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, respectivamente, foram presos na nova fase da Lava Jato. Foto: Reuters e Estadão

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso

Três empresas offshores são investigadas pela força-tarefa da Operação Lava Jato nas buscas por mais provas do suposto envolvimento das construtoras Norberto Odebrecht e Andrade Gutierrez com o bilionário esquema cartel, corrupção e lavagem de dinheiro, que teria atuado na Petrobrás, entre 2004 e 2014. São empresas de papel abertas no Uruguai e Panamá para movimentar contas secretas, em especial na Suíça.

No caso da Odebrecht, principal alvo da Operação Erga Omnes – deflagrada nesta sexta-feira, 19, são duas offshores abertas no Panamá e no Uruguai: a Constructora Internacional Del Sur S.A. e a Hayley S.A., respectivamente.

Abertas por terceiros, as empresas foram criadas no papel fora do Brasil para movimentar valores de propina na mais sofisticada estrutura de lavagem de dinheiro encontrada até aqui pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal.

“Nas empreiteiras anteriores, os relacionamentos que foram denunciados são de um esquema relativamente simples e muito fácil de se comprovar, porque  era interno, aqui no nosso País”, afirmou o procurador da República Carlos Fernando Lima.

Trecho do pedido de prisão dos executivos da Odebrecht sobre propina paga a ex-diretor da Petrobrás

Trecho do pedido de prisão dos executivos da Odebrecht sobre propina paga a ex-diretor da Petrobrás

Personagem central para descobrir detalhes sobre o uso da Constructora Del Sur pela Odebrecht é o doleiro Bernardo Freiburghaus, apontado por delatores como operador de propinas da empreiteira – que mora na Suíça e é considerado foragido.

“A constatação de que a Constructora Internacional Del Sur efetuou depósitos nas contas off-shore de, pelo menos, três dirigentes da Petrobrás, Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento), Pedro Barusco (ex-gerente de Engenharia) e Renato Duque (ex-diretor de Serviços), permite concluir por sua ligação com o esquema criminoso de cartel e propinas que afetou a Petrobrás”, sustenta o juiz federal Sérgio Moro, em decisão que decretou as prisões dos executivos.

Documentos em poder da Lava Jato indicam que a Constructora Del Sur foi a origem de pelo menos cinco depósitos feitos em contas secretas do ex-diretor de Abastecimento. Freiburghaus seria o operador dessas contas.

Primeiro delator da Lava Jato, Costa confessou em setembro de 2014 que os US$ 23 milhões que ele tinha em conta secreta na Suíça – e que devolveu após acordo de delação – foram propina da Odebrecht.

Costa apontou as contas em nome das offshores Sygnus Assets S.A., no banco PKB PrivateBank S.A, Quinus Services S.A., no HSBC, Sagor Holding S.A., no Julius Baer e conta nº 016780-40, no Deutsche Bank como “controladas por Bernando Freiburghaus, mas pertencentes” a ele.

Um valor de US$ 9 milhões foi identifica numa dessas contas em outubro de 2012.

Trecho dos autos da Operação Erga Omnes sobre valores que Alberto Youssef atribui a Odebrecht

Trecho dos autos da Operação Erga Omnes sobre valores que Alberto Youssef atribui a Odebrecht

O doleiro Alberto Youssef, também delator da Lava Jato,  afirmou à Justiça Federal operacionalizou pagamentos de propinas para a Odebrecht, tendo mantido contato com os executivos Márcio Faria e Cesar Rocha. Nesse caso, o caminho percorrido pelos investigadores da Lava Jato segue outro destino: Hong Kong.  São contas de titularidade das offshores RFY e DGX, nos bancos Standart Chartered e HSBC, em Hong Kong, controladas pelo doleiro Leonardo Meirelles.

A área de Abastecimento era cota do PP, no esquema de indicações políticas na Petrobrás controlado por PT, PMDB e PP. Por meio dessas diretorias, partidos e políticos cobravam propinas de 1% a 3% do valor dos contratos da estatal.

Um grupo de 16 empreiteiras são apontados pela Lava Jato por agirem em conluio com os agentes públicos e políticos de forma cartelizada. Entre os líderes, além da Odebrecht e Andrade Gutierrez, estão outras gigantes do setor como OAS e Camargo Corrêa.

 

Elo PT. A Constructora Del Sur também está na mira das apurações envolvendo a Odebrecht e o suposto pagamento de propinas na área de Serviços, que era cota do PT, por meio do ex-diretor Renato Duque – preso em Curitiba, desde março.

Seu ex-braço direito, o então gerente de Engenharia Pedro Barusco, outro réu confesso da Lava Jato, confirmou o uso da Constructora Del Sur pela Odebrecht e deu o caminho do dinheiro. A conta da offshore Pexo Corporation, de sua propriedade. “O ex-gerente informou que a Odebrecht não realizava depósitos a partir de suas contas, utilizando-se de conta registrada em nome da offshore Constructora Del Sur”, informa a Polícia Federal.

deposito constructora e pexo

Laudo 0777/2015 da Polícia Federal identificou, a partir dos documentos bancários da Pexo Corporation “o efetivo depósito de USD 1.020.672,00 provenientes de conta corrente da Constructora Del Sur, mantida no Union des Banques Suisses AG (UBS AG)”.

