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Lava Jato aponta propina de Odebrecht também para Cerveró

Lava Jato aponta propina de Odebrecht também para Cerveró

Procuradores afirmam que Bernardo Freiburghaus, doleiro foragido na Suíça, realizou operação de dólar-cabo em favor de ex-diretor da Petrobrás; outro ex-dirigente da estatal, Paulo Roberto Costa, confessou ter recebido US$ 23 milhões

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Redação

07 Julho 2015 | 15h37

Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional da Petrobrás. Foto: André Dusek/ Estadão

Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional da Petrobrás. Foto: André Dusek/ Estadão

Atualizada às 16h33

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso

A força-tarefa da Operação Lava Jato suspeita que a Odebrecht pagou propinas também para o ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró, preso desde janeiro deste ano. A informação consta de manifestação do Ministério Público Federal. Em petição, nove procuradores da República reafirmam a necessidade da manutenção do decreto de prisão preventiva de executivos e do presidente Marcelo Bahia Odebrecht, todos da maior empreiteira do País, capturados pela Lava Jato em 19 de junho.

“A conta Forbal era conta de Nestor Cerveró, o que indica pagamentos da Odebrecht também em favor de Cerveró no exterior”, destacam os procuradores em referência a conta que o ex-diretor mantinha no Uruguai em nome da Forbal Investment Inc.

A Forbal Investment Inc é uma offshore constituída por Cerveró em 29 de abril de 2008, no paraíso fiscal de Belize, na América Central. Ele havia deixado a função estratégica na estatal um mês antes.

forbal

Cerveró foi condenado a 5 anos de prisão por lavagem de dinheiro e também é acusado de corrupção passiva – ele teria recebido US$ 30 milhões em propinas em contatos de navios-sonda da Petrobrás, em 2006 e 2007.

A suspeita nasceu do rastreamento de uma operação de dólar-cabo feita, segundo a força-tarefa, pelo suposto operador de propinas da Odebrecht Bernardo Freiburghaus no banco Julius Baer, na Suíça, e o estatístico Alexandre Amaral de Moura. Em depoimentos aos procuradores, em 30 de junho, Moura detalhou a transação em que autorizou as transferências de US$ 300 mil para a conta Forbal, de Cerveró, e de US$ 340 mil para a conta Quinus, do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa.

“As declarações de Alexandre Amaral dão conta de operação de dólar-cabo em que Bernardo Shiller (Freiburghaus) disponibilizou valores em espécie para Alexandre. Este tinha valores no exterior e pretendia trazer para o Brasil. Para operacionalizar essa internação, Alexandre entrou em contato com Bernardo. O último, ao invés de orientar o primeiro a fazer um contrato de câmbio, usou tal operação para dissimular pagamentos de propina da Odebrecht para Paulo Roberto Costa. Assim, Alexandre efetuou um depósito de U$ 340.000,00 a crédito da offshore Quinus Services, mantida por Paulo Roberto Costa no HSBC Private Bank da Suiça, da qual Bernardo era procurador. Esse crédito foi efetuado porque, simultaneamente, a Odebrecht queria remeter recursos para pagar propinas a Paulo Roberto Costa. Em contrapartida, no Brasil, Bernardo coletou recursos disponibilizados em espécie pela Odebrecht e entregou a Alexandre”, informa o Ministério Público Federal.

Os procuradores, baseados no relato de Moura, destacam ainda. “Esse tipo de operação feita por Bernardo é chamada de operação dólar cabo. Ela se notabilizou no caso Banestado e é um sofisticado método de lavagem de dinheiro usado pela Odebrecht. Trata-se de uma compensação financeira que quebra o rastro dos recursos. Caso alguém seguisse os recursos de Alexandre, no exterior, acabaria na conta de Paulo Roberto Costa, quando na verdade a transferência para este correspondeu a pagamento em espécie no Brasil. Caso alguém seguisse os recursos pagos em espécie no Brasil pela Odebrecht, acabaria chegando a Alexandre, quando na verdade eles eram meio para pagar Paulo Roberto Costa no exterior.”

O valor depositado na conta Quinus integra a fortuna de US$ 23 milhões em propinas pagas a Paulo Roberto Costa. O ex-diretor confessou o recebimento do dinheiro. Cerveró, oficialmente, sustenta que não tem envolvimento com o esquema de desvios na Petrobrás e negou diante do juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato, ter contas fora do Brasil.

Nesta segunda-feira, 6, os procuradores entregaram ao juiz Sérgio Moro o resultado do cruzamento de ligações telefônicas entre o diretor da Odebrecht Rogério Araújo, afastado do cargo após ser preso, e o operador de propinas Bernardo Freiburghaus, que está foragido na Suíça. São 135 telefonemas, registrados entre julho de 2010 e fevereiro de 2013 – neste período, a Odebrecht, segundo a força-tarefa, depositou os valores nas contas de Paulo Roberto Costa, na Suíça.

A Odebrecht tem nega reiteradamente envolvimento com o esquema de corrupção e cartel na Petrobrás. A empreiteira também nega relações com o doleiro foragido Bernardo Freiburghaus e afirma taxativamente que jamais pagou propinas a ex-dirigentes da Petrobrás.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT

“A CNO nega veementemente ter feito qualquer pagamento ou depósito para Nestor Cerveró ou para qualquer outro ex-dirigente da Petrobras — ou ainda para supostos intermediários, como é o caso, mais uma vez, da ilação feita na petição assinada por membros do Ministério Público Federal (MPF) do Paraná.  A Odebrecht lamenta, como tem denunciado seguidamente, a prática de tornar públicas para a imprensa informações descontextualizadas, que são convenientemente excluídas dos autos, impedindo a atuação da defesa em igualdade de condições em relação à acusação. Este estratagema, baseado em vazamentos seletivos para a imprensa, procura propagar rapidamente, sem direito ao contraditório, teses sem base em provas, apenas baseadas em ilações, como a da generalização de supostas condutas individuais.”

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