Hipocrisia da Igreja

Artigo escrito pelo procurador do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo, Thiago Pinheiro Lima

Redação

27 Outubro 2015 | 16h55

É senso comum que as Igrejas evangélicas adotam conduta rígida para disciplinar o comportamento dos fiéis que se desviam da doutrina pregada.

Sempre que algum de seus membros é flagrado praticando ato incompatível com as regras da Igreja é submetido a rigoroso julgamento disciplinar que, ao final, pode, inclusive, excluí-lo dos quadros da congregação.

Em procedimento célere e com poucas opções de defesa, o indivíduo é imediatamente levado a julgamento, resultando, na maioria das vezes, em constrangedora punição anunciada publicamente perante os demais “irmãos”, conforme presenciei inúmeras vezes na juventude.

Não faço qualquer juízo de valor sobre a livre opção de cada um em escolher a sua fé e nem tampouco a respeito da posição da Igreja em impor um código de conduta a ser observado por seus componentes.


Quero, em verdade, chamar atenção para a contradição existente no caso do Deputado Eduardo Cunha e questionar o porquê do tratamento diferenciado.

A premissa básica de qualquer religião evangélica é de que somos todos iguais e fomos criados à imagem e semelhança de Cristo. Aprendi nas classes bíblicas da Igreja a lição de que o “ímpio acerta o suborno em secreto, para perverter as veredas da justiça” (Provérbios 17:23) e que não devemos aceitar “nenhum tipo de suborno, pois o suborno cega até os que têm discernimento e prejudica a causa dos inocentes” (Êxodo 23:8).

Contudo, até o presente momento nenhum pastor ou chefe da Igreja veio a público para sequer criticar as atitudes ou anunciar uma investigação no âmbito de sua Igreja sobre os supostos desvios de conduta do Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara dos Deputados.

Os documentos tornados públicos com fortes indícios de violação ao oitavo mandamento, que impõe o dever de não roubar (Êxodo 20:15), não são suficientes para adoção de providências eclesiásticas?

Está sendo ele um bom exemplo de conduta para um cristão?

O adolescente que pratica sexo antes do casamento, o jovem que coloca um brinco na orelha, a mulher que usa uma calça jeans são punidos prontamente. E o membro que desvia dinheiro público, não será censurado?

* Thiago Pinheiro Lima, 32, criado em um lar evangélico, é Procurador do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo.

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