Joesley queria um presidente do Cade ‘ponta firme’

Joesley queria um presidente do Cade ‘ponta firme’

Na conversa que gravou com o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu, empresário do Grupo JBS conta que tentou interferir em mudanças no Banco Central, na CVM, na Receita e no BNDES

Rafael Moraes Moura, Beatriz Bulla e Breno Pires, de Brasília, e Luiz Vassallo, de São Paulo

19 Maio 2017 | 12h12

Joesley Batista, da JBS Friboi. Foto: Paulo Giandalia/Estadão

O empresário Joesley Batista ressaltou a necessidade de ter um presidente do Cade ‘ponta firme’, em conversa gravada com o presidente Michel Temer, no dia 7 de março deste ano.

O Cade é o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão antitruste do governo federal.

No mesmo diálogo, Temer supostamente avaliza a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB/RJ), condenado a 15 anos e quatro meses de prisão na Lava Jato, e foi informado sobre uma mesada de R$ 50 mil ao procurador da República Ângelo Goulart Villela para vazar investigações – o procurador foi preso na Operação Patmas, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira, 18.

O dono da JBS afirmou na conversa com o presidente que havia tentado influenciar também em mudanças no Banco Central, na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), na Receita Federal e no BNDES e recebeu negativas do ministro da Fazenda Henrique Meirelles. Durante a conversa, ele perguntou se poderia ‘ter uma sintonia’ com Temer em momentos nos quais ouvisse negativas de Henrique Meirelles.

“Henrique é muito disciplinado, minha relação é ótima com ele. Eu já andei falando com ele alguns assuntos. Conhecendo ele, ele é pra caramba… por exemplo, um dia eu falei com ele. Ah, no BC, tal. Ele disse: aquilo lá, o Ilan faz as coisas eu tiro fora. Aí que eu quero. Um dia eu falei: Henrique, precisa mexer na Receita Federal, porra”, afirmou Joesley.
Magina, o … está tanto tempo aí.
Põe outro cara, maquinando aí, um monte de coisa pra fazer.
Não, não posso mexer.”

O empresário contou a Temer ter tentado influenciar também na diretoria do BNDES. Segundo o dono da JBS, ele mencionou a instituição e Meirelles teria negado a mexer na pasta, já que ela é do Ministério do Planejamento. “Mas foi você que colocou a Maria Silva lá!”, teria questionado o empresário ao ministro. Meirelles teria respondido, de acordo com o relato de Joesley a Temer, que ‘isso era o Jucá’.

Joesley: Alguma sintonia contigo para quando eu falar com ele, ele não jogar: ‘Ah, não, o presidente não deixa. Não quer’. Mas você é um banana, não manda porra nenhuma! Aí eu falei com ele, o presidente do Cade ia mudar. Mudou ou botou alguém aí. Já mudou.
Temer: já

Em outro trecho da conversa, Joesley reforça a necessidade de manter influência no CADE.

“Eu não vou falar nada descabido. Agora, esse presidente do CADE, é importantíssimo ter um presidente do CADE ‘ponta firme’”, afirmou Joesley a Temer.

Na mesma conversa, Temer autorizou Joesley a tratar sobre qualquer assunto com Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR). Loures é acusado de receber propinas de R$ 500 mil semanais em troca de influência sobre o preço do gás fornecido pela Petrobrás à termelétrica EPE – o valor da propina, ’em favor de Temer’ é correspondente a 5% do lucro que o grupo teria com a manobra, segundo consta em anexo da delação de Joesley.

As tratativas teriam sido feitas entre o parlamentar, homem de confiança de Temer, e o presidente interino do CADE, Gilvandro Araújo, de acordo com a delação.

“Na segunda visita, JB pediu que Rodrigo intercedesse junto ao CADE, pois uma empresa controlada pela JF precisava de liminar para afastar o monopolio da Petrobrás do fornecimento de gás para termelétrica do Grupo JF. Ato contínuo, Rodrigo ligou para pessoa de nome Gilvandro, então Presidente interino do CADE, para tentar resolver. Rodrigo referiu-se a Gilvandro, nessa ocasião, como “um dos nossos meninos”, diz o anexo da delação.

Na conversa, Temer sugere que qualquer assunto entre eles pode ser tratado por Rocha Loures (PMDB-PR) .
“É o Rodrigo?”, pergunta Joesley.
“É o Rodrigo”, responde Temer.
“Ah, então, ótimo.”
“Eu prefiro combinar assim, ó. Se for alguma coisa que eu precisar, eu falo com o Rodrigo. Se for um assunto desse tipo, aí eu…”, afirmou Joesley.

0 Comentários