Greenfield aponta negociação ’em instâncias políticas superiores’ para J&F conseguir R$ 544 mi de fundos

Os investigadores ainda apontam para possibilidade de que "pressões políticas e lobbies realizados por grupos econômicos próximos ao governo federal" tenham influenciado outros 7 casos envolvendo cifras bilionárias

Fabio Serapião, de Brasília, e Fausto Macedo

06 Setembro 2016 | 12h25

No relatório em que detalham a possível “gestão temerária e fraudulenta” em investimentos realizados pelos quatro maiores fundos de pensão de estatais, a delegada Rúbia Pinheiro e o procurador Anselmo Cordeiro Lopes levantam suspeita sobre os motivos que levaram a Funcef e o Petros a investir, por meio da FIP Florestal, na Eldorado Brasil Celulose S.A. Segundo os investigadores “sabe-se que a mencionada empresa é controlada pelo grupo J&F, grupo este que é um dos principais doadores de campanha do Partido dos Trabalhadores”.

No entendimento da delegada e do procurador,  o  fato do aporte ter sido “apresentado e pré-aprovado diretamente pelo diretor de Investimentos da Petros” indica que o investimento já havia sido “negociado por instâncias políticas superiores entre os fundos de pensão e o grupo econômico proprietário das empresas”.

O FIP Florestal contou com o aporte de R$ 272,2 milhões da Funcef e outro de mesmo valor do Petros, pagos entre os anos de 2009 e 2010. O investimento teve como destinatário a empresa Eldorado Brasil Celulose que tem como acionista a holding J&F Investimentos, da família Batista. Os irmãos Wesley e Joesley tiveram condução coercitiva solicitada na Greenfield. Joesley estava fora do país e prestará depoimento no seu retorno, Wesley foi ouvido pela Polícia Federal.


Ainda segundo os investigadores,  é bastante suspeito na operação o fato de o investigado Humberto Pires Grault Vianna de Lima ter sido funcionário da Petros, estando na função de Gerente da Assessoria de Novos Projetos, e, posteriormente, atuar como presidente e diretor da Vitória Asset Management S/A – gestora inicial do FIP.  O mesmo Viana de Lima é, atualmente, funcionário da Funcef.

Como corre por uma vara criminal da 1ª Instância da Justiça Federal, a Greenfield não tem como foco políticos ou agentes públicos com foro por prerrogativa de função, o foro privilegiado.  Entretanto, os apontamentos dos investigadores no relatório em que pediram para que 40 alvos da investigação fossem afastados de suas empresas e fundos indicam que as investigações, assim como no caso da Lava Jato, em algum momento, devem se desdobrar em inquéritos nas cortes superiores. O objetivo será descobrir quem são os políticos dessa “instância superior” citada.

Além do caso da empresa da família Batista, os investigadores apontam  a “suspeita de que pressões políticas e lobbies realizados por grupos econômicos próximos ao governo federal tenham pressionado a diretoria e os conselhos deliberativos dos fundos de pensão” para liberar os aportes em cinco casos investigados pela Greenfield.  São eles: FIP Multiner, FIP Enseada, FIP RG Estaleiros, FIP Global Equity e Invepar.

No caso do FIP OAS Empreendimentos, os investigadores afirmam ser “necessário investigar mais a fundo as razões que levaram a Funcef a investir na OAS Empreendimentos, considerando a influência que o Grupo OAS exerce sobre o Poder Público Federal”.

Ao explicar o investimento no FIP Sondas, responsável pela Sete Brasil, o relatório lembra as informações “públicas e notórias de que, apesar da iliquidez do investimento e do risco de prejuízos, a opção pelo investimento da Funcef na Sete Brasil S/A (assim como noutras empresas) deu-se por motivos políticos e possivelmente por pressão de grupos representados por lobistas”.

A Operação Greenfield

A Greenfield investiga a ‘gestão temerária e fraudulenta’ de quatro dos maiores fundos de pensão do país: Funcef, Petros, Previ e Postalis. A ação é conjunta da Polícia Federal com o Ministério Público Federal, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar – PREVIC e a Comissão de Valores Mobiliários – CVM.

A casa do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi alvo de busca e apreensão. O empresário Walter Torre e o ex-presidente do Postalis Alexej Predtechensky foram conduzidos coercitivamente – quando o investigado é levado a depor e liberado.

Alexej Predtechensky foi denunciado, em julho deste ano, pela Procuradoria da República, em São Paulo. O ex-presidente do Postalis e mais sete investigados são acusados de fraude $ 465 milhões no fundo de pensão dos Correios.

A Justiça Federal mandou cumprir 127 mandados – sete de prisão temporária, 106 de busca e apreensão e 34 de condução coercitiva nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Amazonas, além do Distrito Federal.

A decisão judicial ainda determinou o sequestro de bens e o bloqueio de ativos e de recursos em contas bancárias de 103 pessoas físicas e jurídicas que são alvos da operação no valor aproximado de R$ 8 bilhões.

