Lava Jato abre inquérito para corrupção no Comperj

Lava Jato abre inquérito para corrupção no Comperj

Força-tarefa aprofunda investigações sobre propinas, citadas por quatro delatores, em contratos do Complexo Petroquímico da Petrobrás no Rio; negócios foi dividido por cartel em tabela de 'bingo'

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

22 Setembro 2016 | 05h00

Obras do Comperj em fevereiro de 2014. Foto: Fábio Motta/Estadão

Obras do Comperj em fevereiro de 2014. Foto: Fábio Motta/Estadão

A Operação Lava Jato abriu novo inquérito para investigar corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), da Petrobrás.

A apuração da Polícia Federal busca aprofundar dados sobre o montante de propinas pagas nos contratos, citadas nas delações premiadas de quatros condenados – o dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, seu ex-funcionário Walmir Santana, o lobista Julio Camargo e o doleiro Alberto Youssef.

Documento


O inquérito foi instaurado no dia 12 de setembro pelo delegado da Polícia Federal Luciano Menin. “Tendo em vista que, por volta do ano de 2010, empresas formadoras do denominado Consórcio TUC (UTC Engenharia, Construtora Norberto Odebrecht e PPI-Toyo), envolvidas em esquema organizado de cartelização, foram contratadas pela Petrobrás para realização de obra no Comperj, sendo responsáveis pelo repasse de vantagens ilícitas a diretores da estatal e intermediários”, o delegado pele uma apuração específica sobre o caso.

“Providencie e junte aos autos cópia de termos de colaboração de Ricardo Pessoa, Julio Gerin Camargo, Walmir Pinheiro Santana e Alberto Youssef que tenham relação com as atividades ilícitas praticadas pelo Consórcio TUC junto a Comperj”, determinou o delegado.

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Em depoimento, Walmir Santana declarou à força-tarefa da Lava Jato que dinheiro desviado das obras do Complexo Petroquímico foi repassado para José de Filippi, ex-tesoureiro das campanhas presidenciais de Lula, em 2006, e Dilma em 2010, e também para o ex-ministro José Dirceu (R$ 1,69 milhão), além de R$ 1,8 milhão para campanhas do PT nas eleições municipais.

Durante as investigações da Lava Jato, a Polícia Federal apreendeu lista de torneio de bingo com divisão de obras no Comperj. O chamado “clube” das empreiteiras criou, segundo os documentos, o “Bingo Fluminense”. São tabelas em que pelo menos 16 empresas – todas alvos da Lava Jato – fatiaram entre elas as obras da unidade, por itens contratuais.

Nas tabelas, formatadas como planilhas de torneio com pontuação, há divisão de equipes, prêmios, datas e ainda anotações escritas à mão sobre as supostas combinações e registros escritos em computador sobre o fatiamento das obras. Nas planilhas do “clube”, as obras ou contratos são registrados como “Prêmio” e as construtoras são as “equipes”. Há ainda a identificação de itens que definem “prioridade” e “apoio” – um indicativo de quem era a beneficiada em quem auxiliava nas supostas fraudes.

O Comperj fica em Itaboraí, município fluminense. Segundo a Petrobrás, o objetivo do Complexo é expandir a capacidade de refino da estatal para ‘atender ao crescimento da demanda de derivados no Brasil, como óleo diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque e GLP (gás de cozinha)’.

Quando teve seu nome citado na Lava Jato, José de Filippi, ex-tesoureiro das campanhas presidenciais de Lula, em 2006, e Dilma em 2010, negou enfaticamente captação de valores ilícitos.

A defesa de José Dirceu reitera que o ex-ministro-chefe da Casa Civil de Lula nunca recebeu propinas do esquema desmantelado pela Operação Lava Jato.

A campanha de Dilma já afirmou reiteradamente que todos os recursos tiveram origem lícita e foram declarados à Justiça eleitoral.

 

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