Inimigos íntimos

Inimigos íntimos

Jorge Pontes*

11 Agosto 2017 | 04h35

Jorge Pontes. FOTO: Arquivo Pessoal

Um dos mais notáveis diretores que o FBI já teve, em toda sua História, foi Louis Freeh.

Foi ele quem conduziu as investigações do Bureau contra o então todo-poderoso Presidente Bill Clinton, na ocasião do escândalo que envolveu a estagiária Monica Lewinski.

Freeh teve uma trajetória invejável como homem da Lei. Iniciou a carreira ainda jovem, como Special Agent no FBI. Formado em Direito, foi, em seguida, Promotor Federal e Juiz Federal, ocasiões em que atuou nas mais complexas investigações anti-Mafia da Costa Leste dos EUA, entre eles a notória Pizza Connection.


A atuação de Freeh foi instrumental para a condução de um bem sucedido processo de delações premiadas que encarcerou de forma perpétua dezenas de mobsters de uma família mafiosa que atuava na Cidade de Nova York.

Ao final, ainda na casa de seus cinquenta anos, Freeh retornou ao FBI, como Diretor-Geral, a convite do Presidente Clinton.

No seu livro “My FBI, bringing down the mafia, investigating Bill Clinton, and fighting the war on terror”, Freeh conta uma passagem curiosa, que demonstra especialmente as suas seriedade e consciência profissional: ele chegara em casa do trabalho, encontrando sua mulher se arrumando para um jantar especialíssimo. O Diretor Geral e esposa tinham sido convidados, pelo próprio Presidente Clinton, para uma soirée na qual compareceriam Tom Hanks e outros astros de Hollywood. Nada poderia ser mais agradável do que um jantar e uma sessão de cinema privada na intimidade da Casa Branca…

Freeh chamou sua mulher e disse que não mais iriam ao evento, explicando que o FBI acabara de iniciar uma investigação contra Clinton, e que ele, como chefe, não poderia socializar com um investigado da agência que comandava, mormente fora de uma agenda de trabalho oficial e que fosse absolutamente necessária. Disse que sua presença ao lado do Presidente, num alegre convescote, poderia minar a confiança dos contribuintes que, ao fim e ao cabo, arcavam com as despesas do próprio FBI.

Mudando rapidamente o cenário, de Washington para Brasília, vemos que aqui o que se passa é exatamente o oposto.

Autoridades, Ministros do STF, Procuradores Gerais da República e outros detentores de importantes funções na persecução penal, encontrando-se à noite, fora da agenda, com políticos e autoridades investigadas e processadas.

Isso sem falar nos simpósios e conferências que ocorrem no exterior – às dezenas a cada ano – onde invariavelmente são convidados investigados e seus respectivos investigantes e julgadores.

Nessas conferências, os painéis são levados a efeito no mesmo dia, ou em lapsos de 48 horas, de forma que políticos e burocratas dos quais a sociedade já se encontra enojada e desencantada, encontram-se com Ministros do STF, muito certamente seus futuros julgadores, na condição de “colegas palestrantes”.

E conversam e conversam…

Aí valeria, antes de mais nada, a velha máxima da “Mulher de César”, que não apenas teria que ser honesta, mas, sobretudo, deveria parecer honesta.

Finalmente, algo que poderia arrefecer essa violenta e estranha atração que os políticos exercem sobre algumas pessoas, é retirar-lhes a competência de nomear aqueles que um dia possam vir a julga-los.

Jorge Pontes é Delegado de Polícia Federal e foi Diretor da Interpol no Brasil.

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