Irmãos JBS manipularam mercado após se comprometerem a parar de delinquir, diz PF

Irmãos JBS manipularam mercado após se comprometerem a parar de delinquir, diz PF

Delegado Victor Hugo Rodrigues Alves afirma que acionistas delatores do grupo 'lucraram milhões' com especulação na Bolsa e com moeda americana

Julia Affonso e Luiz Vassallo

14 Setembro 2017 | 05h00

Da esquerda para a direita: Joesley Batista e Wesley Batista. Fotos: Felipe Rau e Rafael Arbex/Estadão

O delegado Victor Hugo Rodrigues Alves, da Polícia Federal, afirmou que os irmãos Joesley e Wesley Batista, acionistas da JBS, ‘após obterem os benefícios da colaboração premiada, lucraram milhões no mercado com operações ilícitas’.

Os empresários são alvo de mandado de prisão preventiva expedido pelo juiz João Batista Gonçalves, da 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo, no âmbito da Operação Acerto de Contas, nova etapa da Tendão de Aquiles que revela como eles especularam no mercado financeiro e com a moeda americana.

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Joesley assinou delação em 3 de maio. Ele e outros executivos da J&F receberam imunidade total. O rol de benefícios garantia aos executivos que não poderiam ser denunciados, processados e condenados pelos crimes que cometeram até fechar o acordo.

Na Acerto de Contas, os irmãos são investigados pelo uso indevido de informações privilegiadas em transações no mercado financeiro ocorridas entre 24 de abril e 17 maio de 2017, data da divulgação de informações relacionadas à delação premiada firmada pelos executivos com a Procuradoria-Geral da República. A especulação resultou em lucros milionários para os delatores, afirma a PF.

Segundo o delegado, ‘a lei brasileira prevê punição para o uso de informações privilegiadas com a intenção de obter vantagens indevidas no mercado’.

“O que impressiona a todos é que esses crimes são gravíssimos. Eles não foram praticados por pessoas comuns, mas sim por pessoas que no momento em que estavam praticando esses crimes já tinham sido objeto de investigação, estavam sendo investigadas em seis operações da Polícia Federal e tinham procurado as autoridades propondo uma colaboração premiada no qual se comprometeram a parar de delinquir, demonstraram arrependimento e se dispuseram a colaborar com as investigações”, afirmou.

A Tendão de Aquiles investiga duas frentes de manipulação dos irmãos Batista no mercado financeiro.

A primeira é a realização de ordens de venda de ações de emissão da JBS S/A na Bolsa de Valores, entre 24 de abril e 17 de maio, por sua controladora, a empresa FB Participações S/A e a compra dessas ações, em mercado, por parte da empresa JBS S/A, manipulando o mercado e fazendo com que seus acionistas absorvessem parte do prejuízo decorrente da baixa das ações que, de outra maneira, somente a FB Participações, uma empresa de capital fechado, teria sofrido sozinha.

A segunda frente investigada na Acerto de Contas é a ‘intensa compra’ de contratos de derivativos de dólares entre 28 de abril e 17 de maio por parte da JBS S/A, segundo a PF em desacordo com a movimentação usual da empresa, gerando ganhos decorrentes da alta da moeda americana após o dia 17.

Victor Hugo Rodrigues e seu colega Rodrigo de Campos Costa, experientes no combate a crimes financeiros e corrupção, destacaram que os delitos dos Batista ‘foram comprovados por depoimentos, e-mails, relatórios da CVM e laudo pericial’.

“Ficou constatado nas investigações que, mesmo após obter os benefícios da colaboração premiada, os investigados lucraram milhões de reais no mercado com essas operações ilícitas”, anotou Victor Hugo.

“A vítima não foram só os acionistas da JBS, que tiveram que arcar com o prejuízo dos investigados, mas num contexto mais amplo, a vítima é o próprio país em que vivemos, na medida em que os crimes abalaram também a confiança no mercado, essencial para que as pessoas invistam no nosso País e isso promova o desenvolvimento”, declarou.

COM A PALAVRA, PIERPAOLO BOTTINI, QUE DEFENDE JOESLEY E WESLEY

“É injusta, absurda e lamentável a prisão preventiva de alguém que sempre esteve à disposição da justiça, prestou depoimentos e apresentou todos os documentos requeridos. O Estado brasileiro usa de todos os meios para promover uma vinganca contra aqueles que colaboraram com a Justiça.”

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