Juiz afasta prefeito por contratos superfaturados com ONG Casa Espírita

Juiz afasta prefeito por contratos superfaturados com ONG Casa Espírita

Ministério Público do Rio investiga Marcos Aurélio Dias (PSDC), de Guapimirim, por improbidade administrativa; saques chegavam a R$ 1 milhão e dinheiro vivo era transportado em envelopes

Gabriela Caesar, especial para o Blog

05 Outubro 2015 | 16h43

Juiz decretou o afastamento do prefeito de Guapimirim (Rio), Marcos Aurélio Dias (PSDC), acusado de improbidade administrativa. Foto: Reprodução/ Facebook

Juiz decretou o afastamento do prefeito de Guapimirim (Rio), Marcos Aurélio Dias (PSDC), acusado de improbidade administrativa. Foto: Reprodução/ Facebook

O juiz Rubens Soares Sá Viana Junior decretou o afastamento do prefeito de Guapimirim (Rio), Marcos Aurélio Dias (PSDC), acusado pelo Ministério Público do Estado de improbidade administrativa. Marcos Aurélio Dias deixará o cargo por seis meses. As investigações apontam que a Prefeitura de Guapimirim firmava contratos supostamente superfaturados com a ONG Casa Espírita Tesloo, agora denominada Obra Social João Batista. A empresa era usada para terceirizar funcionários que prestavam serviços para a administração pública.

O afastamento foi ordenado dia 29. Na quinta-feira, 1, Wagj Faraht (PSL) assumiu o posto. Em nota oficial divulgada na sexta-feira passada, 2, o prefeito afastado afirmou que tem convicção de ter exercido o mandato ‘respeitando a população e os preceitos da democracia e da justiça’.

Com a saída do prefeito, o juiz acredita que possam ser esclarecidas “as reais condições dos servidores do município” ao ter acesso a documentos omitidos e possibilitar o depoimento isento dos funcionários. Caso haja fortes indícios de ‘utilização da máquina administrativa para intimidar servidores e prejudicar o andamento das investigações’, o juiz pode estender o período de afastamento do prefeito.


Ouvido na investigação do Ministério Público do Estado do Rio, um funcionário de banco considerou atípicos “vários saques” realizados por representantes da Tesloo e acrescentou que a organização continha crédito de aproximadamente R$ 3 milhões. “O referido funcionário noticiou que seriam incomuns as operações realizadas pela ONG (Casa Espírita Tesloo), em razão de expressivos saques em dinheiro vivo e sua retirada do banco e que esta seria a única cliente com tal perfil, bem como que permaneciam as contas recebendo recursos de Guapimirim, ao tempo do seu depoimento, em elevadas quantias em dinheiro”, destacou o juiz, em texto que pede o afastamento do prefeito.

A quantia dos saques chegava a R$ 1 milhão e era transportada em dinheiro vivo, em envelopes, segundo o MP-RJ. Ainda conforme o órgão, durante o mandato de Marcos Aurélio Dias, mais de R$ 65 milhões teriam sido repassados para a ONG, entre outubro de 2012 e março de 2015. O prefeito afastado era vice na chapa de Renato Costa Mello Junior, conhecido pelo nome Júnior do Posto (PTC), que comandou o município de 2009 a 2012. Em 2012, Júnior do Posto foi preso na operação “Os Intocáveis”, suspeito de desviar dinheiro dos cofres públicos. Entre os envolvidos, já constava a organização Tesloo. Na época, o então prefeito conseguiu liminar que garantiu liberdade, mas no ano seguinte um julgamento determinou sua inelegibilidade por oito anos.

Também são investigados a ex-presidente da Comissão Permanente de Licitações Odete Maria da Conceição Vieira, o ex-secretário municipal de Administração Isaias da Silva Braga, além de representantes e dirigentes da Tesloo.

Em julho de 2014, o MP-RJ abriu investigação para apurar a relação da ONG Tesloo com um esquema de corrupção na Secretaria de Assistência Municipal do Rio, pasta que tinha sido comandada pelo ex-secretário Rodrigo Bethlem (PMDB). O caso veio à tona quando a ex-mulher de Bethlem, Vanessa Felippe, denunciou que ele recebia propina da Tesloo, beneficiava empresas de ônibus e tinha dinheiro na Suíça. Vanessa sustentava suas acusações em gravações de vídeo e áudio de conversas com o ex-marido. O escândalo obrigou o ex-secretário a abandonar a candidatura a deputado federal. Em 2012, o Tribunal de Contas do Município já havia pedido para a Prefeitura do Rio não renovar convênios com a ONG.
Procurados, os responsáveis pela Casa Espírita Tesloo não responderam às ligações e aos e-mails da reportagem.

COM A PALAVRA, O PREFEITO AFASTADO DE GUAPIMIRIM
Em nota oficial divulgada na sexta-feira, 2, o prefeito afastado de Guapimirim Marcos Aurélio Dias (PSDC) afirmou que tem convicção de ter exercido o mandato ‘respeitando a população e os preceitos da democracia e da Justiça’. “O meu afastamento momentâneo da prefeitura e a posse provisória do vice-prefeito representam o resultado de uma formalidade jurídica, que acato com o coração apertado e a consciência tranquila”, declarou Marcos Aurélio Dias.