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Operação Alba Branca

Investigado da Alba Branca revela entrega de dinheiro em distribuidora de bebidas do deputado Marquezelli

Por Pedro Venceslau e Fausto Macedo

03/02/2016, 16h30

   

Carlos Luciano Lopes, vendedor da cooperativa suspeita de comandar esquema de fraudes na merenda, disse à Polícia e à Promotoria que acompanhou lobista a Pirassununga (SP); parlamentar é ouvidor-geral da Câmara

Deputado Nelson Marquezelli, do PTB. Foto: Divulgação

Deputado Nelson Marquezelli, do PTB. Foto: Divulgação

A Operação Alba Branca aponta a distribuidora de bebidas do deputado federal Nelson Marquezelli (PTB/SP), em Pirassununga, interior de São Paulo, como um dos endereços de suposta entrega de propinas da quadrilha da merenda escolar que agia em pelo menos 22 prefeituras e mirava em contratos da Secretaria da Educação do governo Alckmin.

Um dos alvos da investigação, Carlos Luciano Lopes, relatou ao Ministério Público e à Polícia Civil que o lobista da organização Marcel Ferreira Júlio fazia pagamentos naquele local de “comissões” sobre venda de produtos agrícolas superfaturados para merenda.

O depoimento de Lopes foi dado no dia 20 de janeiro, um dia depois que Alba Branca foi deflagrada.

Vendedor da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), carro-chefe do esquema de fraudes em licitações, Lopes contou que, em duas ocasiões, acompanhou um colega, César Bertholino, e o lobista Marcel Ferreira Júlio, filho do ex-deputado Leonel Júlio – cassado em 1976 pelo regime militar em meio ao famoso “escândalo das calcinhas”.

“Numa dessas vezes que César levava dinheiro para ele (Marcel), era combinado que se encontrariam na cidade de Pirassununga, onde o pagamento era realizado na distribuidora de bebidas de propriedade do deputado Nelson Marquezelli”, relatou Carlos Luciano Lopes.

Segundo ele, “nas duas oportunidades em que esteve presente, o pagamento da ‘comissão’ realizou-se no estacionamento da distribuidora'”.

O vendedor da Coaf afirmou. “Marcel guardava o dinheiro no seu automóvel, em seguida todos entravam no escritório do deputado, conversavam sobre assuntos políticos, mas em determinado momento da conversa o declarante e César Bertholino se retiravam da sala a pedido de Marcel.”

Ainda segundo o investigado, Marcel “ficava a sós com o deputado, alegando o declarante desconhecer o assunto do qual tratavam”.

Carlos Luciano Lopes declarou que nessas duas oportunidades ele e César Bertholino “aguardaram Marcel sair da sala do deputado e saíam com ele do escritório, não sabendo se depois ele retornava para entregar parte desta comissão ao deputado”.

Ele declarou: “Não sabe dizer se o deputado Nelson Marquezelli recebia ‘comissão’ do contrato firmado com o Estado; pelo que sabe o citado deputado também não recebia comissão de nenhum contrato de prefeituras.”

COM A PALAVRA, O DEPUTADO NELSON MARQUEZELLI (PTB/SP)

O deputado Nelson Marquezelli (PTB/SP), 74 anos, sétimo mandato consecutivo, ouvidor-geral da Câmara, reagiu com indignação à citação ao seu nome na Operação Alba Branca. Ele afirmou que não conhece o presidente da Coaf, Cássio Chebabi, nem os vendedores da cooperativa que o mencionam em depoimentos à Polícia Civil e ao Ministério Público de São Paulo.

Marquezelli disse que conhece Marcel Ferreira Júlio, filho do ex-deputado Leonel Júlio – cassado em 1976 pelo regime militar em meio ao ‘escândalo das calcinhas’.

Marcel é apontado pela Alba Branca como o lobista da quadrilha da merenda escolar que se infiltrou em pelo menos 22 prefeituras e que mirava em contratos da Secretaria da Educação do governo Geraldo Alckmin.

“Não conheço a cooperativa, nunca estive lá. Esse (Cássio Chebabi) vi agora pelo Jornal Nacional que pôs a foto dele, gordo com barba, nunca vi esse cara na minha frente. Conheço o Marcel, ele é filho de um grande amigo meu que foi presidente da Assembleia Legislativa e é meu cabo eleitoral. O pai dele (Marcel) sempre me arrumou voto em São Paulo.”

