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Grampo mostra Lula como interlocutor do PMDB

Em projeto que governo sofreu derrota no Congresso, sobre participação da Petrobrás na exploração do petróleo do pré-sal, ex-presidente relata jantar com Sarney, Renan e Jucá, que articularam com PSDB proposta aprovada em desacordo com a base

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Ricardo Brandt, Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

29 Março 2016 | 12h25

Em 9 de março, Lula foi a um café da manhã na residência oficial do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Foto: Dida Sampaio/Estadão

Em 9 de março, Lula foi a um café da manhã na residência oficial do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Foto: Dida Sampaio/Estadão

Atualizado às 19h10

Os grampos da Operação Lava Jato, que monitoraram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com autorização da Justiça, mostram que mesmo fora do governo ele foi um dos principais interlocutores de caciques do PMDB, que nesta terça-feira, 29, desembarcam da base de sustentação da presidente Dilma Rousseff.

Em conversa gravada da entre Lula e o então ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, no final de fevereiro, os dois discutem os bastidores da aprovação pelo Senado do projeto que acabou com a participação obrigatória da Petrobrás na exploração do petróleo nos campos do pré-sal – uma das derrotas do governo Dilma no Congresso.

Proposta pelo senador José Serra (PSDB-SP) – arquirrival dos petistas – o projeto foi aprovado no dia 24, com texto substitutivo do senador Romero Jucá (PMDB-RR), após acordo entre o PSDB e parte da bancada peemedebista.

“A orientação que ela (presidente Dilma Rousseff) passou: só não pode dar o Serra”, afirma Wagner, para Lula, em conversa após a aprovação do projeto pelo Senado.

Lula então conta que esteve reunido com a bancada governista do PMDB e tratou do assunto. “Deixa eu te falar uma coisa de bom senso, vai ficar entre eu e você essa porra. Logo que foi a primeira votação do
José Serra, você está lembrado? Eu estava em um almoço, Jucá, Renan (Calheiros, presidente do Senado), (José) Sarney, (Edison) Lobão, eu. Quando me disseram que o Renan ia votar a posição do Serra, eu falei na mesa ‘o Renan, pelo amor de Deus, o PMDB não pode embarcar nessa porra. O PMDB pode até flexibilizar mas garantindo que a decisão seja da Petrobrás”.

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Para Lula, “no fundo, no fundo, um pouco dos que eles fizeram foi isso” ao aprovar o projeto, com o substitutivo de Jucá.

Briga. Ao saber de Lula que ele havia se encontrado com a cúpula congressista do PMDB, Wagner fala: “Presidente ainda bem que você tocou no ponto, porque o Renan publicamente estava trabalhando para
essa posição que ficou saindo. Então a gente ia ficar no isolamento, porque o Lindbergh acha que ia ganhar.”

Lula responde: “Sabe, de vez em quando você não briga com ‘Fatinha’ (mulher de Wagner) por nada?”. “Às vezes a gente não briga em casa sem saber o por que? Aí depois que a gente briga, que fica puto, toma dois uísques, nervoso… a gente fica perguntando ‘por que eu briguei, car…”

Wagner disse que defendeu Dilma com petistas, afirmando que ela não mudou de posição. “Só não acusem essa senhora do que ela não fez, ela não mudou a posição dela, outra coisa é o que o Congresso ia votar.”

O diálogo gravado entre os dois petistas ocorre no domingo, 28 de fevereiro, após a festa de aniversário dos 36 anos do PT, no Rio, em que Lula fez discurso aos partidários. O ministro da Casa Civil começa a conversa dizendo que tinha uma reunião marcada com senadores e que não queria desmarcar por conta da votação do projeto da Petrobrás.

“A festa foi boa. Acho que não tinha aquele mal humor que a imprensa falava contra a Dilma, sabe. Eu falei ó ‘tem problemas? Tem. O partido não é obrigado a acatar tudo que o governo faz, o governo não é
obrigado a atender tudo que o partido quer. Mas temos que ter em conta que a Dilma é nossa presidenta. E ela sabe que somos o exército dela”, afirma Lula.

O ex-presidente brinca com Wagner: “É que nem a mãe da gente, faz comida a gente não gosta, mas come”.

Lula demostra desacordo com o enfrentamento travado pelo governo no Congresso pela aprovação do projeto – o Senado aprovou por 40 votos favoráveis, 26 contrários e duas abstenções, o texto substitutivo
alterando as regras de exploração de petróleo do pré-sal. A proposta retira da Petrobrás a exclusividade das atividades no pré-sal e acaba com a obrigação de a estatal a participar com pelo menos 30% dos investimentos em todos os consórcios de exploração dos campos.

“Sabe, de vez em quando a gente briga com fatia por nada”, diz Lula. O ex-presidente diz que “continua achando que tem uma coisa que o pessoal se queixa”. “Que é a porra do diálogo.”

Ele relata então conversa com lideranças sindicais, que tinham ato público marcado contra o governo Dilma. “Vamos imaginar que a medida provisória do Serra era o bode. Tirou o bode da sala e colou uma coisa mais razoável, que é garantir que a Petrobrás tenha preferência, mas que pode ser negociado montando uma boa diretoria da Petrobrás, um bom conselho nacional de política energética”, afirma Lula.

Para o ex-presidente, “ficará também muito ruim se a Petrobrás mantém a titularidade e não tem dinheiro para fazer nada”. “Acho que Dilma poderia conversar com a nossa base, criando uma comissão especial para tentar fazer um a cordo estratégico com os chineses em cima do pré-sal, porra, em cima desses 30%. Tentando dar para os caras um discurso que coloca, como fala, um capilé, uma rota de fuga.”

 

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