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“Há políticos sérios, há também os duvidosos e até os criminosos”, diz novo juiz eleitoral em SP

Mateus Coutinho

18 abril 2014 | 06:00

Alberto Zacharias Toron, nomeado pela presidente Dilma Rousseff para o Tribunal Regional Eleitoral/SP, não é contra empresa fazer doações

por Fausto Macedo

O criminalista Alberto Zacharias Toron, nomeado pela presidente Dilma Rousseff para vaga na classe jurista do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, disse que, “em princípio”, não se vê impedido para atuar em nenhum tipo de causa eleitoral.

“Tenho amigos e conhecidos em praticamente todos os grandes partidos”, afirma Toron, de 55 anos, que se notabilizou em 32 anos de atuação na advocacia criminal.

Toron diz que não é a favor do financiamento público de campanha, “num país que ainda é pobre, com significativos problemas nas áreas da saúde, educação e, entre muitas outras, o setor penitenciário”.

ESTADO: O FATO DE O SR. TER SIDO ADVOGADO DE JOÃO PAULO CUNHA NO PROCESSO DO MENSALÃO PODE TER PESADO PARA SUA NOMEAÇÃO?

ADVOGADO ALBERTO ZACHARIAS TORON: Eu não tenho vinculação com o PT, eu tenho vinculação com a Justiça. Sou advogado há 32 anos. Fui defensor do João Paulo, mas também sou defensor de uma empresa do cartel do Metrô de São Paulo, fui defensor do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto (condenado pelo desvio de verbas das obras do Fórum Trabalhista da Capital), do ex-juiz Rocha Mattos (Caso Anaconda), do Boris Berezowski (caso MSI/Corinthians). Estou nas principais demandas. Atuo nas mais importantes operações da Polícia Federal. Eu me orgulho do meu trabalho, vivo do meu trabalho. Sou filho de imigrantes, tudo o que eu tenho é graças à advocacia e sou muito grato à Justiça do meu País.

Foto: Jf. Diorio/Estadão

ESTADO: COMO ENCARA O NOVO DESAFIO?

ALBERTO TORON: Minha disposição é fazer com que as leis sejam cumpridas em sintonia com o que jurisprudência vem dizendo. Sou muito preocupado em seguir o padrão de decisão dos tribunais superiores, de modo a ter uma sintonia com a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral.

ESTADO: É A FAVOR DO FINANCIAMENTO PÚBLICO DE CAMPANHA?

ALBERTO TORON: Particularmente, não sou a favor do financiamento público de campanhas. Num país que ainda é pobre, com significativos problemas nas áreas da saúde, educação e, entre muitas outras, o setor penitenciário, parece-me uma demasia que também se sustentem as campanhas dos partidos.

ESTADO: O SR. CONSIDERA QUE EMPRESAS PODEM FAZER DOAÇÕES ELEITORAIS?

ALBERTO TORON: Do meu ponto de vista, respeitadas as posições divergentes, não consigo identificar qualquer ilegalidade na doação feita por empresas. No ponto, minha posição se afina mais com a do ministro Gilmar Mendes que, todavia, parece ser minoritária no Supremo Tribunal Federal, no julgamento sobre a matéria, que ainda está inconcluso. Entendo que as empresas podem, em tese, fazer doações, mas obviamente vou me submeter ao critério da maioria, aquilo que o Supremo indicar.

ESTADO: QUE INTERESSE UMA EMPRESA TEM EM FAZER DOAÇÕES PARA POLÍTICOS?

ALBERTO TORON: Empresas, desconsiderados interesses escusos, podem ter interesse na proposta de desenvolvimento econômico deste ou daquele partido e por isso o apoio. Não vejo mal nisso. É, até onde enxergo, parte do jogo democrático.

ESTADO: NÃO HÁ IMPEDIMENTO EM CONTINUAR ADVOGANDO? PODE ATUAR EM CAUSAS ELEITORAIS?

ALBERTO TORON: Estou absolutamente impedido de advogar no eleitoral e assim será. Nas demais áreas poderei advogar. Como todos sabem, sou criminalista há mais de 30 anos e só nessa área é que advogo.

ESTADO: QUAL A IMAGEM QUE O SR. TEM DO POLÍTICO BRASILEIRO? E SUAS IMPRESSÕES SOBRE A POLÍTICA DO PAÍS?

ALBERTO TORON: Há muitos políticos sérios e competentes. Há também os duvidosos e, infelizmente, até os criminosos. Mas não é diferente no empresariado, na advocacia e até na magistratura. A sociedade tem um pouco de tudo. No caso dos políticos, porém, como a visibilidade destes é maior e sua responsabilidade social é igualmente de destaque, tudo aparece mais. O certo é reprimir e prevenir desvios. Não podemos, contudo, desqualificar os políticos e a política de uma maneira geral, sob pena de desembocarmos em um novo período autoritário.

ESTADO: O SR. SE DARÁ POR IMPEDIDO PARA JULGAR DEMANDA RELATIVA A ALGUM POLÍTICO OU A ALGUM PARTIDO NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES?

ALBERTO TORON: Em princípio, não me vejo impedido para nenhum tipo de causa eleitoral. Tenho amigos e conhecidos em praticamente todos os grandes partidos e ja fui presidente do Conselho estadual de entorpecentes no Governo Covas em 95/96.