O deputado conta que há cerca de um ano Leonel Júlio ligou para ele avisando que o filho iria passar em seu escritório, no município de Pirassununga. “Ele (Leonel) disse que o Marcel ia a Bebedouro e no caminho ia passar no meu escritório para deixar uma garrafa de vinho para mim. Eu devolvi com uma garrafa de 51, eu disse ao rapaz ‘leva que ele bebe umas caipirinhas, ele gosta’. Então, nesse dia eu conheci (Marcel). Ele se intitulava vendedor, trabalhava em vendas, gostei dele, muito rápído, muito esperto, bem capacitado esse tal Marcel.”

Segundo Marquezelli, algum tempo depois Marcel o procurou com um pedido de registro de uma empresa no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), autarquia vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. “Eu não atuo em São Paulo, minha atuação é em Brasília. Ele (Marcel) trouxe uma reivindicação de registro de uma empresa no INPI para poder patentear. Alguma coisa sobre tratamento de esgoto. Eu trouxe a reivindicação porque é filho do Júlio (Leonel), passei pro Jurandir do meu gabinete. Ainda hoje (quarta, 3) perguntei para o Jurandir e aquele negócio do Marcel, já saiu? Não saiu, esse negócio de registro de patente é demorado. Ele (Marcel) me pediu porque o PTB tem o Ministério do Desenvolvimento da Indústria, o INPI é vinculado ao Ministério.”

“O Marcel tá sumido, liguei para o pai dele, quero saber que rolo é esse.”

Marquezelli é famoso do interior de São Paulo. Seu escritório político e o comercial, que reúne a administração de três fazendas e do jornal que possui, o JC Regional, ficam no município de Pirassununga.

O deputado disse que não conhece os investigados que o citaram em depoimentos. Um dos alvos da operação, Carlos Alberto Santana, narrou que ‘ouviu dizer’ que Marquezelli iria percorrer algumas cidades para indicar a Coaf para vendas de produtos destinados à merenda.

O petebista é enfático. “Jamais fiz isso, nunca soube o que era a cooperativa Coaf, nunca tinha ouvido falar. Fui presidente durante dez anos da Associação Brasileira de Citricultores. Tenho três fazendas onde crio gado e planto cana de açúcar e laranja. Em Bebedouro conheço alguns citricultores que votam em mim, mas é pouco voto, tive 53 (na última eleição). Não é minha área de atuação. Meu advogado já está entrando com ação em cima da cooperativa e estou também, por meio da procuradoria da Câmara, notificando todas as cidades para que digam se estive por lá, se encaminhei alguém ou algum pedido (pela Coaf).”

Marquezelli esclareceu que o estacionamento citado no depoimento de outro investigado não é o da distribuidora de bebidas. “É um pátio grande, para 20 ou 30 automóveis. Eu recebi o Marcel sim, ele não foi sozinho. Sempre tinha duas ou três pessoas com ele. Todo mundo que vai ao meu escritório é cadastrado pela minha secretária. Entra todo mundo. Eu não atendo ninguém de porta fechada. Onde eu trabalho não atendo de porta fechada. Tenho conhecimento da malandragem política. Eu vou processar todo mundo da cooperativa.”

Nelson Marquezelli diz que ‘não trabalha de graça’. “Meu honorário é o voto, eu não preciso de dinheiro, o dinheiro que eu tenho meus netos vão demorar prá gastar. O que eu preciso é de mandato bem feito, andar de cabeça erguida, reunir meus amigos pro cafezinho e pescar. Meus amigos estão estarrecidos. Por isso já estou tomando as medicas cabíveis. Pela Procuradoria da Câmara vamos notificar a cooperativa para que os denunciantes apresentem as provas de meu envolvimento. Depois dessa inquirição vou ingressar com as ações indenizatórias, mas não quero um centavo, um único tostão. Tudo será doado para a Santa Casa de Misericórdia de Pirassununga.”

“É uma quadrilha que tem lá nessa cooperativa. Vou falar com o Ministro do Desenvolvimento Agrário, parece que o ministério repassava dinheiro para a cooperativa. Deram um tiro no passarinho e mataram um elefante.”

 

 

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