O mesmo laudo identificou dois depósitos provenientes de conta da Constructora Del Sur mantida no Credicorp Bank S.A destinados à conta
da offshore Milzart Overseas Holdings Inc., no Banco Julius Baer, no Principado de Mônaco. “Renato Duque é o único beneficiário” dessa conta, sustenta a Lava Jato com base em documentos enviados no início do ano pelas autoridades de Mônaco.

depositos monaco duque construtora

depositos monaco duque constructora 2

A Constructora Del Sur foi dissolvida em 25 de agosto de 2014, cinco meses após ser deflagrada a fase ostensiva da Lava Jato, o que para o juiz federal é considerado suspeito.

Ex-executivo. Outra offshore alvo das investigações da Odebrecht é a Hayley S.A., aberta no Uruguai, e a Hayley do Brasil Empreendimentos e Participações por um ex-executivo da Odebrecht João Antonio Bernardi Filho – preso na Operação Erga Omnes.

“Há evidências da utilização, no esquema de pagamentos de propina, da empresa Hayley”, informa o MPF. A offshore foi quem pagou quadros de Renato Duque, conforme notas fiscais apreendidas na casa do ex-diretor de Serviços, no total de R$ 499 mil.

A  Hayley do Brasil, representada por Bernardi Filho, vendeu ainda à empresa D3TM Consultoria e Participações, aberta por Renato Duque após sair da Petrobrás duas salas comercias no Rio, em novembro de 2013. O valor registrado do negócio foi de R$ 770 mil.

O nome da offshore Hayley já era investigado da Lava Jato depois que o lobista Julio Gerin Camargo afirmou ter usado ela para pagar parte da propina de US$ 30 milhões para o lobista Fernando Antonio Falcão Soares, a Fernando Baiano, e ao ex-diretor de Internacional Nestor Cerveró – ambos presos e apontados como braços do PMDB.

“Camargo informou que a offshore Hayley S.A mantinha conta no Banque de Commerce et Placement, em Genebra, Suíça na qual depositou duas parcelas de aproximadamente USD 500 mil, nos meses de setembro e outubro de 2011, a pedido de Fernando Soares.”

Andrade Gutierrez. Nas apurações envolvendo a Andrade Gutierrez, uma offshore do lobista Fernando Baiano, a Technis Planejamento e Gestão em Negócios Ltda, é um dos elos da Lava Jato para apurar as movimentações de supostas propinas da empreiteira no exterior.

“A Andrade Gutierrez, nas informações que prestou à Receita Federal, informou ter contratado a empresa Technis Planejamento e Gestão em Negócios Ltda., pertencente à Fernando Baiano, sua irmã Claudia Soares Furlan e seu cunhado Armando Furlan Junior, para a suposta prestação de serviços no valor total de R$ 3,1 milhões.

“A quebra judicial de sigilo bancário da Tecnhis confirmou a transferência de pelo menos R$ 1.187.975,82 em 2007 da Andrade Gutierrez para aquela empresa (Technis), restando ainda obscuro o modo de repasse do remanescente”, escreveu Moro, ao pedir a prisão dos executivos da construtora.

andrade gutierrez technis

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Para a força-tarefa da Lava Jato, a “utilização da Technis Planejamento e Gestão em Negócios Ltda por Fernando Baiano para a lavagem dos recursos oriundos, imediatamente da Andrade Gutierrez e mediatamente da Petrobras, é clara”.

Defesas. A Construtora Norberto Odebrecht e a Andrade Gutierrez, por meio de notas, negam qualquer envolvimento em irregularidades e esquemas de propina. As duas infirmaram que colaboravam com as apurações e que as prisões são injustificadas. Tanto a Odebrecht como a Andrade Gutierrez sustentam que não há provas de irregularidades das empreiteiras relacionadas às offshores investigadas.

Os advogados das duas construtoras deve, apresentar nesse final de semana ainda pedidos de liberdade.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

A Construtora Norberto Odebrecht S.A. (CNO) esclarece que não possui, nem nunca possuiu, qualquer vínculo com a empresa  Construtora Internacional del Sur,  a qual não é, nem nunca foi de sua propriedade, ou de qualquer outra empresa controlada ou coligada da Organização. Esclarece ainda que nunca fez qualquer pagamento à referida empresa. Portanto, não são verdadeiras as notícias que vêm sendo veiculadas que atribuem à empresa a responsabilidade por pagamentos efetuados no exterior aos réus confessos Alberto Youssef e Pedro Barusco. A CNO esclarece que não tem qualquer vínculo com a empresa Haley SA e a Hayley do Brasil e que nunca fez qualquer pagamento às referidas empresas. A CNO esclarece que o executivo João Bernardi Filho não faz parte do quadro de funcionários da empresa há mais de uma década. Cristina Maria da Silva Jorge nunca fez parte do quadro de integrantes. A CNO não tem qualquer relação com as pessoas ou empresas citadas.

VEJA A ÍNTEGRA DA NOTA DIVULGADA PELA ANDRADE GUTIERREZ
“A Andrade Gutierrez informa que está acompanhando o andamento da 14ª fase da Operação Lava Jato e prestando todo o apoio necessário aos seus executivos nesse momento. A empresa informa ainda que está colaborando com as investigações no intuito de que todos os assuntos em pauta sejam esclarecidos o mais rapidamente possível. Este tem sido, inclusive, o procedimento da companhia desde o início das investigações, atendendo a convocações da Justiça ou comparecendo voluntariamente para apresentar documentos e prestar esclarecimentos, causando estranheza as prisões. A Andrade Gutierrez reitera, como vem fazendo desde o início das investigações, que não tem ou teve qualquer relação com os fatos investigados pela Operação Lava Jato, e espera poder esclarecer todos os questionamentos da Justiça o quanto antes.”

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