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Cristina Mautoni

Justiça manda transferir mulher de lobista e advogado acusa PF de “chantagem”

Por Fábio Fabrini, Andreza Matais, de Brasília, e Fausto Macedo

16/01/2016, 06h00

   

Defesa de Mauro Marcondes afirma que delegado faz pressão para delação premiada

Mauro Marcondes. Foto: Divulgação

Cristina Mautoni é mulher e sócia do lobista Mauro Marcondes (foto). Foto: Divulgação

A Justiça determinou nesta sexta-feira, 15, que a empresária Cristina Mautoni, acusada de integrar esquema de compra de medidas provisórias no governo federal, deixe de cumprir prisão domiciliar e passe para o regime fechado. A ordem foi dada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal em Brasília, responsável pelos processos da Operação Zelotes.

Cristina é mulher e sócia do lobista Mauro Marcondes Machado, atualmente preso preventivamente na Penitenciária da Papuda, em Brasília, por suspeita de operar o suposto pagamento de propinas a agentes públicos para viabilizar as medidas provisórias. O caso foi revelado pelo Estado em outubro.

Na última segunda-feira, 11, antes de a Polícia Federal pedir a prisão, o lobista recebeu a visita do delegado Marlon Oliveira Cajado, um dos responsáveis pelas investigações. O advogado do casal, Roberto Podval, disse ao Estado que, no encontro, o policial “chantageou” seu cliente para que fizesse acordo de delação premiada. Conforme o defensor, a colaboração foi proposta como uma forma de Mauro Marcondes evitar a transferência de Cristina para uma unidade prisional.

Procurada, a assessoria de imprensa da PF informou que o delegado não comentaria as declarações do advogado.

Numa eventual delação, o lobista poderá contar detalhes de pagamentos feitos ao empresário Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mauro Marcondes e o petista têm uma ligação que remonta à década de 1980, quando um era executivo de montadora e o outro sindicalista no ABC. Os investigadores da Zelotes também querem dados sobre como o lobista atuou para viabilizar a compra, pelo governo federal, dos caças Grippen, da sueca Saab Aviation.

A prisão de Cristina foi decretada em outubro e, inicialmente, seria cumprida em regime fechado. Porém, com a anuência da PF e do Ministério Público Federal (MPF), a Justiça aceitou convertê-la em domiciliar para que ela se recuperasse de uma cirurgia. A decisão desta sexta-feira foi tomada com base em exames de uma junta médica, solicitados pelos investigadores, que atestaram as condições de saúde da acusada para seguir para o regime fechado.

A nova ordem de prisão, que por ora está sob sigilo, só deve ser divulgada após seu cumprimento. A mudança de regime é um dos principais fatores para que o casal considere o acordo de delação, como mostrou o Estado no último domingo. Mauro Marcondes completa 80 anos em 9 de abril e deve se valer de benefício que prevê, a partir dessa idade, que a prisão seja em regime domiciliar. A mulher dele, no entanto, tem 53 e não pode contar com essa possibilidade.

Podval afirma que o delegado visitou o lobista sem avisar a defesa, munido do resultado dos exames. “(Ele) foi sem meu conhecimento ao presídio e chantageou nosso cliente, dizendo que, caso não fizesse a delação, prenderiam sua mulher”, acusou.

Segundo o advogado, Mauro Marcondes respondeu que falaria com sua defesa a respeito. Diante da suposta pressão, o lobista teria passado mal. “Fui até a PF e avisei ao delegado que não vou tolerar essa conduta”, acrescentou Podval. Ele adianta que vai pedir uma certidão à Penitenciária da Papuda para atestar oficialmente a presença do delegado na segunda-feira,11, e, em seguida, tomará providências contra ele.

O defensor contou ter recebido uma ligação na terça-feira,12, do procurador da República Frederico de Carvalho Paiva, um dos investigadores da Zelotes, pedindo uma conversa. “Fui até o gabinete e ele (Frederico) propôs uma delação. Avisei que ele (Mauro Marcondes) tinha sido ameaçado pelo delegado. Ele (Frederico) fez que não era com ele e propôs um acordo”, relatou o advogado.

Podval explica que uma conversa entre o procurador e Mauro Marcondes sobre a delação foi marcada para a semana que vem. Ele confirma que uma eventual colaboração está sendo analisada pela defesa, mas alega que não aceita “constrangimento”.

Segundo Podval, após a suposta pressão, a PF e o MPF pediram a prisão de Cristina, deferida ontem. “Como se pode ver, estão tentando chantagear com a prisão. Como sabem que ele (Mauro Marcondes) tem uma filha de 14 anos, estão pressionando”, afirmou.

O MPF informou que não comentaria a possível negociação de acordo.

Mauro e Cristina são réus em ação penal que apura o suposto envolvimento do casal em corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Conforme denúncia oferecida pelo MPF, os dois operaram esquema de pagamento de propina para conseguir a edição, pelo governo, e a aprovação, pelo Congresso, de medidas provisórias que concediam incentivos fiscais a montadoras de veículos.

Como revelou o Estado, a Marcondes e Mautoni Empreendimentos, empresa que pertence ao casal, fez pagamentos de R$ 2,5 milhões à LFT Marketing Esportivo, do empresário Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula. Os investigadores da Zelotes suspeitam que os repasses tenham ligação com as medidas provisórias. Luís Cláudio sustenta que os valores se referem a serviços de consultoria prestados em sua área de atuação, o esporte.

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