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Operação Alba Branca

Grampos mostram que ‘Moita’, do PSDB, operava ‘do Palácio’ para quadrilha da merenda

Por Fausto Macedo e Pedro Venceslau

01/02/2016, 05h30

   

Luiz Roberto dos Santos, ex-chefe de gabinete da Casa Civil de Alckmin, caiu na interceptação telefônica da Operação Alba Branca orientando parceiros sobre contratos

Da esq. para a dir.: A secretária Elaine Vogel, o prefeito Jamil Ono, Luiz Roberto dos Santos e o vereador Cristiano durante reunião no Palácio dos Bandeirantes em dezembro de 2015. Foto: Prefeitura de Andradina

Da esq. para a dir.: A secretária Elaine Vogel, o prefeito Jamil Ono, Luiz Roberto dos Santos e o vereador Cristiano durante reunião no Palácio dos Bandeirantes em dezembro de 2015. Foto: Prefeitura de Andradina

A Operação Alba Branca revela que Luiz Roberto dos Santos, o “Moita”, então braço direito do secretário-chefe da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin, operava para a quadrilha da merenda escolar de sua sala no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. “Moita” caiu no grampo da Polícia Civil várias vezes dizendo a interlocutores “tô no Palácio”.

Relatório policial mostra que ele mantinha sucessivos contatos ao celular, de seu próprio gabinete, com integrantes da organização sob suspeita de fraudar licitações e superfaturar produtos agrícolas e suco de laranja destinados à merenda.

Um dia antes da deflagração da Alba Branca, “Moita” foi demitido do cargo de confiança que ocupava. O secretário Edson Aparecido o devolveu à função de origem na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

Boa parte dos grampos pega “Moita” orientando o lobista Marcel Ferreira Júlio, apontado como operador de propinas da organização que se infiltrou em pelo menos 22 prefeituras paulistas e mirava em contratos da Secretaria da Educação do Estado. “Moita” fala sempre de um número de celular e diz que está “no Palácio”.

O dossiê Alba Branca indica o campo de ação de “Moita”. Ele age diretamente para atender aos interesses da Coaf (Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar), apontada como carro-chefe da fraude.

O presidente da Coaf, Cássio Chebabi, confessou à polícia e ao Ministério Público como era o trabalho de “cooptação” de gestores municipais e que as propinas pagas eram equivalentes a 10% sobre o valor dos contratos. Segundo ele, “quando a Coaf atrasava (as comissões), devido a dificuldades financeiras, eram feitas retaliações e ameaças”.

“As apurações demonstraram que Marcel trabalhou em duas frentes para a Coaf. A primeira, num contrato firmado com a Secretaria de Educação do Estado, onde aparentemente se deu a participação de “Moita” e, a segunda, “em contratos firmados com Prefeituras”, diz o relatório policial.

A atuação de “Moita” é incisiva, atestam os investigadores. Uma interceptação pegou o então assessor de Edson Aparecido sugerindo ao lobista Marcel Ferreira Júlio que pedisse reequilíbrio financeiro de contrato de merenda, e não aditamento. “Moita” contou que tinha falado antes com Fernando Padula, na época chefe de gabinete da Educação, de quem disse ter recebido a orientação.

Documento

“As interceptações trouxeram a lume a participação no esquema dos indivíduos apontados como ‘Moita’ e Alex”, destaca o inquérito. “Marcel menciona mais de uma vez que Alex, que seria da Executiva do PMDB, iria fazer o primeiro contato com prefeitos para depois a prefeitura ser visitada pelos vendedores da Coaf. A partir daí, o órgão público é visitado, já com a proposta da comissão, negociada de acordo com o valor do contrato pactuado.”

O relatório assinala que “os valores enviados em espécie para Marcel pelo vendedor César (Bertholino) se deu em razão do contrato firmado entre a Coaf e a Secretaria de Educação”.

O documento, de 7 de janeiro, é subscrito pelos delegados de polícia Mário José Gonçalves, presidente do inquérito, Paulo Roberto Montelli e João Vitor Silvério.

“Sobre este tema o investigado Marcel se refere diretamente ao indivíduo apontado como ‘Moita’ e conversa com ele sobre o assunto. As informações trazidas por eles mesmos nas conversas se trata de Luiz Roberto dos Santos, atual chefe de Gabinete da Casa Civil de São Paulo, conhecido também por ‘Luiz Moita’, o qual demonstra nas conversas interceptadas saber e interferir nos assuntos de interesse da Coaf e que estaria agindo diretamente num contrato da cooperativa com o Estado, cujo reajuste de preço deveria ser tratado como ‘reequilíbrio financeiro’.”

Segundo a Polícia, os grampos “demonstram que ‘Moita’ mostra claramente estar íntimo de César e que se imiscui, profundamente, nos assuntos da Coaf”.

No dia 4 de dezembro de 2015, às 12h34, “Moita” liga para Marcel.

“Moita”: Eu tava enrolado com esse negócio de escola prá cima e prá baixo, não dá nem prá eu pensar nas minhas coisas, mil e duzentos, mil e trezentos, mil e quatrocentos, mil e quinhentos o mínimo.

Marcel: Ah, então não é melhor eu te mandar isso aí prá segunda, você tá hoje trabalhando?

“Moita”: Eu tô no Palácio.

Marcel: Até que horas você fica?

“Moita”: Até as 6, eu não saio antes.

Marcel: Fica tranquilo, pelo menos a gente já matamos os dois, e o da Coaf. Eles estão chegando na terça-feira aqui com o freezer da Coaf e eu já te cobro também.

“Moita”: Tá bom, valeu.

No mesmo dia, às 15h09, “Moita” informa o lobista sobre a queda do então secretário da Educação, Herman Voorwald – na ocasião, o governo Alckmin vivia uma etapa de grande tensão com os estudantes que ocupavam dezenas de escolas em protesto contra projeto de reorganização do ensino.

Na conversa, “Moita” citou o nome de Fernando Padula, então chefe de gabinete da Educação.

Os dois falam sobre um contrato da Coaf com a pasta.

“Moita”: Tudo bem graças a Deus acabei de falar com o Padula.

Marcel: Opa.

“Moita”: E ele entende, assim como eu, que não é aditivo tá, é reequilíbrio financeiro.

Marcel: Ah, então tem que pedir por reequilíbrio né.

“Moita”: É, não põe aditivo porque você não tá mantendo o preço. Cê tá pedindo a atualização monetária de dólar, aquelas coisas entendeu. Então, tem que tirar aditivo lá, ele falou que vai mandar pro departamento, tá, ele não garantia porque também tá pendurado lá agora, você sabe né.

Marcel: Eu sei isso.

“Moita”: Caiu o Herman, viu.

Marcel: Não sabia, não sabia.

“Moita”: Então, ele é o cara que tava na frente com isso, eu nem sei se continua, então protocola logo.

O ex-chefe de gabinete da Casa Civil do governo Alckmin Luiz Roberto dos Santos “Moita” não respondeu aos contatos da reportagem.

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