Joesley omitiu em delação negócio bilionário com as bênçãos de Palocci

Joesley omitiu em delação negócio bilionário com as bênçãos de Palocci

Empresário da JBS não revelou compra de grupo americano em 2009 com aporte de US$ 2 bilhões do BNDES quando fechou contrato de consultoria com empresa do ex-ministro dos Governos Lula e Dilma

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Valmar Hupsel Filho

06 Julho 2017 | 18h07

Antonio Palocci. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Atualizada em 7 de julho, às 16h23

A delação premiada do empresário Joesley Batista, pivô da crise que abala o governo Michel Temer, pode ser questionada pela Procuradoria-Geral da República porque o acionista da JBS teria omitido negócio bilionário do grupo realizado sob as bênçãos do ex-ministro Antônio Palocci (Fazenda e Casa Civil/Governos Lula e Dilma).

Segundo revelou o site O Antagonista, Joesley firmou contrato com Palocci, com cláusula de êxito, depois que a JBS adquiriu a empresa americana Pilgrim’s, Pride Corporation com aporte bilionário do BNDES. A informação foi confirmada pelo Estado.


A JBS repassou R$ 2,1 milhões à empresa Projeto Consultoria Empresarial e Financeira, de Palocci, entre dezembro de 2008 e junho de 2010.

+ Joesley diz não ter ‘qualquer interesse’ em proteger Palocci

O empresário que gravou a conversa com Temer no Palácio do Jaburu na noite de 7 de março afirmou à Procuradoria-Geral da República – já no curso da colaboração – que Palocci não facilitou nenhuma transação da JBS no BNDES.

Na época em que firmou contrato com a empresa de Palocci, a JBS comprou a Pilgrim’s por US$ 2,8 bilhões, dos quais US$ 2 bilhões saíram dos cofres do BNDES. Palocci exercia mandato de deputado federal pelo PT e detinha forte influência no governo – havia sido ministro da Fazenda de Lula e, depois, ministro-chefe da Casa Civil de Dilma.

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O contrato de consultoria previa o pagamento de comissão de êxito no valor equivalente a 0,10% do negócio, até o limite de R$ 2 milhões. Estava previsto adiantamento de honorários de R$ 500 mil.

No dia 21 de junho, Joesley depôs na Polícia Federal em Brasília e teve que explicar os motivos de ter contratado a Projeto Consultoria, a empresa de Palocci.

Documento

Como revelou a reportagem do Estado, no depoimento Joesley afirmou que ele e o petista eram ‘amigos íntimos’. O empresário declarou que ‘não tem qualquer interesse em proteger (Palocci)’.

“Esclarece que eram amigos íntimos, de frequentarem a casa um do outro, com próximo relacionamento familiar, inclusive de suas esposas se conhecerem; que, entretanto, o depoente esclarece que não tem qualquer interesse em protegê-lo”, afirmou o empresário.

Segundo Joesley, a Projeto foi contratada ‘para consultoria de macroeconomia e política do Brasil no valor mensal de RS 30mil a RS 50 mil’.

“Perguntado sobre o valor do contrato, o depoente não se recorda ao certo, mas acredita que tenha sido no valor de R$ 2 milhões; que o depoente não tem conhecimento de o contrato ter sido assinado em nome da esposa de Palocci”, afirmou.

A PF questionou o empresário se ele ‘já não tinha conhecimento suficiente a respeito de relacionamentos políticos e partidários em 2009’.

“Respondeu que não tinha a menor ideia das alianças e rivalidades entre políticos; que essas consultorias eram realizadas na sede da JBS durante almoços”, declarou. “O depoente afirma não saber que Palocci era deputado federal à época da assinatura do contrato; que perguntado se não acha estranho que Palocci tenha sido contratado para lhe dar aulas de política e que ao mesmo tempo desconheça o fato de que exercia o mandato de deputado à época, o depoente informa que, de fato, não sabia.”

Joesley afirmou que o ex-ministro foi contratado também ‘para realizar uma extensa pesquisa de mercado da macroeconomia americano’.

A delegada Danielle de Meneses Oliveira Mady confrontou Joesley. Segundo a delegada, em 2009, a empresa americana Pilgrims Pride Corporation foi a última aquisição do Grupo ‘e que portanto não haveria razão a justificar um amplo estudo’.

Em setembro daquele ano, JBS Friboi informou ao mercado que havia comprado, por US$ 2,8 bilhões, a Pilgrims Pride Corporation, por meio de sua subsidiária JBS USA Holdings, Inc. A companhia americana era uma das maiores empresas de carne de frango dos Estados Unidos.

Joesley declarou à PF ‘que os mercados de frango e came são completamente distintos’.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ALESSANDRO SILVÉRIO, QUE DEFENDE ANTONIO PALOCCI

“Certamente a importância paga e relatada se deve a atividade profissional de consultoria desenvolvida pelo ex-ministro em benefício da empresa capitaneada pelo senhor Joesley Batista. Nesse particular, não há nada de ilícito ou de ilegal em tal contratação.”

COM A PALAVRA, A J&F

“A J&F Investimentos nega enfaticamente que o contrato com a empresa Projeto Consultoria Empresarial e Financeira tenha relação com qualquer ato ilícito, conforme sugere a reportagem “Colaboração de Joesley pode ser questionada”, publicada na edição de 07/07 do jornal O Estado de S. Paulo. Além de já terem apresentado informações e documentos à Procuradoria-Geral da República, os colaboradores do Grupo continuam à disposição para cooperar com a Justiça e esclarecer o que for necessário.”