“Janot espertão”

“Janot espertão”

No áudio que coloca em risco sua delação premiada, empresário Joesley Batista, da JBS, busca identificar os movimentos do procurador-geral da República e diz ao executivo do grupo Ricardo Saud que o chefe do Ministério Público Federal 'põe pressão'

Julia Affonso, Breno Pires e Rafael Moraes Moura

06 Setembro 2017 | 12h04

Rodrigo Janot. Foto: André Dusek/Estadão

No áudio que coloca em risco sua delação premiada, o empresário Joesley Batista, da JBS, se refere ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como ‘espertão’. Em um trecho das cerca de quatro horas de conversa com o executivo do grupo Ricardo Saud, também delator, Joesley tenta identificar quais seriam os passos de Janot na investigação.

OUÇA A TRAMA DE JOESLEY

Na segunda-feira, 4, ao pedir para investigar omissão de crimes no novo áudio, o procurador-geral afirmou que a gravação ‘contém indícios’ relatados pelos executivos, de ‘conduta, em tese, criminosa, do ex-procurador da República Marcelo Miller’.

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“Pensa você no lugar do Janot. Senta na cadeira do Janot”, sugere Joesley a Saud. “O Janot sabe tudo. A turma já falou pro Janot.”

Ricardo Saud cita Miller. “Você acha que o Marcelo já falou pro Janot?”

“ Não. Não é o Marcelo. O…”, diz Joesley.

“Anselmo”, emenda Saud.

“Anselmo e o Anselmo falou pro Pellela, falou pro não sei o que lá, que falou pro Janot. O Janot tá sabendo…Aí o Janot, espertão, que que o Janot falou? Bota pra foder, bota pra foder. Põe pressão neles, para eles entregarem tudo, mas não mexe com eles. Não vamos fodê, dar pânico neles, mas não mexe com eles”, diz o dono da JBS.

“Se está combinado, por que não está combinado com a gente?”, questiona Saud.

“Porque não pode ser combinado. Não pode ser combinado. Você não pode entender isso. Eu entendo. Eu não devia estar entendendo. Ninguém tá entendendo. Por isso que eu tô dizendo. Eu tenho a pretensão, que eu posso estar completamente errado. Eu tenho a pretensão de achar que eu tô entendendo. Eu acho que eu entendo o que as pessoas acham. Em condição normal de pressão e temperatura, eles estão fazendo o que é previsível deles fazerem. Pensa você no lugar deles. Eles são espertão. O que você fariam? Toca pressão nesse povo, mas não mexe com eles”, afirma Joesley.

Em outro trecho da conversa, o dono da JBS diz que tem a ‘pretensão’ de saber ‘o que as pessoas estão falando e pensando’.

“Eu reajo muito mais pelo que eu acho que você está pensando do que o que você está falando”, diz para Saud.

O colega afirma. “Tá certo. Deixa eu falar uma coisa. O Marcelo deu uma (…) para nós. É isso? Ele falou para o Janot que nós temos muito mais para entregar?”

“Vamos lá”, diz Joesley.

O empresário cita outro procurador da República, Eduardo Pelela, chefe do gabinete de Janot. “Vamos dar um passo atrás. Na minha cabeça. O Marcelo é do MPF. Ponto. O Marcelo tem linha direta com o Janot. Quando eu falo o Janot, é Janot, Pelella… Tudo a mesma coisa.”

“Eu não te falei? Olha a mensagem?”, pergunta Saud.

“Janot, Pelela, qual o nome daquele outro? Que a…”, diz Joesley.

“Eu sei… Janot, Pelella…”, afirma Saud.

“E o outro lá. Ricardo, nós somos jóia da coroa deles. O Marcelo já descobriu e já falou com o Janot: ‘Ô Janot, nós temos o pessoal que vai dar todas as provas que nós precisamos’. E ele já entendeu isso. A Fernanda surtou por quê? Porque a Fernanda entendeu que nós somos muito mais e nós podemos muito mais. Aí até a Fernanda perdeu o controle. Aí até a Fernanda falou: ‘Calma. Supremo, não. Calma. Vai foder meus amigos, vai’. Só para, Ricardinho, eu não vou conseguir te explicar. Ricardinho, confia nimim. É o seguinte, vamos conversando tudo. Nós vamos tocar esse negócio. Nós vamos sair lá na frente. Nós vamos sair amigos de todo mundo. E nós não vamos ser presos. Pronto. E nós vamos salvar a empresa.”


COM A PALAVRA, JOESLEY E SAUD

Depois que o conteúdo de sua conversa foi tornado público e abriu uma reviravolta no caso JBS, Joesley e Saud divulgaram um esclarecimento.
“A todos que tomaram conhecimento da nossa conversa, por meio de áudio por nós entregue à PGR, em cumprimento ao nosso acordo de colaboração, esclarecemos que as referências feitas por nós ao Excelentíssimo Senhor Procurador-Geral da República e aos Excelentíssimos Senhores e Senhoras Ministros do Supremo Tribunal Federal não guardam nenhuma conexão com a verdade. Não temos conhecimento de nenhum ato ilícito cometido por nenhuma dessas autoridades. O que nós falamos não é verdade, pedimos as mais sinceras desculpas por este ato desrespeitoso e vergonhoso e reiteramos o nosso mais profundo respeito aos Ministros e Ministras do Supremo Tribunal Federal, ao Procurador-Geral da República e a todos os membros do Ministério Público”.
Joesley Batista e Ricardo Saud

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