J&F contratou escritório de advocacia um dia antes de gravar Temer

J&F contratou escritório de advocacia um dia antes de gravar Temer

Ex-procurador Marcello Miller estava presente no dia da assinatura do contrato, mas, segundo o advogado e delator Francisco de Assis, a empresa não recebeu qualquer orientação

Beatriz Bulla e Rafael Moraes Moura, de Brasília

12 Setembro 2017 | 23h32

FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Em depoimento prestado na semana passada, o advogado e delator da J&F Francisco de Assis afirmou que a empresa assinou contrato com o escritório Trench Rossi Watanabe para que a banca tratasse da leniência no dia 6 de março. A assinatura aconteceu um dia antes do dono do grupo, Joesley Batista, gravar o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu – o áudio abriu caminho para as negociações de delação premiada dos executivos do grupo.

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O ex-procurador Marcello Miller esteve presente no escritório da J&F no dia da assinatura do contrato sobre a leniência. Miller já tinha pedido exoneração do Ministério Público Federal, mas ainda constava como procurador. Oficialmente, ele só deixou a instituição em abril e, depois, integrou o Trench Rossi.
Assis prestou depoimento na semana passada à PGR no âmbito do procedimento de revisão do acordo de delação assinado pelos executivos do grupo.

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O advogado e delator negou que o grupo tenha recebido qualquer orientação de autoridades sobre o que deveriam entregar na delação e que Miller nunca indicou que poderia influenciar o Ministério Público. Ele afirmou que Miller “nunca fez alusão a membros do MPF nem disse que poderia influenciar de nenhum modo; que tem a impressão de Marcelo Miller ser muito correto; que nunca fez pagamentos a Marcelo Miller”.

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O advogado disse que a proposta de leniência apresentada foi “do escritório Trench, não das pessoas físicas que ali estavam”. Segundo ele, “desde o primeiro contato” com Miller avaliava que estava falando com um ex-procurador e não com um procurador da República.

Ele detalha ainda que a primeira reunião com a Procuradoria-Geral da República (PGR) ocorreu no dia 2 março. No encontro, segundo Assis, fez uma apresentação sobre a empresa e ouviu como funcionava o processo de colaboração premiada. De acordo com o delator “nunca houve interferência de autoridade, no sentido de Joesley dizer algo para trazer ou não na colaboração; que no processo de escrever anexos todos tinham a liberdade”. Ainda segundo ele, só na reunião de 24 de março com a PGR os delatores falaram do presidente Michel Temer.

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O Estado não conseguiu contato com a defesa de Miller.

COM A PALAVRA, TRENCH ROSSI WATANABE

“Trench Rossi Watanabe confirma que está auxiliando as autoridades competentes e continua à disposição das mesmas, a exemplo de como tem se portado ao longo de seus mais de 50 anos de trajetória no mercado brasileiro de serviços jurídicos, sempre pautados pela ética e transparência. O escritório está entregando todos os documentos solicitados pela Procuradoria-Geral da República. Reitera ainda e que os profissionais mencionados nas investigações não fazem mais parte de seu quadro de advogados”.