COM A PALAVRA, A J&F

A respeito da presença da Polícia Federal hoje nas sedes da J&F e da Eldorado por ocasião da operação Greenfield e que investiga os investimentos dos fundos de pensão por meio dos FIPs (Fundos de Investimentos em Participações), a empresa esclarece que os investimentos feitos pela Petros e Funcef na Eldorado Grupo J&F informou na noite desta segunda-feira, 5, que sua relação com os fundos de pensão ‘sempre se pautou pela ética e pela impessoalidade’

LEIA A INTEGRA DA NOTA DIVULGADA PELA FSB COMUNICAÇÃO, EM NOME DO GRUPO J&F
“O grupo J&F, com 63 anos de história, 150 mil colaboradores e 50 mil fornecedores no Brasil, reitera que sempre esteve à disposição das autoridades e que sua relação com os fundos de pensão sempre se pautou pela ética e pfela impessoalidade.

Informamos que a participação de Petros e Funcef na Eldorado Celulose vale hoje cerca de R$ 3 bilhões, segundo laudos de duas renomadas auditorias independentes. Esse valor é cerca de seis vezes maior do que o investido por eles em 2009, que foi de R$ 550 milhões.

Lamentamos a forma pela qual a companhia foi exposta. Estamos empenhados para impedir que isso venha a causar prejuízos a nossos colaboradores, suas famílias, parceiros e investidores.

Estamos confiantes de que, juntos, trabalharemos pela continuidade do crescimento sustentável da J&F e de todas as suas empresas.”

COM A PALAVRA, A PETROS

“A Petros informa que está colaborando com a Polícia Federal, com o Ministério Público e demais órgãos responsáveis por investigações que envolvem a Fundação. A decisão judicial que determinou a busca e apreensão nesta segunda-feira (5/9), na sede da Petros, refere-se a documentos de investimentos cujo processo de decisão ocorreu até 2011. A Petros reforça o comprometimento da gestão com a transparência, as boas práticas de governança e a responsabilidade na administração dos recursos.”

COM A PALAVRA, A PREVI

A Previ afirma que possui um “modelo de governança maduro e transparente” e que reforçou seu “compromisso com o aprimoramento do sistema de Previdência Complementar Fechado”. Após a operação realizada pela PF, a Previ frisou que “toda a documentação requerida foi disponibilizada”.

“A Previ possui um modelo de governança maduro e transparente, um corpo técnico qualificado e as decisões de investimento são pautadas por políticas e diretrizes bem definidas, que sempre buscam a remuneração adequada do capital no longo prazo. É importante lembrar que todas as decisões são colegiadas, pautadas em análises técnicas”, diz, em nota.

No mesmo documento, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil destaca que no âmbito da CPI dos fundos de pensão, concluída recentemente, “o relatório final da investigação confirmou a boa governança”. E completa que “nenhum dirigente ou executivo da Entidade estava entre as pessoas indiciadas pela comissão, assim como qualquer constatação de irregularidades do fundo.”

Por fim, a Previ se colocou à disposição da Justiça e das instituições brasileiras para prestar esclarecimentos. “A Entidade segue confiante na solvência e liquidez de seus planos e firme na sua missão de pagar benefícios aos seus mais de 200 mil associados.”

COM A PALAVRA, O POSTALIS

O Postalis informou que se colocou à disposição das autoridades e “tem todo interesse que os fatos investigados sejam esclarecidos com celeridade”.

“Devido à operação, alguns serviços poderão estar indisponíveis ao longo do dia. Os Núcleos Regionais Postalis – NRP estão funcionando normalmente”, destaca o Postalis. A fundação disse ainda que, após tomar ciência dos detalhes da investigação, fará novo pronunciamento.

COM A PALAVRA, A FUNCEF

“A Fundação reitera que possui rigorosos padrões éticos em todos os investimentos e na relação com seus participantes e assistidos e reafirma que está, como sempre esteve, à disposição das autoridades competentes para prestar os esclarecimentos que vierem a ser solicitados”, afirma a entidade na nota.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA LUIZ FLÁVIO BORGES D’URSO, DEFENSOR DE JOÃO VACCARI NETO

O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende Vaccari, declarou. “No que diz respeito à busca e apreensão realizada na residência do sr. Vaccari quero dizer que trata-se de uma providência absolutamente desnecessária. Em todos os casos nos quais é citado, o sr. Vaccari já foi objeto de todo tipo de investigação e de quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico. Não há nenhum elemento que traga prova contra ele.”

COM A PALAVRA, A WTORRE

Em nota, a WTorre esclareceu que ‘não tem negócios na esfera do Poder Público’. A empresa informou que ‘sempre que solicitados, seus executivos estão à disposição da Justiça e demais autoridades’

LEIA A ÍNTEGRA DA NOTA DA WTORRE

NOTA À IMPRENSA

São Paulo, 05 de setembro de 2016 –  O Grupo WTorre vem novamente à público esclarecer que não tem negócios na esfera do Poder Público. A companhia não teve e não tem nenhuma relação direta com nenhum dos fundos de pensão citados na Operação Greenfield.

COM A PALAVRA, O PT:

“O PT repudia a desnecessária e arbitrária ação de busca e apreensão realizada nesta segunda-feira (05/09) na residência da família do companheiro João Vaccari Neto.
Já não bastasse o fato de Vaccari estar preso injustamente em Curitiba há mais de ano, a operação de hoje, motivada exclusivamente por relatos de delatores, representa mais uma entre tantas arbitrariedades de que têm sido vítimas Vaccari e seus familiares.

São Paulo, 5 de setembro de 2016.

Rui Falcão
Presidente Nacional do PT”

0 Comentários